Os factos revelados pelo relatório PISA


Paulo Sousa,

Gostaria de ter mais tempo para fazer uma elaboração mais extensa sobre este assunto, mas alguma coisa tem de ser dita pois não posso passar por isto como se nada tivesse acontecido.

Os resultados recentemente divulgados no relatório PISA são péssimos. Na Matemática e em Leitura os resultados são os piores de sempre. Em Ciências, os dados equivalem aos alcançados em 2006.

«Os pontos do PISA são abstratos. Vale a pena traduzi-los. A OCDE divide a escala em seis níveis e trata o nível 2 como o mínimo para funcionar numa sociedade moderna. Em Leitura, um aluno no nível 2 consegue identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, encontrar uma informação quando lhe dizem o que procurar e refletir sobre o que leu se lhe pedirem explicitamente. Um aluno abaixo desse nível consegue, quanto muito, localizar uma informação explícita numa passagem curta e simples sobre um assunto que já conhece. Não retira o sentido de um texto seguido. Em Portugal, 28% dos alunos de quinze anos estão abaixo do nível 2 em Leitura. Mais de um em cada quatro. Em 2015 eram 17%..»

Em Matemática, o nível 2 é conseguir, sem que ninguém lhe diga como, traduzir uma situação simples em números: comparar a distância total de dois percursos alternativos, converter um preço para outra moeda, perceber uma fatura. Em Portugal, 35% dos alunos de quinze anos não chegam lá. Um em cada três; em 2015 era um em cada quatro. Em Ciências, o nível 2 é reconhecer a explicação correta de um fenómeno familiar e dizer, num caso simples, se uma conclusão é válida à luz dos dados. Não chegam 24%. E 18,6% dos alunos portugueses estão abaixo do mínimo nas três áreas ao mesmo tempo: um em cada cinco adolescentes que vão votar daqui a três anos não lê um texto seguido, não converte um preço e não distingue uma conclusão válida de uma inválida.» *

Para entender melhor o problema, gostei de ouvir a explicação dada por Rodrigo Moita de Deus na RTP.

As políticas educativas são uma consequência do entendimento sobre o papel que o ensino público deve ter. As decisões políticas que nos trouxeram até aqui têm um rosto e o anterior ministro da Educação já veio a público reconhecer o seu tremendo falhanço. Este é um dos legado que ele, e o governo de que fez parte, deixaram ao país.

Mesmo sabendo que pode causar algumas dores, não posso deixar de aqui recordar esta intervenção de Pedro Passos Coelho na Assembleia da República. Perante este relatório PISA, não há como negar quem naquelas imagens esteve do lado certo e do lado errado da história. Em 2015 o tema podia ser debatido com sendo uma opinião. Em 2027, o que está à nossa vista são apenas factos. 

* Excerto do artigo de Pedro Santa Clara no Observador.

27 comentários em “Os factos revelados pelo relatório PISA”

  1. A situação não se resolve com o apontar de responsabilidades ao anterior ministro, há que fazer as devidas alterações para corrigir a situação para melhor.
    As razões apontadas para responsabilizar o antigo ministro não tem consistencia pelo que se é pelas mesmas que vão fazer alterações, ficará tudo na mesma ou pior.
    Há que identificar as verdadeiras causas e colocar o foco em corrigir o que de mau foi feito, bem o que ficou por fazer, e não perderem-se em passa culpas.
    A recente cena lamentavel dos exames que colocou alguns no ensino superior sem saber como, e deixou de igual modo outros de fora não deixa bons indicios para o futuro, mas tenhamos esperança.

    1. Importa aprender com os erros e por isso é bom identificar quais as políticas que, aparentemente bem intencionadas, acentuaram as desvantagens dos mais desfavorecidos. Podemos fingir que não sabemos quem as defendeu, nem quem é que à época avisou que aquele era um mau caminho, mas não entendo qual será a vantagem em fazê-lo. Pelo contrário só vejo consequências negativas em não designar esta última década como a década do ensino do PS.

      1. O anónimo aí de cima – tuga típico, cheio de achismos – começa por sair em defesa do anterior ministro, dizendo que não importa “apontar responsabilidades”.
        E termina, em flagrante contradição, alvejando o ministro actual por causa da recente fase de exames – que em nada conta para este relatório PISA.
        Sem reparar sequer que tropeçou no próprio pé.

        1. Como sempre não sabe ler, deve fazer parte do ultimo relatório PISA. Não defendi o anterior ministro que obviamente é responsável pelos resultados como o próprio admitiu.
          Quanto ao apontar responsabilidades, limitei-me a indicar que algumas medidas que foram tomadas no passado e que já foram apontadas como causadoras dos maus resultados, não tiveram noutros países efeito negativo, pelo que é preciso identificar o que foi mal feito para corrigir.
          Se a obsessão do PC pelo PSD não lhe permite compreender isso, que resolva como quiser.
          Ainda no apontar de responsabilidades, só referi que será mais importante corrigir os erros do que gastar tempo na continuada e insistente responsabilização do ministro anterior (j´a assumida). É o que o governo atual tem feito em relação ao governo anterior noutros assuntos e os resultados estão à vista, ou seja, estávamos mal, e mal continuamos.
          Quando referi o caso dos exames, é obvio que nada contribui para o relatório PISA que agora saiu, (deve pensar que é muito esperto e os outros estupidos para terem tal pensamento), estando apenas em questão o “acerto” do atual ministro na implementação da alteração da correção dos exames.
          Espero que seja mais feliz na correção dos erros que conduziram ao relatório que saiu.
          Uma nota de agradecimento ao Paulo Sousa que independentemente de concordar, ou não, com o que escrevi, publicou o comentário ao contrário do que o PC já fez inumeras vezes.

            1. Esse tal escrevinhou isto: “As razões apontadas para responsabilizar o antigo ministro não tem (sic.) consistencia (sic).”

              Apanhado a ser mais papista do que o Papa, depois de o próprio João Costa ter reconhecido responsabilidades próprias, tenta agora desmentir-se a si próprio. Tentando tirar o cavalinho (burro, neste caso) da chuva, nega ter escrevinhado o que realmente rabiscou.

              Convém lembrar que J. Costa teve responsabilidades directas na educação, como secretário de Estado e como ministro, durante quase nove anos.

            2. Não há duvida que o PSD tem os cabrestos de quem o segue bem apertados.
              Quem quiser entender, entende, quem não quiser ou não conseguir, sim, não conseguir, não entende.
              Quando se olha para as ações, independemente de quem as pratica, e não tem problemas em colocar em duvida as balelas que vão surgindo, põe-se a jeito segundo a vossa brilhante análise.

  2. O Passos estava do «lado certo da história».

    Ora cá está uma lógica brilhante. Realmente, se o lado certo da história é aquele em que os professores são convidados a emigrar, cortar a fundo no financiamento, deixar as escolas sem dinheiro para o papel higiénico e, uma década depois, bater no peito com cara de Pikachu chocado porque os miúdos não sabem a tabuada. Não há dúvida que é uma tática de mestre.

    Em 2015 o tema podia ser debatido como opinião, mas em 2027 “são apenas factos”. E o facto mais maravilhoso aqui é que o autor, com esta colagem de Moita de Deus, Santa Clara e saudosismo passista, só provou que também ele tem um pequeno problema com o nível 2 do PISA: consegue juntar letras, sim senhor, mas não consegue ler a realidade sem os óculos graduados do preconceito ideológico.

    Para a próxima, espero sinceramente que o autor tenha “mais tempo”. O país precisa mesmo destes esclarecimentos.

    1. Há uns dias combinei comigo que lhe ia apagar um certo número, que não lhe revelo, dos seus próximos comentários. Desde então cumpri esse propósito com esmero. Alguns dos seus comentários que apaguei nem eram tão pueris, tão sem argumentos, como este. A sua fórmula é sempre a mesma. Insiste em ignorar a realidade e tenta destratar quem não lhe confirma as mentiras de que está convencido serem verdade. Veja bem o que escreveu. O meu texto reporta factos reconhecidos pelo ex-ministro como sendo desastrosos. Perante isso, chega até a discordar desse membro do excelso governo em que votou.
      Quando vejo alguém a insistir em tentar explicar ao mundo que é a lua que ilumina o dia e que o sol é o astro noturno, eu, que gosto de debater, afasto-me para poupar energia. Nos meus textos, procedo de forma diferente.

      1. É de uma coerência poética absolutamente delirante. O Paulo escreve num blogue chamado “Delito de Opinião” e a primeira coisa que faz é delitar a opinião dos outros como se fosse, de facto, um delito. A democracia é lixada quando as pessoas respondem, não é, Paulo?

        Mas o que eu acho mais fofo é o Paulo, do alto do seu teclado, a querer explicar a maravilha dos anos da troika a quem levou com as políticas do Passos no lombo. Aquele santo padroeiro que jurava pela vida que não ia cortar o 13º mês ao pai da criancinha. O gajo que ia “além da troika”.

        Mas faz bem, Paulo. Apague lá isto também antes que a realidade lhe fure a bolha e lhe estrague o altar.

        1. Lá está. Vira o disco e toca sempre, sempre, sempre o mesmo.
          Já lhe perguntei e volto a perguntar: quem é que chamou a troika, quem negociou o MdE e, já agora, porque é que o fizeram?

          1. Mas qual é a duvida, foi o PS. Porquê? Porque o país estava na banca rota.
            Mas tudo isso não invalida a “sabujice” do Passos Coelho e os excessos que cometeu para além do que lhe era exigido pelos que tanto adorava.
            Não sei se Passos Coelho já sabe que é preciso pagar a TSU, apesar de a ter tentado colocar a 18%. E sim, disse aos professores para emigrar e pediu a todos que não fossemos lamechas.
            E agora, apesar de se dizer muito discreto,não deixa de massacrar a cabeça a LM.
            Parece afinal, apesar de dizer o contrário, que quer voltar à politica.

            1. A pergunta era dirigida ao interlocutor anterior. Ele ainda não consegue dizer essas duas frases.
              Para o que acrescenta, só lhe posso dizer que existem analgésicos no mercado que dispensam prescrição médica.

          2. Respondendo a essa pergunta nunca antes feita na história da internet desde 2011: sim, Paulo, foi o Sócrates e foi o PS. Está satisfeito?

            O problema, não é quem chamou a ambulância. O problema é que o seu ídolo foi o paramédico que chegou ao local, viu o doente a sangrar e decidiu que a melhor cura era amputar-lhe as duas pernas, porque estava a andar acima das possibilidades, roubar-lhe a carteira, confiscar-lhe o subsídio de Natal, mandar o filho emigrar e, no fim, ainda lhe explicar com um ar muito pedagógico que era para o bem dele e que devia ser menos piegas. O homem não “cumpriu o memorando”, o homem fez um doutoramento em sadismo económico.

            Mas como você gosta de factos reconhecidos, tem de reconhecer que o facto do Passos ter ido além da troika foi completamente desnecessário, foi cruel, foi infame e acima de tudo foi criminoso.

            1. O doente que diz ter sido amputado, votou maioritariamente no médico que o assistiu e parece que voltou a andar.
              A análise política baseada no umbigo tem muitas limitações, como não se cansa de nos mostrar.

  3. Recomenda-se que em caso algum se procure e consulte um gráfico intitulado “PISA score, native vs. immigrant students”.

    Como disse o agricultor ao ventríloquo, “essa ovelha é muito mentirosa.”

  4. Quando a ideologia é colocada acima do bom senso e da racionalidade dá asneira da grossa. E, é exatamente esse o caso.

  5. Paulo Sousa, gostei muito deste tema que trouxe, exactamente porque não se pode deixar passar este assunto em branco e muito menos esquecê-lo.
    Vale a pena perder um pouco mais do seu tempo e enriquecer-nos com o seu parecer.
    Não sou professora, nunca fui, mas sou mãe e avó. Ajudo os mais pequenos, apenas.
    E se vejo horrorizada o ensino básico, com as suas nuances pós 2015, que contribuem de forma absurda para a ligeireza do que deveria ser o início da aprendizagem, o gosto e o enriquecimento individual, este ano decidi confirmar o que se ensina e exige num 12º ano, como se entra numa faculdade.
    Fiz os exames do 12º ano de Português e Macs (que desconhecia até há 2 anos). Fiz os 2 exames das duas fases. Percebi exactamente como se chega à fase adulta com mentalidade e conhecimentos de 6º ano. E, por mais que digam que a culpa está na falta de professores, o que é absurdo e falso, a culpa está nos programas, no facilitismo, na falta de exigência, na insistência em não cansar a mente dos meninos, que nem sabem, nem lêem, nem pesquisam, aprendem o que está na pobreza dos manuais (“sim, eu conheço os Lusíadas, temos duas páginas no manual”), mas sobra-lhes tempo para os tik-tock’s da vida.
    Fiquei petrificada, revoltada, triste, magoada, infeliz e descrente.
    Em ambas as disciplinas, mesmo em Português, há várias respostas de escolha múltipla. Parecemos estar perante um teste psicotécnico. Pior, as respostas possíveis, elencam duas possibilidades, cada. A ou B. Ou três (A, B ou C). Respostas completas, sem confusão possível.
    Cada ítem de escolha múltipla vale 1 ponto. Com 7 ou 8 ítems, são logo 7 ou 8 pontos. Basta escrever só mais umas coisinhas e facilmente se chega ao 10. Abri a boca e ainda não consegui fechar.
    Exactamente como num 6º ano, existem frases com espaços em branco para completar, com respostas possíveis enumeradas logo abaixo: A, B ou C. Ex: nesta frase o sujeito poético revela um estado emocional de (A, B ou C), enquanto nesta outra, termina a estrofe com… A, B ou C.
    Parece impossível, mas continuo a falar de um exame de 12º ano.
    Pedia-se também um breve texto sobre a lírica de Camões, onde os poemas reflectem sentimentos, experiências pessoais, relações com os outros. (“nem sabia que Camões era lírico, passei à frente”). Ai, “alma minha gentil, que te partiste….” ainda não ressuscitei deste atentado à falta de estudo, de exigência…. Preocupação: zero! A falta de exigência também faz isto.
    À saída do secundário, o nível é realmente baixo, pobre. Mas são eles o nosso futuro, já podem votar, decidir, escolher, entrar no ensino superior. Como? Sem bases? O que lhes ensina a escola? Estão todos decididos a nivelar por baixo? Também na educação?
    O problema não é deste ano, porque o relatório baseia-se nos últimos dez anos de ensino.
    Nem vou falar porque a 3ª fase de exames nacionais, a fase excepcional deste ano teve tão pouca adesão. Obviamente, todos tiveram notas muito superiores ao esperado nas duas fases anteriores. Mas isto vai pertencer ao próximo relatório PISA.
    É de facto, um susto!
    Também nem falo de Macs, a tal disciplina que não conhecia, que mais parece uma espécie de Matemática inicial para evitar a convencional, que nada lhes ensina e praticamente lhes aponta apenas respostas de escolha múltipla, para não precisarem sequer de gastar massa cinzenta. As de escolha múltipla são, também, as de maior cotação.
    Neste nível, segundo o relatório, “um aluno já consegue, por exemplo, comparar diferentes percursos, converter preços entre moedas ou perceber uma fatura….” Pois, pois…
    Paulo Sousa, foi muito bom e muito útil trazer este texto e os excertos que lhe juntou. Mas não sei como tem paciência para os comentários que por aqui passam. Gabo-lhe a coragem. E continue, por favor.
    Desta vez, não consegui ficar calada.
    Peço desculpa.

    1. Obrigado pelo tempo que gastou a responder, Alexandra.
      O que relata é realmente preocupante e confirma o sentido geral do relatório.
      A dor de alma que sobra de tudo isto é a sensação de desperdício. A estrutura foi montada, é extensa e pouco barata. Os resultados ficam muito aquém daquilo que se poderia exigir com o mesmo esforço orçamental e humano. E tudo isto tem vindo a desenrolar-se sem que ninguém aponte para tanta falha? Não, nada disso. Os avisos nunca deixaram de soar e, tal e qual como se antevia, o descalabro confirmou-se. Resta-nos esperar pelos resultados de algumas das mudanças que estão em marcha.

  6. Este relatório demonstra claramente o estrume onde os cheganos e afins plantam as suas ideologias por essa europa fora. Com uma geração de ignorantes na forja que, inevitavelmente se tornarão decisores (e votantes) no médio prazo, fica bastante obvio o horizonte de poder desta direita de refugo.

    1. Não entendi bem. Foi a direita de refugo que estando no poder, que não esteve, criou esta geração de ignorantes? É isso que afirmou?

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