O GRANDE DITADOR: QUASE OBRA-PRIMA
Em The Great Dictator, Charles Chaplin esteve em vias de alcançar a sua verdadeira obra-prima, quer pela criação magistral desta grande metragem (por sinal, "super"-grande), quer pelo seu duplo e extraordinário desempenho: além de autor e realizador, ele é o ditador Adenoid Hynkel e um pobre barbeiro judeu (um ex-piloto que perdera a memória na queda do avião de combate).

O filme data de 1940 e satiriza, com um humor invulgar e perfeitamente adequado à tragédia humana que o inspira, a última fase da Grande Guerra. No ano seguinte, é estreado nos EUA e é nomeado para quatro dos cinco Óscares então atribuídos pela Academia: melhor actor e melhor guião original (Charles Chaplin), melhor actor secundário (Jack Oakie) e melhor música (Meredith Willson, que há-de receber um Óscar no ano seguinte pelo tema de The Little Foxes); apenas falha à nomeação de melhor imagem (e duvido que não merecesse). Nada arrecada, nem por já viver nessa altura em Beverly Hills há vários anos, nem pela obra que já soma, mas começa a coleccionar distinções por todo o mundo (algumas já póstumas).
O que é que faltou, para que The Great Dictator fosse a obra-prima do grande mestre? A propósito de Casablanca, o Pedro Correia assinalou-o muito bem: «a retórica antinazi datou irremediavelmente» este filme, «na célebre cena final». O longo e bem conseguido discurso que funciona abertamente como moral da história é um panegírico ao papel dos Aliados e ao envolvimento dos EUA que podia (poderia totalmente?) ter sido evitado. Ainda assim, vale a pena recordar o final desse discurso.
«Hannah, estás a ouvir-me? Onde estiveres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos a sair das trevas para a luz! Estamos a entrar num mundo novo — um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do Homem ganhou asas e já começa a voar! Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hanna! Ergue os olhos!»

Hannah, a "sua" inevitável Paulette Goddard, que Chaplin conhecera em 1932 e que, um ano antes desta obra, fizera The Woman e chegara a estar indicada para Gone With the Wind (desempenho que perderia para Vivien Leigh). O casamento secreto de ambos, em 1936 (ano de Modern Times), estava a chegar ao fim quando também terminava a rodagem de The Great Dictator. Nunca saberemos se o divórcio teve alguma consequência no modo pouco criativo como Chaplin se rendeu ao desfecho propagandístico que caracterizou tantos outros, neste filme que, ainda assim, será sempre uma enorme referência da Sétima Arte (e um dos filmes da minha vida).
Fosse como fosse, a perfeição do génio estava já consagrada desde o tempo do mudo. E The Great Dictator é quase perfeito.

Um filme eterno e muito simbólico, com uma mensagem actualíssima. Acho que será essa, talvez (a intemporalidade), a principal característica que distingue os grandes filmes. Este tem-na, sem dúvida. E o pecadilho da propaganda política é mais do que perdoável, no contexto em que o filme foi feito e na euforia do momento.
Uma belíssima crítica este texto, João.
É eterno, sim, Ana.
João, se este é quase perfeito, então não há filmes perfeitos.
“Casablanca”?
Touché, meu caro!
tenho aqui na minha colecção.
Fantástico.
Também o tenho, Daniel. É fantástico mesmo.
É um excelente filme, feito contra a corrente dominante numa América isolacionista e numa Hollywood avessa a qualquer intervenção americana nos “assuntos europeus”, como então se dizia. Chaplin começou a preparar esta longa-metragem (a sua primeira integralmente sonora) em 1937 por lhe terem dito que havia grandes semelhanças fisionómicas entre Charlot e Hitler e por ter sabido que ele e o ditador alemão tinham nascido no mesmo mês e no mesmo ano, com poucos dias de diferença. Intrigava-o que duas pessoas com características aparentemente comuns à partida pudessem afinal ser tão diferentes. Rodou o filme em registo de comédia porque desconhecia então grande parte das atrocidades nazis, designadamente contra os judeus – caso contrário, não o teria feito neste registo, como confessou. Lubitsch fez o mesmo dois anos mais tarde com o seu fabuloso “Ser ou Não Ser”.
Este Chaplin sonoro, como ‘O Barba-Azul’, feito sete anos depois, está ao nível dos seus melhores registos mudos excepto na cena final, que na altura se justificava, como peça de propaganda, mas que é redundante e funciona como um anti-clímax. Sublinhas isso – e não posso estar mais de acordo.
(Grande sequência, esta. A série promete…)
Parece que promete, sim. Oxalá.
Bem, vou tentar estar à altura da série em causa… já tenho o filme escolhido, agora falta-me criar o texto, mas ainda não garanto a data de publicação.
Boa, Jorge. Assim que puderes, avança.
Está registado! Muito bem!
(Eu sei que isto não acrescenta nada e só ocupa lugar, mas é o que se me ajeita para dizer que gostei de recordar o filme).
: ))
‘O Grande Ditador’ foi proibidíssimo e censuradíssimo em grande parte da Europa, naquela época, incluindo Portugal. Mas cópias do filme chegaram a Lisboa e foram aqui vistas em circuito fechado, à margem do circuito comercial. Nas embaixadas, por exemplo. Hitler, ao que consta, recebeu uma cópia em Berlim que lhe foi expedida da embaixada alemã em Lisboa por ordem expressa do ‘Fuhrer’. Só não se sabe qual terá sido a reacção dele ao ver o filme, em visionamento privado. Mas não custa adivinhar.
Obrigada. Não conhecia essa história! Sim, não custa nada a adivinhar!
🙂
Dos filmes do “Vagabundo”, continuo a preferir A Quimera do Ouro e a considerar o Luzes da Cidade o melhor. Este realmente perde com o discurso final, algo mal conseguido no filme. Mas é a forma perfeita de acabar com o Vagabundo. Ainda assim, demonstra que a personagem vivia na perfeição com o mudismo. A sequência em que ele barbeia o cliente ao som da música, sem uma única palavra, está perfeita. Mais ainda que a sequência do globo.
Estou praticamente de acordo. Já aqui referi há dias «A Quimera do Ouro», um filme magistral.
A cena do globo e a da barba são inesquecíveis, na linha directa da bota cozinhada e da dança dos pães.
E da cena no barco em que os imigrantes dividem a sopa ao ritmo do balanço do barco que faz deslizar a tigela de um lado para o outro da mesa!
:))
Uma maravilha!
Não esquecer a cena antólógica do operário na linha de montagem que continua a “apertar parafusos” mesmo quando já está fora dali.
É verdade. Uma inspiração para o Senhor Hulot, certamente.
Este é, sem dúvida, o filme da minha vida.
Visto e revisto vezes sem conta, este é eterno, magistral.
Felizmente, tem passado pelas diversas gerações, com a mesma atenção a cada pormenor.
Uma lembrança excelente!
Não pode ser. Já é o da minha vida e eu falei primeiro…
Prontus, direi então que é o filme das “nossas vidas”.
Está certo?
Ok.