Os filmes das nossas vidas (5)


Ana Vidal,

Para mim, um bom filme tem de ter, acima de tudo, uma boa história. Imediatamente a seguir, uma boa representação. E só depois, tudo o resto: realização, fotografia, som, cenários, figurinos, etc. Os aspectos técnicos de um filme não me prendem muito nem me empolgam, provavelmente porque não percebo o suficiente do assunto para que isso aconteça. Digamos que só reparo neles quando são excepcionalmente bons ou ostensivamente maus, o que já diz tudo sobre a minha capacidade crítica. Dêem-me um bom argumento, defendido por bons actores, e está garantida a minha paixão.

 

Quem tem medo de Virgínia Woolf? é um bom exemplo disso. Está entre o Teatro e o Cinema, ou não fosse este argumento uma autêntica obra prima de Edward Albee, um dos grandes dramaturgos americanos e mestre em tramas de labirintos psicológicos. E é esse despojamento de artifícios o que mais me apaixona no filme, porque, dispensando aparentemente tudo o que é acessório, não nos deixa escapatória ao colete de forças em que se vai transformando, a cada minuto que passa. E no entanto, o filme foi nomeado para TODOS os Oscares do ano em que concorreu (1967), façanha ainda hoje única na história do cinema. Das 13 nomeações ganhou 5, nas seguintes categorias: Melhor Actriz (Elizabeth Taylor); Melhor Actriz Secundária (Sandy Dennis); Melhor Direcção de Arte – Preto e Branco; Melhor Fotografia – Preto e Branco e Melhor Figurino – Preto e Branco. As outras 8 nomeações: Melhor Filme; Melhor Realizador; Melhor Actor; (Richard Burton); Melhor Actor Secundário (George Segal); Melhor Montagem; Melhor Banda Sonora; Melhor Argumento Adaptado e Melhor Som.

 

Albee convida-nos – ou obriga-nos, melhor dizendo – a um perturbante mergulho no abismo da intimidade de um casal maduro, desgastado e em queda livre. O meio intelectual a que pertencem não serve de bálsamo, mas antes de agravante, aos argumentos de ambos, sofisticadamente ácidos e letais. É uma luta de galos condenada a um desfecho trágico, por entre jogos de sedução e perversidade próprios de quem se conhece profundamente e se compraz numa auto-destruição lenta, torturante, sádica e falseada até à exaustão. A parada é alta, muito alta. O confronto é generosamente regado a álcool, tornando ainda mais terríveis as acusações, ainda mais expostas as fracturas, ainda mais patéticas as fragilidades, ainda mais desesperadas as tentativas de salvação. Somos arrastados para um sorvedouro de emoções que nos tira o ar dos pulmões, impotentes voyeurs diante de um espectáculo íntimo em que nos sentimos simultaneamente intrusos e cúmplices. Cúmplices de Martha e de George, à vez, ou de ambos, por percebermos que o cimento que une um casal nem sempre é feito de nobreza ou de beleza, mas não deixa por isso de ser cimento. E também cúmplices dos atónitos e manipuladíssimos Honey e Nick, dois jovens a quem as ilusões de um eterno romantismo conjugal são arrancadas de uma só vez e a sangue frio, pelo aterrador espelho de um possível (provável?) futuro. Uma simples e inocente visita de cortesia, após uma festa, transformada num pesadelo que os marcará para o resto da vida.

 

Quem tem medo de Virgínia Woolf? é o esplendor e a miséria da condição humana vista à lupa, à nossa disposição durante uma hora e meia. E nada nos perturba mais do que aquilo que nos serve de espelho. Nas palavras do próprio Edward Albee, o Teatro do Absurdo serve para que possamos mergulhar um pouco mais nas nossas próprias loucuras e deixar de ver as dos outros com tanta supresa”.

 

 

Bette Davis e James Stewart (e também James Mason, ao que consta) chegaram a estar indicados para encarnar este casal psicótico, mas a escolha final da arrasadora dupla Taylor-Burton – casados na vida real por duas vezes e protagonistas de guerras e reconciliações antológicas – confere ao filme um misticismo especial e uma insubstituível chancela de realidade. A bela Elisabeth Taylor deixou-se engordar e desfigurou-se para melhor servir esta personagem devastada pela vida e pelo álcool, o que lhe valeu, além do Óscar, o respeito de quem não a considerava como actriz. Richard Burton, por excelência um homem do Teatro, está magistral no papel do frustrado George. E também os novos – Sandy Dennis e George Segal – parecem ter nascido para aqueles papeis. A tensão do texto foi de tal ordem que Sandy Dennis, grávida de poucos meses no início das filmagens, abortou espontaneamente.

 

Finalmente, last but not the least, o realizador: na sua primeira obra, Mike Nichols assina uma verdadeira peça de arte. E estava inspirado, já que logo no ano seguinte realizou outra – The Graduate – outro dos filmes da minha vida.

 

Nota: Republico hoje este post em memória de Liz Taylor.

8 comentários em “Os filmes das nossas vidas (5)”

  1. Uma grande análise deste filme, que tão poucas vezes vejo ouço mencionado entre as obras-primas da década de 60, Ana. E afinal esta é, de facto, uma obra-prima absoluta. Pelo texto de Albee, pelos diálogos que alargaram consideravelmente as malhas da censura ‘moral’ vigente até então nos estúdios de Hollywood, pelo retrato impiedoso de um casamento ‘intelectual’ visto ao raio X, pelas intepretações fora-de-série do casal Taylor-Burton, invertendo o estereótipo em que fora transformado pela imprensa cor-de-rosa. Ela, como dizes, transfigurou-se para encarnar este papel: engordou, deixou-se caracterizar para ficar mais velha e muito mais feia – e tem um dos papéis mais assombrosos de que há memória no cinema americano. Ele, um actor de cinco estrelas, está ao mesmo nível. Lamentavelmente, não recebeu o òscar que lhe era mais que devido por este impressionante desempenho de um homem falhado.
    Gostei imenso. Do filme e do teu texto.

    1. Também acho que o Burton merecia o oscar, sem qualquer dúvida. Mereciam todos, aliás. E a Liz Taylor provou ser uma actriz de mão cheia, até por ter-se deixado envelhecer e engordar visivelmente para o papel, quando a obesidade era o seu maior fantasma.

  2. Ana Vidal, se não tivesse visto o filme (mais que uma vez… quando gosto não resisto), iria querer vê-lo. Deste-lhe bem nesta crónica. Apesar de começar por não concordar contigo logo nas duas primeiras frases. ;D

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