De facto, o investimento angolano em Portugal é tímido, mas convém não esquecer que tem precisão cirúrgica. Como salientava ontem Diogo Noivo: “The investment pattern in the past was predominantly oriented from Lisbon to Luanda. In 2007 and 2008, Portuguese investment almost tripled. However, a new trend is emerging. Angola recently made significant investments in Portugal’s finance, energy and media sectors — all of them crucial strategic decision centres. Sonangol, Angola’s national oil company (NOC) is involved in almost all of those ventures, a situation which has been raising some eyebrows in Portugal. At this stage, these investments pose no threat as Sonangol did not achieve any effective sector control with them. (…) Lisbon should not ignore that Angola’s current investments are directed towards crucial national decision centres. Since Angola’s investment scheme has very close ties with government and state officials, José Eduardo dos Santos’ official visit could be a good opportunity to discuss its boundaries” (IPRIS Digest, 9.3.2009: 2).
Algo me diz que não vai ser nesta visita que se discutirão os limites ao investimento angolano em Portugal, mas mais tarde ou mais cedo — porventura no âmbito da tal parceria estratégica — a questão terá forçosamente de ser tema de conversa. O diálogo será seguramente difícil.

Meu Caro,
Creio que nem seria necessário acrescentar citações em inglês para deixar escorrer o óbvio. E, já agora, não terá de se discutir “limites” porque eles não existem em Portugal. União Europeia oblige…
Bom, se é assim tão óbvio, fico muito mais descansado. Quanto à UE, em que planeta é que vive? Está a brincar comigo, ou acha mesmo que aquilo que a UE oblige é o que se passa na prática? É que, afinal, o óbvio não será tão óbvio como quer fazer crer…
Caro Paulo,
Será um sinal dos tempos. Mas a crítica que por alguns sítios se fez a HRC não ter falado de Direitos Humanos em Pequim é já uma crítica a um apanágio da nossa política externa: primeiro com Chavez e Khadafi por causa do petróleo, agora do Eduardo dos Santos por é que preciso investir.
Sem ignorar a nossa vocação atlantista que se deva conjugar com a europeísta confessos que acho RealPolitik a mais.
Caro Carlos, se houvesse uma fórmula mágica, se alguém a conhecesse era rico. Realpolitik a mais ou menos não me parece a forma mais correcta de colocar a questão, embora o perceba. Nessa matéria defendo que não compete aos pequenos Estados colocar-se em bicos dos pés numa matéria em que, para além de profissões de fé, de facto, substantivamente podem fazer muito pouco ou nada. A minha percepção — e não passa disso — é que este governo não é mais nem menos pragmático do que os anteriores. É a vida…
Caro Paulo,
Desculpe a demora na resposta. Não era minha intenção dizer que este governo era mais ou menos pragmático: haverá opções mais pragmáticas que a diplomacia Obama? Eu discordo apenas do que diz sobre os pequenos países, neste sentido: hoje, a diferença nota-se pouco porque estão todos de joelhos ou estendidos. Se os EUA precisam da China por causa da dívida, a China precisa do mercado americano e verdadeiramente não lhe interessa o colapso dos títulos em carteira; a Rússia abre pontes aparentes de diálogo porque a queda do petróleo feriu de morte as suas receitas; a UEM éameaçada por múltiplos factores que estou a desenvolver no blogue, e se calhar o Kissinger tinha razão ao vaticinar que a diversidade entre os interesses geopolíticos e económicos tornam a UE utópica. Nesse sentido, se houvesse alguém com um mínimo de preocupações humanitárias nas relações internacionais não era pior. Mas claro, isto gera um processo de free riding: é sempre melhor se for outro. Em todo o caso, Eduardo dos Santos é um ditador, mas nisto dos ditadores a RealPolitk sempre mandou saber escolher a cada momento os que convinham…
Creio que já o escrevi aqui uma vez, mas como sabe o Cardeal Richelieu terá resumido o problema ao facto de os Estados não terem alma para salvar, contrariamente às pessoas.
Desculpe uma pergunta paralela que não sei se percebi, num comentário no seu blogue pessoal deparei-me com uma observação interessante sobre o que o Tratado de Lisboa mudaria, se mudasse alguma coisa, na actual crise. E estava escrito “Carlos”: não me tome por estar em bicos de pés mas como achei a dúvida muito interessante, vinha-lhe perguntar se me era especificamente dirigida ou se o Paulo nem tinha nada a ver com aquela observação.
Desculpe este pequeno desvio.
Abraço,
Carlos Santos
Julgo que foi outra pessoa. Sobre a realpolitik, prefiro recuar até Tucídes: “The strong do what they can and the weak suffer what they must.” Esta ‘pretensão’ dos pequenos e médios de que podem ter política externa é uma ilusão, em certa medida. Julgo que este ponto foi salientado em detalhe por Morgenthau, mas não tenho a certeza. Ainda bem que salienta o free riding. É por isso que eu defendo que é a nível multilateral que essas questões devem ser tratadas, na medida em que tal permite diluir a responsabilidade individual, por um lado, e por outro evitar custos para quem assume a despesa. Nas eleições do ano passado em Angola, que fique bem claro, fiz questão de salientar a natureza não totalmente livre do vioto. Mas esse é o papel dos analistas e dos observadores, não do governo português. Enfim, longa conversa.
Tucídides, quero dizer.
Concordo consigo que o governo português tenha algum cuidado no tratamento de assuntos desta sensibilidade. Seria escusado irmos tão longe como Freitas do Amaral foi em tempos, dizendo que nós não eramos ninguém para dar lições moralistas de corrupção a Luanda. Mas isso era outra história.
Só me pergunto se a bem dos interesses e das relações bilaterais, a sua tese final não acaba por subtrair aos governos a sua vertente diplomática activa na prossecução quase Wilsoniana dos ideais de democracia e liberdade?
È certo que as organizações internacionais têm aí um papel, mas a sua arquitectura corrente não facilita muito. E é certo também que me demarco da componente da doutrinha Bush segundo a qual a democracia devia ser imposta à força em sítios seleccionados.
Contudo, reitero, no limite, se nós não podemos porque somos pequenos, qual é nosso papel na cena diplomática internacional, numa óptica para além dos nossos interesses?
Abraço,
Carlos Santos