Os lisboetas


Patrícia Reis,

 

 

Os lisboetas não conhecem a sua cidade. Os lisboetas falam do que não sabem quando se referem a Lisboa. Muitos lisboetas nunca foram à grande maioria dos bairros de Lisboa. Muitos lisboetas nunca subiram ao castelo de São Jorge, ao miradouro da Senhora do Monte, ao Alto de Santo Amaro, a São Pedro de Alcântara, Santa Catarina, ao Largo das Necessidades ou à Tapada da Ajuda. Muitos lisboetas nunca entraram no antigo convento da Madre de Deus, na Igreja de São Roque. Muitos lisboetas não puseram sequer um pé na Torre de Belém ou contemplaram a beleza incomparável dos claustros dos Jerónimos. Dizem mal de Lisboa. Sem a conhecerem. Vão sempre aos mesmos sítios, ver as mesmas fachadas. Jamais lhes passou pela cabeça fazerem de turistas na sua própria cidade, deambulando por ruas e pátios de máquina fotográfica na mão, espreitando o Tejo ao virar de cada esquina. Os lisboetas detestam andar a pé. Acham que isso é próprio de classes inferiores e que é até capaz de fazer mal à saúde. Padecem da ‘síndrome de viúva de militar’, como já alguém lhe chamou. Metem-se em casa. Refugiam-se atrás de persianas, cortinas, reposteiros, marquises. Tudo quanto lhes vede o acesso à rua, à cidade, ao mundo. E só conhecem Lisboa de a ver na televisão.

 

Publicado n’ O Afilhado, a convite do Tiago Moreira Ramalho

12 comentários em “Os lisboetas”

  1. Com uma excepção: o Zé fartou-se de andar a pé, à cata de obras para embargar, e ficou a conhecer o cais de contentores e o atoleiro de Alcântara…

    O mal é comum às cidades maiores. Os portuenses também não conhecem o Porto. Na capital é ainda pior por uma razão simples: Lisboa não tem muitos lisboetas; a maioria são migrantes e boa parte dos lisboetas são-no apenas de primeira ou segunda geração e nada aprenderam com os progenitores sobre Lisboa.

    1. Não concordo, João…
      Escrevia já um chorrilho de emotividades quando me deparei com este ‘concreto’ todo…
      As ‘emotividades’ talvez não tenham aqui cabimento.
      Ficam lá no cantinho…

      1. Note, Margarida, que eu disse que o mal é das cidades maiores. Por isso, no Porto, não é tão notório quanto em Lisboa.
        Muito mais do que na capital, os portuenses conhecem em geral os cantos à cidade. Mas não os ligam ao passado. Com honrosas excepções, pouco ou nada sabem da sua História e das suas histórias. Tenho essa experiência.
        Porém, reconheço e concedo que, sendo o Porto bem mais pequeno e sendo a sua população constituída por portuenses, há muito bom tripeiro habituado a calcorrear a sua cidade.

        1. Sim, quanto à História, quer do burgo, quer do País (já para nem falarmos além fronteiras), concordo em absoluto.
          O desconhecimento e o desinteresse grassam.
          Outrora, dos arrabaldes e durante a madrugada, marchavam hordas de populares, desde os biscoiteiros de Valongo às lavradeiras de S. Pedro da Cova, ajoujados pelas suas mercadoris à cabeça, directos à cidade…
          Calcorreava-se muito. Era natural.
          Agora só se anda verdadeiramente na noitada de S. João…
          Hoje, por todo o lado, custa dar-se dois passos para chegar ao café da esquina; prefere-se gastar tempo, dinheiro e paciência para estacionar o bólide… (isto liga-se ao comentário infra do Pedro)

  2. Carregado de razão 🙂 onde cabem meia duzia de orgulhosas excepções de quem nem é totalmente lisboeta 😉

    (brilhante polaroid aquele)

    1. Lisboa, ainda por cima, é uma das cidades mais fotogénicas do planeta. O que me deixa ainda mais espantado quando ouço em meu redor: ‘Não vou ali porque é muito longe’. Aludindo a bairros como a Lapa, Madragoa ou Campo de Ourique.

  3. Tenho a mesma “sensação”, Pedro.
    Lisboa, uma das mais belas capitais que conheço, é ignorada pelos seus habitantes e quanto a andar a pé ou de transportes públicos isso fica para quando fazemos turismo noutras capitais, especialmenet para os betinhos que muito gostam de opinar.
    Cumprimentos

  4. Penso que o mesmo raciocínio se aplica ao País. A maioria dos portugueses não conhece Portugal. Nunca fez um cruzeiro no Douro, desconhece as maravilhas de Trás os Montes, quando lhes falam de aldeias de Xisto pensam que são no Iémen e por aí fora.
    Adoram a Reública Dominicana, vêm maravilhados da Jamaica, detestam Cuba, mas o que conhecem desses países também se resume ao raio de 10 kms em volta do resort onde passaram férias. E já estou a swr optimista…

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