Os quadros das nossas vidas (2)


Ana Vidal,
Dando seguimento a este post do Pedro Correia sobre um quadro de Goya, aqui fica uma segunda proposta.

 

 

AS FERIDAS DE FRIDA

 

As feridas de Frida Khalo foram muitas, e quase todas tiveram nome de mulher. 

 

Diego Rivera, o homem a quem ela chamava carinhosamente "panzón" por causa do volume da sua barriga, tinha, além disso, idade para ser seu pai e era "feo como un cerdo", nas palavras de uma amiga de Frida.

Pelo seu lado, Frida era uma mulher-menina, fisicamente frágil (quanto a força interior, a conversa é outra) e doente, um vidrinho colorido e exótico que Diego gostava de exibir.

 

Porém, nada disso impediu que se tivessem amado loucamente e que esse amor, aparentemente tão desequilibrado, se tenha já tornado lendário. É claro que, visto à distância e a frio, tudo parece mais romântico. A verdade é que Frida sofreu muito, também, por causa desse amor. E, se acabou por transformar-se numa excêntrica para a sociedade mexicana ao liberalizar, também ela, as suas relações amorosas, foi porque nunca conseguiu que Diego correspondesse ao modelo que ela queria para a sua vida afectiva. Foi ele o seu mentor no mundo da arte, mas foi também ele que moldou nela a provocação e a révanche, que a perverteu e obrigou a reagir assim, como uma fera ferida que mostra as garras para se defender e acaba atacando também.

Diego Rivera era um homem torturado e conflituoso, dado a excessos e, sobretudo, muitíssimo mulherengo. Como artista plástico era um ícone já na sua época, aclamado e respeitado internacionalmente, o que acrescentava uma aura de mito ao charme rude que o caracterizava. Essa combinação produzia um efeito mágico no universo feminino e anulava totalmente o seu desastrado aspecto exterior. Dizia-se dele, não com certeza sem um certo exagero, que era magnético. O rol de mulheres que lhe caíu aos pés – antes, durante e depois do casamento com Frida – foi quase infindável, e essa fama era um rastilho poderoso que incendiava as novas candidatas.

 

Para além das insuportáveis dores físicas que a fatalidade lhe causou* (provocando-lhe ainda a impossibilidade de ser mãe, como dano colateral), Frida sofreu incontáveis humilhações com as infidelidades de Diego, as quais, aliás, culminaram na mais dolorosa de todas: um caso do marido com a sua própria irmã, dentro de portas. Esse drama quase a levou ao suicídio, e fez com que cortasse o cabelo (uma das suas imagens de marca, em penteados elaborados), se desfizesse de todos os enfeites e até que se vestisse de homem, matando impiedosamente toda a sua feminilidade e exuberância transbordantes. Mas Frida era uma artista: exorcizou todas as dores na pintura, deixando para a posteridade, nos seus quadros, um retrato arrepiante do seu sofrimento. E também da sua coragem. Aqui fica a minha homenagem a essa grande mulher, que morreu cedo mas teve uma vida plena. Admiro, nela, a obra e a  personalidade, ambas de uma originalidade espantosa. Admiro a fibra, a firmeza das convicções (políticas e não só), a ousadia, a coragem física. E admiro-a pela marca indelével que deixou na história da pintura e na história do seu tempo.

 

Quanto a mim, a obra de Frida Khalo tem de ser apreciada no seu conjunto, porque é a leitura da sua própria vida. São muitos os quadros de que gosto, não consegui decidir-me por um só. Aqui ficam, por isso, alguns dos que considero mais significativos.

 

 

*Vítima de poliomielite infantil, aos 6 anos, ficou com a perna direita defeituosa, mais delgada e curta que a perna esquerda; aliás, essa perna acabaria por ser amputada. Aos 18 anos, foi vítima de um acidente brutal: o autocarro onde viajava foi abalroado por um eléctrico. Frida foi trespassada por um varão metálico, sofrendo danos irreversíveis na coluna vertebral. Em inúmeros dos seus quadros se podem ver os rígidos aparelhos ortopédicos que usou para sustentar a coluna partida, que eram autênticos instrumentos de tortura. 

 

 

Adendas:

1. Chavela Vargas, cantando La Llorona, com imagens da vida e obra de Frida Khalo.

 

 

2. Lila Downs (cuja semelhança física com Frida é impressionante), canta o picante tango que ajudou a tornar famoso o filme Frida (com Salma Hayek no papel de FK).

 

 

21 comentários em “Os quadros das nossas vidas (2)”

  1. Mas que bom momento!
    Também gosto imenso de Frida Kahlo. Aliás, para mim, são muito poucos o pintores que não podem ser admirados, se não à primeira, pelo menos depois de compreender as suas vidas, inscritas, claro, nas suas coordenadas históricas.
    Coisa diferente de ter os seus favoritos, é evidente.
    Para além de bela, a pintura é um extraordinário documento, não acha?
    O que a expressão plástica nos traz é um verdadeiro mundo de informações 🙂

    1. Tem razão, Chloé: toda a arte é um documento, e a pintura (como a música, esta mais ainda) é uma linguagem universal. E a de Frida Khalo, de tão figurativa e explícita, é uma história contada na primeira pessoa. Nem sequer é a minha pintora favorita, mas é de uma originalidade espantosa. 🙂

  2. Gosto muito da Frida Kahlo. Fico sempre na dúvida: nunca sei onde termina a admiração pela mulher FRIDA e começa a admiração pela pintora FRIDA and so on and so on. Tenho na coluna da direita do bnb o Love Embrace desde a primeira hora!
    Que boa lembrança esta.
    :)))

  3. Muito bem, Ana. Gostei muito. Vou mudar o título do meu, pondo o mesmo genérico que deste agora, para isto ser uma série homogénea desde o início. E aguardam-se agora novos contributos. Por mim, fica a promessa de todos os meses haver mais um textinho.

  4. No Casino de Lisboa Ana. Soube através do programa Câmara Clara neste domingo. Com certeza que ainda deve arranjar, foi muito pouco divulgado.

  5. São obras (e vidas), as de Frida Kahlo e Diego Rivera, muito arrebatadas, intensas, expressivas… assustadoras? 🙂

    1. Sim, Luísa, assustadoras para a maioria dos mortais. É preciso fôlego, arrojo, coragem e uma boa dose de loucura para viver uma vida assim. E um grau de exposição que não é, definitivamente, para muitos. Claro que não falo no sofrimento físico, esse não é uma opção. 🙂

  6. Ana: é curioso que, tantos anos depois de morrer, Frida esteja hoje tão na moda enquanto a obra de Rivera vai caindo num certo esquecimento. As voltas que a vida (e a arte) dá…

    P. S. – Excelente ideia, a da banda sonora com a grande Chavela Vargas, que acaba de festejar 90 anos!

    1. Não acho muito estranho, Pedro. Praticamente toda a obra dele tem uma temática ideológica e está conotada com uma época e um determinado momento histórico, que hoje em dia já não têm grande significado. A dela é mais universal: fala de amor e de sofrimento, temas que mexem com as emoções e são intemporais. E quanto a mim é muito mais original, coisa que ele próprio reconheceu.

      A grande Chavela Vargas, como dizes, merece todos os destaques! 🙂

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