Os quadros das nossas vidas (5)


Leonor Barros,

Acaso. Puro acaso o que me levou num dia escaldante de Julho a sentar-me de frente para ele. Exausta pela tertúlia da noite anterior salpicada moderadamente com Riesling austríaco e condimentada com palavras numa língua estrangeira, o elo comum que nos uniu ao longo daquelas duas semanas repartidas entre Graz e Viena, procurei o descanso discreto. Ali seria. Na sala contígua, a multidão amontoava-se num burburinho reverencial e extático em torno de um dos mais conhecidos quadros do mundo, motivo para t-shirts, porta-chaves, lenços de senhora, cadernos, caderninhos, lápis e um sem fim de lembranças, o destino fatídico contemporâneo das grandes obras de arte. Gustav Klimt estava longe de imaginar que o seu Beijo, ainda hoje gerador de tanta curiosidade quanto à identidade do homem e da mulher que se beijam num campo florido, seria um dos motivos preferidos para a panóplia kitsch que as lojas dos museus albergam e simultaneamente um dos mais admirados e apreciados quadros.

À semelhança de quase todos os pintores e artistas plásticos, também Egon Schiele, o autor do quadro que eu contemplava fortuitamente e que acabara de entrar na minha vida, estaria nos antípodas de imaginar o futuro das imagens quase grotescas, longílineas e esquálidas que povoam a sua paisagem artística. O jovem pintor austríaco teve pouco tempo para inundar o mundo com o seu talento, o suficiente porém para ter sido considerado indecoroso e pornográfico pelos seus contemporâneos. Após ter criado a Neukunstgruppe em oposição directa aos cânones do seu tempo e uma breve passagem pela 49ª Secessão, Egon Schiele deixou o seu nome inscrito na cena expressionista austríaca. Partiu precocemente, pouco tempo depois da mulher grávida, vitimada pela gripe.

E naquele quadro há algo dessa separação. A premonição inscrita no calor dos corpos abraçados. Schiele separar-se-ia da mulher e da vida cerca de um ano depois de ter pintado o Abraço. Um homem e uma mulher nus contra um lençol branco em desalinho, os corpos contrastantes, o homem que a envolve e agarra. O abraço pungente. Mais do que carinhoso ou ternurento, o abraço final e crepuscular que antecede as separações definitivas.

Anos depois voltei ao Belvedere.  Numa tarde gélida de Dezembro, sentada no mesmíssimo banco, contemplei os amantes. O mesmo abraço intenso e dramático, tão belo como me pareceu naquele Julho distante. Decididamente um dos quadros da minha vida.

 

Egon Schiele, (1917), Umarmung

42 comentários em “Os quadros das nossas vidas (5)”

  1. Leonor
    O texto está tão bonito. Descreveu tão bem o modo como o quadro a “tocou”. Sabe que também é assim que os quadros passam a fazer partedas nossas vidas.
    :)))

      1. Certo. Aliás, quando visito um museu a primeira vez, não quero saber pormenores, nem recordar, imediatamente antes, os que já soube. Exactamente para me poder surpreender. E da minha experiência, acho que fruo muito mais assim.
        A surpresa como elemento potencializador do prazer estético!
        Boa Leonor!

        :)))

        1. Regra geral, também guardo os pormenores para depois, Maria do Sol. Acho que a surpresa é quase sempre potenciadora da fruição e do desejo, a arte também é desejo e sensualidade.

  2. Fabuloso quadro, Leonor. E excelente texto. Conheci este pintor precisamente no Belvedere – e a sua obra seduziu-me logo. Como a de Oskar Kokoschka e George Grosz, por exemplo. Viena é um fascínio permanente também por isto.

    1. Mas sabes, Pedro, tenho com Viena uma relação de ambivalência. Dessa primeira vez, gostei imenso de lá ter estado, embora não tenha tido tempo para conhecer bem a cidade. Desta segunda vez e com mais tempo, não gostei tanto de Viena e achei os austríacos muito antipáticos. Também acho piada ao Grosz e ao Kokoschka . E também gosto de Kandinsky e da Münter que estão em grande número num dos meus museus preferidos, O Lenbachhaus em Munique. Também podíamos fazer uma série de museus preferidos.

      1. Lindíssimo, Leonor. O texto e o quadro. Foi mesmo Viena que me “apresentou” a Schiele, mais ou menos da mesma forma fortuita que descreveu, provavelmente até sentada no mesmíssimo banco. E é muito por Schiele, e Klimt também, que tenho tão bom sentimento em relação a Viena. Quase tudo naquela cidade me sabe bem e provoca um fascínio permanente, como diz o Pedro.

        1. Obrigada, Alexandra. Sim, Viena está ligada a Klimt e Schiele, por questões afectivas também a Freud – adorei visitar a casa-museu- e a Canetti. Os quadros do Klimt são avassaladores, mas há algo em Viena que não me convenceu.

  3. O texto é delicioso, Leonor. Mas a imagem é um delito. E da maneira como as coisas andam ainda têm a polícia a abraçar-vos aí no Delito de Opinião. 😉

  4. Adorei o texto, Leonor. Parabéns. E o quadro, quando o vi no Belvedere e agora, tão bem descrito e analisado por ti. É curioso como, apesar dos corpos nus e dos traços “duros”, este abraço tem muito menos de sensualidade do que de protecção e desespero. A tensão é a de uma despedida, e não a do sexo.

    Como tu, também não adoro Viena. É inegável que é uma cidade linda mas não consigo livrar-me da sensação de “tampa de caixa de bombons”, bonita mas sem alma. Ou talvez seja porque os austríacos não são, de facto, muito simpáticos.

    1. Obrigada, Ana. Concordo contigo em relação ao quadro. A tensão é a de despedida pós-sexo, também como se o sexo tivesse sido a despediada.
      Quanto a Viena, embora tenha tido um período vibrante de tertúlias nos cafés, da vida cultural e do panorama artístico, há algo que não me convence. Como dizes, falta-lhe alma.

  5. O seu texto é belíssimo, tanto quanto o quadro do Schiele. Este, na verdade, não é tão “comerciável” nem conhecido como o dourado “O Beijo” do Klint, (veja lá que até já fiz um puzzle com ele, que desgraça!…) mas é, quanto a mim, muito mais potente, muito mais sincero, em termos de arte pura.
    Egon Schiele gostaria decerto de ter lido o seu texto e de a ter como crítica dos seus quadros. Ficam muito bem um ao lado do outro. Parabéns.

    1. Fico sem jeito com tantos mimos. Andei a amadurecer este texto, rabiscado numa folha de papel solta enquanto esperava. “O Beijo” tem uma cor espantosa, é excelente e envolvente também, mas não existe a tensão que existe no “Abraço!. Muito obrigada 🙂

      1. Não tem mesmo nada que agradecer, Leonor, pois as minhas palavras limitaram-se a exprimir aquilo que na realidade senti depois de ler o seu belo post. Com mais professores desta qualidade, tenho a impressão que o nosso ensino não estaria no miserável patamar em que se encontra neste momento.
        Um grande Abraço! *º*, “º”, *-*, º.º, (º.º), º!º, 😉 , :))

  6. Leonor, parabéns, parabéns, parabéns pelo excelente texto.
    O quadro é lindíssimo; Egon retratou o eterno abraço do amor.

  7. Leonor,
    não sei se goste mais do seu texto do que do quadro, que confesso nunca me tocou especialmente. uma coisa é certa, olhado pelos seus olhos ,até lhe encontrei mais beleza. 🙂

  8. Passei 2 ou 3 vezes por este post e continuei com o scroll roll acima e abaixo, percebendo pela leitura das primeiras linhas que não era prosa que se lesse sem tempo. Agora, que finalmente pousei nele sem ter qualquer opinião formada, já posso dizer que me reservou um bocado muito bem passado E que por causa dele dei por mim várias vezes de nariz no ar, a saltar pelos “meus cantos” em abstracções erráticas, incompreensíveis para quem as seguisse de fora…
    Pois é, todos os quadros que nos tocam deviam ser dignos de um manifesto assim, muito mais eficaz e contagiante do que a explicação dada por qualquer perito na matéria! Aliás, a minha experiência sempre me comprovou isso mesmo. Porque foi com relatos sobre emoções e não com descrições objectivas ou declarações de virtude técnica – tipo must-have – que desde pequena me contaminaram para uma série de coisas verdadeiramente importantes. É que é mesmo assim que se transmite o vírus 🙂
    Muito bom, o seu texto. De facto, ninguém descobre um pintor (ou uma tela) por obra de epifanias anunciadas, num quarto fechado e longe do mundo. Há a circunstância, há o contexto, o dia em nos que acontece, etc. E o testemunho que podemos fazer é um pouco como nas histórias infantis, em que os heróis da aventura deixavam “pedacinhos de pão” como marcas para que os outros encontrassem o caminho 🙂
    Por isso, gostei imenso.
    Muito embora confesse (e só agora, e a terminar!) que os expressionistas de raiz alemã nunca me comoveram especialmente. Nem Klimt , belíssimo ao primeiro olhar, mas demasiado forte e ostentatório na digestão (há ali qualquer coisa da exuberância decorativa dos eslavos naqueles dourados…); nem mesmo Schiele, furioso, agreste e deformador (como compete à escola). Perco-me por muitas correntes pós-impressionistas, dos pintores e escultores que fizeram a revolução estética do modernismo. Mas sou demasiado latina para perfilhar os germânicos, muito ferozes e excessivos no traço, para meu gosto.
    – Engraçado, não é? Porque é que os povos ditos frios e cerebrais “abrem as comportas” dessa maneira? Talvez por isso mesmo: – contenção de sentimentos em excesso. O que depois vai dar nessa tal coisa que parece “não bater certo”, sobre a qual alguém falava algures aí acima. E que é notória também nos austríacos pois claro 🙂
    Nós, os povos ‘românicos’, somos mais equilibrados e doces. Mesmo em ruptura total com os cânones, um latino viaja melhor dentro de si…

    1. Embora o expressionismo alemão, por defeito de formação e de uma belíssima professora de literatura alemã me toque, compreendo que a inquietação é demasiado punjente para que nós, os latinos – e estou a generalizar – lhe sucumbam.
      Concordo em absoluto com o que diz em relação à descoberta. Se porventura me tivessem ‘impingido’ este “Abraço” não o teria encontrado tão belo. Foi, de facto, uma epifania, aquele momento feito de acasos. O nosso destino naquele dia era mesmo “O Beijo” de Klimt , está mesmo na sala ao lado, que também foi uma emoção, exactamente pela exuberância. É, porventura, dos quadros conhecidos, o que mais perde com as reproduções. Eu gosto de Klimt mas há mais harmonia e muito mais sensualidade do que em Schiele .
      Quanto aos povos mais contidos, é de facto interessante como nos “abrem as comportas”, como diz. Como são mais contidos, as revelações são quase sempre mais surpreendentes 🙂

      1. Mas não me interprete mal! O desespero é mais difícil de transmitir do que, digamos, o ‘cromo’ do cigarro e dos olhos em alvo na concórdia pós-coito 🙂 Ele conseguiu na perfeição o objectivo.
        Quanto a originais e reproduções, 100% de acordo. É uma ilusão formar opinião pelas sequelas.
        Isso aconteceu comigo com alguns pintores que fui ver e rever vezes sem conta. E com um escultor que me virou do avesso, Rodin , batido até mais não, mas irresistível naquele templo de rue de Varenne , onde entrei apenas para cumprir programa e que depois me preencheu tardes a fio. Muitos anos depois fui testar a minha lealdade, também sem contar minimamente, durante a minha última manhã em Filadélfia (que tb tem um museu Rodin ).
        E foi como uma visita a um velho conhecido, quase um amigo, confesso… As emoções ali estavam, iguaizinhas, como aos 18 anos!
        São experiências muito singulares que ficam agarradas a nós e nunca mudam. Compreendo-a por isso perfeitamente 🙂

        1. De forma alguma, Chloé Estamos de acordo em relação à atitude masculina pós-coital 😉
          Partilho o teste à fidelidade. Já o fiz com os Girassóis de Van Gogh na Neue Pinakothek em Munique. Vi-o pela primeira vez aos dezasseis ou dezassete anos.
          Regressei a eles mais de vinte anos depois numa escapadinha de Inverno e ainda outra vez relatada aqui: http://pelosonho.blogspot.com/2007/04/luz-dos-girassis.html. A emoção foi a mesma, descontando a puerilidade da juventude. Com o “Abraço” fiz o mesmo e recentemente em Amesterdão também mas com todo o acervo do Museu Van Gogh. Curiosamente nunca me desiludi nestes périplos.
          O Rodin entrou na minha vida através dessa minha professora de Literatura Alemã que citei no comentário anterior com Os Burgueses de Calais (em alemão é os Cidadãos de Calais, não os burgueses). Fui encontrá-lo em Copenhaga na Glyptothek e foi mais uma vez um momento da grande intensidade, mas não como os que me apanharam de surpresa. adorei esta conversa 🙂

          1. Para acabar – e isentando-a de réplica -, desconhecia essa nuance na designação do conjunto escultórico de Rodin . Mas é deliciosa.
            Ai, ai, os alemães são imbatíveis nos detalhes e no rigor de linguagem! Para além de serem (isso sim) magníficos juristas 🙂
            Quanto a Rodin , gosto de tudo, mas no início, verde e com as sinapses em constante aceleração, sabe o que me deixou assim, como direi, “de rastos”? Uma escultura assombrosa chamada Celle qui fût la belle Heaulmière “, na frente da qual me detive muitas vezes, meio hipnotizada! Aos 18 anos, a demonstração genial ( e não-livresca ) de tudo o que está em causa no ciclo da vida, através daquilo que afinal é menos valorizado e não oferece grandes desafios filosóficos (a decrepitude do corpo) é verdadeiramente tremenda.
            Uma síntese espantosa, essa estátua.
            Também gostei de conversar consigo 🙂

            1. A precisão alemã agrada-me 😉 A primeira vez que vi Os Burgueses foi em Londres, pelo que sei há várias réplicas e não são todas iguais. Encontrei-me nesse momento com o que havia aprendido nas aulas. Às vezes viajar é como juntar peças de um puzzle. Andam dispersas por esse mundo fora e de repente encontramos a peça que faltava, pode ser um quadro, uma escultura, uma cidade, um momento.
              Não conheço a estátua de que fala mas hei-de indagar.

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