Clientes do Banco Privado Português encostam o ministro Teixeira dos Santos à parede. Bem ou mal, o governo tinha prometido responsabilizar-se até cem mil euros por depositante, tinha prometido analisar rapidamente a situação, tinha prometido descongelar essas poupanças a breve trecho. Mal ou bem, os depositantes não accionaram os ex-administradores do BPP, alguns estão sem emprego, alguns já passam sérias dificuldades que se avolumam a cada dia.
Os franceses e os gregos conhecem os sinais. Paira no nosso horizonte o receio de que venha a explodir e a alastrar uma séria agitação social em Portugal. Não sei se os desvios irregulares da banca que o regulador do Estado não regulou, além dos danos que isso está a provocar, configuram os tais sinais. O que sei é que estes nascem sempre de dramas que atingem o desespero.

Quando Teixeira dos Santos referiu que “As poupanças dos portugueses estão garantidas” obviamente estava a falar de depósitos tradicionais (garantidos pelo Fundo de Garantia até 100.000 euros).
Quem investiu em produtos de capital garantido, estratégias de retorno absoluto, etc (mesmo pensando que eram simples depósitos) não pode ter outras garantias que não sejam as das entidades que as prestam. O mesmo deveria ter sido aplicado no caso do BPN (verdadeira caixa de pandora). Mesmo nacionalizando o banco,na minha opinião apenas os depositantes deviam ter sido “salvos”, penalizando-se os credores ao invés dos contribuintes.
É que com culpa ou sem culpa (e neste caso parece ser mesmo uma fraude), casos que deveriam ser tratados pelos Tribunais estão a ser escandalosamente pagos pelo contribuinte. E o ministro das finanças foi bem claro hoje -não lhe passa pela cabeça que o Governo assegure algo além dos 100 mil euros por cliente com depósito no BPP (e devidamente comprovado).
Meu caro, julgo tem razão, mas essas considerações – todas elas – estão mais do que proclamadas. O problema é que começa a haver agitação excessiva e foi disso que falei.
É verdade, caro João. Por cá o Povo vai sendo sereno (fomos bem “domesticados” no tempo do Estado Novo)… Mas até quando?
O povo não vai sendo sereno, Pedro. É sereno por natureza, habitualmente, mas a agitação começa a ser sensível. É ditada pelos dramas sociais que crescem. E só há um modo eficaz de pôr um fim desejável à agitação, que é acabar com aquilo que está na origem das situações de desespero. Se assim não for, a agitação parece-me inevitável e mais do que explicável.
É bem verdade, João. Não há melhor rastilho para um barril de pólvora do que o desespero, e ele já é muito à nossa volta.
Julgo que sim, Ana, julgo que sim.
Muito bem, compadre. A indignação destes depositantes, justificadamente frustrados, torna-se tanto maior quanto vêem que o ‘regulador’ supremo, que nada ‘regulou’, continua impávido no seu posto. Vítor Constâncio devia ter a dignidade de se demitir. Em boa verdade, não lhe resta outra atitude. E, tal como aconteceu com Dias Loureiro, já irá tarde.
Claro, Pedro. E, quando já é tarde, ninguém sai pelo seu pé – sai empurrado.
Eu tb conheço os sinais:
– se 5 ou 6 garotos desesperados da Bela Vista a incendiar uns caixotes do lixo e 2 carros não foi o suficiente…next!
– vamos tentar com 5 ou 6 maus investidores desesperados…next!
– se nem assim a tão esperada onda anárquica chegar, os senhores jornalistas têm que fazer pela vida e irem eles pra rua partir qq coisa…
ps: pq é q em vez de irem atrás do Ministro não vão prá porta da Quinta do Patinõ pedir o dinheiro ao Rendeiro?? O Estoril tb tem uma “bela vista”.
Acredito que haverá gente com sérias dificuldades de sobreviver dignamente.
Acredito que estejam a chegar ao desespero.
Mas, friamente digo, os lucros (se não tivessem sido roubados) também eram divididos com os contribuintes??
Creio que não. Então porque tenho de pagar o que alguém roubou?
Vou para o casino, perco todo o dinheiro que jogo, também vou pedir ao governo que me ajude a pagar as contas….
Posso até parecer insensível, não estou a sê-lo, mas parece-me ser este o raciocínio lógico. Ou não?
Isso está mais do que entendido e parece razoável. O meu ponto, contudo, está para lá desse. Refiro-me à agitação que desponta, independentemente do rastilho que lhe estiver na origem. Não faltam rastilhos no País, seja este dos depositantes ou seja qualquer outro.
“Os franceses e os gregos conhecem os sinais.”
Meu caro,
Creio que confunde a beira da estrada com a estrada da Beira.
Está em Portugal, rodeado de Portugueses.
Não se limite aos horizontes da Redacção.
O Pais – e principalmente o Povo – real são outros.
Como diziam os Gregos, “Não tome a nuvem por Juno”
Vejo que não é bombeiro. Se não estiver atento ao fumo, nunca chegará a tempo ao fogo.
Gostava de estar enganado mas creio que confunde cigarros com incêndios florestais.
Porque fazem falta pessoas como aqueles clientes do BPP que entalaram o Ministro á porta da Garagem do Tivoli.
Só que ao contrario do que diz, o azedume é realmente muito, mas artistas daqueles há muito poucos.
Vejo que não é bombeiro. Se não estiver atento ao fumo, nunca chegará a tempo ao fogo.
I Parte
Iludindo os investidores
numa emissão de obrigações,
estes não são merecedores
das mais ignóbeis negações.
A fidedignidade alimentada,
avalizando a operação,
tem sido desmontada
pela verosímil arguição.
II Parte
A estridente incompetência
na actividade de supervisão,
tamanha é a prepotência
de quem vive na ilusão!
Há gente intocável
neste regime moribundo,
de aparência impecável
e odor nauseabundo!
O mexilhão honesto
e de trato amável,
considera o caso funesto
e miseravelmente insofismável!
Epílogo
Sem voz na consciência
e com falta de visão,
tamanha foi a incompetência
na actividade de supervisão.
Tamanha é a embrulhada
completamente irresponsável,
originando uma alhada
de profundidade impensável.
O embrulho rosado
deste tesourinho deprimente,
reflecte um país atrasado
governado displicentemente.
O que penso acerca deste caso BPP já o expus longamente anteontem num debate aceso que mantive com o Jorge Assunção acerca do seu post “Da parte fraca”. Não vou, por isso, voltar a repetir-me nessas considerações, nem é esse, aliás, o preciso tema deste novo post.
A novidade que temos agora, é que vários clientes do BPP encostaram o ministro Teixeira dos Santos à parede quando saía de uma reunião num hotel em Lisboa, tornando assim mais visível um clima de grande crispação, descontentamento e confronto social que começa a alastrar cada vez mais. Este preciso caso, se bem que triste e preocupante, tem pelo menos uma virtude: a de demonstrar claramente à classe política em geral, e ao governo em particular, que os governados começam a estar mais atentos e mais exigentes em relação à sua actuação e que não podem continuar a tomar, do alto das suas cadeiras e no conforto dos seus gabinetes, decisões que por vezes estão completamente desinseridas e desligadas da realidade, desdizendo hoje aquilo que garantiram ontem ser a sua linha de pensamento.
É por isso que, de certa maneira, até é bom – muito bom mesmo – que este e outros comecem a ser bem encostados à parede.
Certo, Luís. A agitação social que se desenha está mais do que justificada. E não faltam rastilhos no País actual. Este é apenas um dos rastilhos, mas qualquer outro pode servir.
Sim, os sinais de alguma possível agitação, estão aí. Há fumo, logo há fogo, como todos os Bombeiros sabem. Mas sinceramente, não creio que passe disto.
Há mais de 15 anos ouvi isto:
“Somos um país de bananas, governado por sacanas”.
Diz tudo do que temos sido, governados e governantes, ao longo da nossa, poderia ser grande, história.
Até pode ser que sim. Mas também pode ser que não. Se for desespero, então desespero é sempre desespero. Em qualquer parte do mundo.
Este desespero dos clientes do BPP, sendo desespero, sendo de lamentar, sendo humanamente tudo, é completamente diferente de outros desesperos. Não quero dizer que seja menos perigoso. Mas será mais bizarro se a fogueira se atear exactamente por aqui.
Mas isto sou eu aqui a falar num fim de tarde de Sexta feira
:))
Há desespero e desespero, sim. Mas é sempre desespero. Ou seja: situação-limite.