Outro jantar


Ana CB,

Caloira nisto de eventos delituosos, toca-me a mim a tarefa de escrever sobre o mais recente jantar que reuniu alguns dos escrevinhadores do Delito de Opinião. Portanto, lamento, mas desta vez a crónica não terá o brilhantismo habitual, pois já devem ter percebido que “eu é mais viagens”. Vou tentar desenvencilhar-me o melhor que souber.

Consta que houve quem se queixasse, num jantar anterior, da falta de representatividade feminina à mesa. Pois desta vez a coorte masculina não pôde reclamar – em termos matemáticos houve um aumento de duas unidades do dito género. Pela parte que me toca, senti-me muito bem acompanhada.

O restaurante escolhido para o convívio foi o Entre Copos. Apesar de estar perto do Campo Pequeno, fica meio escondido junto à linha de comboio, longe da confusão das ruas adjacentes. E, coisa rara, havia lugares para estacionar bem perto, apesar de ser uma noite de sexta-feira, quando toda a gente decide ir jantar fora.

Por fora, parece um restaurantezinho sem importância, assim meio atascado, e até passa despercebido. A fachada não dá nas vistas; a única nota fora do comum é o “burro”, de ar paciente e resignado, colocado ao lado da esplanada. Fiquei por isso surpresa quando entrei e percebi que afinal o restaurante é bem maior do que o exterior dá a entender. O espaço é amplo e tem uma atmosfera “regional”: madeiras escuras, ferro forjado, toalhas de xadrez, paredes brancas cobertas de quadros e fotografias, chão de mosaico cor de tijolo e algumas plantas a quebrar a sobriedade. E, claro, não faltava o habitual ecrã de televisão, onde passava – adivinhem… – um jogo de futebol, pois claro. Noviça neste restaurante, descobri entretanto que tem uma história com mais de cem anos (que podem ler neste artigo do blogue Beco das Barrelas), tendo mudado de nome e propriedade várias vezes desde os seus primórdios. A versão actual data do início deste século.

No menu, uma oferta generosa de grelhados, entre peixe e carne, razão pela qual apenas um de nós optou por arroz de cabidela, contrariando a maioria. Para acompanhar, vinho branco ou cerveja e, claro, água fresca, que as temperaturas destes últimos meses parecem apostadas em desidratar-nos. Houve uns quantos gulosos que não saíram sem sobremesa – sendo que aqui o uso do masculino é genérico e não literal, pois assumo que um desses gulosos fui eu.

As conversas giraram, como é óbvio, à volta dos assuntos mais caros aos escribas habituais do Delito, alguns deles recorrentes, intervalados com memórias e histórias pessoais, e uma ou outra incursão pelo mundo das viagens – uma concessão à minha pessoa, pela pouca apetência e pelos parcos conhecimentos políticos que tenho para emitir opiniões abalizadas sobre o tema. Os desentendimentos foram zero, as gargalhadas foram muitas.

Saímos já assim para o tarde, que de rápido o serviço teve muito pouco, talvez por o restaurante estar cheio. Despachada a foto de família, como a vontade de continuar o convívio ainda não se tinha esgotado e um passeio depois de comer faz sempre bem, ainda fomos até ao Campo Pequeno, hoje em dia rodeado de esplanadas cheias de gente, onde abancámos para mais uma bebida e dois dedos de conversa. Só quando um grupo alargado e barulhento de cachopas – tão iguais umas às outras que pareciam passadas a papel químico – veio instalar-se nas mesas ao pé da nossa, tornando impossível comunicarmos sem ser aos berros, é que decidimos que estava na hora de recolher a casa.

Resumindo: foi muito bom. Espero que o próximo não demore.

30 comentários em “Outro jantar”

  1. Reconheci o local pela foto. Fui lá muitas vezes visitá-lo (Joaquim) mas nunca tomei refeições. Em 1947 era propriedade de 2 cunhados beirões. Um deles fazendo as contas não apresentava lucros mas comprava propriedades o outro desconfiou e vendeu a sua quota mais tarde ao Joaquim (ribatejano) que era seu empregado desde os 10 anos de idade. Tendo depois o Joaquim comprado a outra quota. Este por sua vez vendeu em 2000/2.
    Hoje com 89 anos vive num lar vítima de amputações (diabetes).
    As voltas que o mundo dá.

    1. Tudo o que é antigo tem sempre muita história, seja ela mais ou menos interessante. Válido para os lugares e para as pessoas 😉

  2. Prova superada neste teste como caloira a redigir “actas de repastos” do DELITO, Ana. Com proveniências muito diversas: Guimarães, Porto de Mós, Santarém, Seixal… e Olivais.
    Certamente o próximo jantar não demorará tanto. Espero que alguns colegas que nunca compareceram possam marcar presença no próximo. Cabendo então a outro estreante o pelouro da acta.

    P. S. – O burrinho fica bem como membro honorário do blogue.

    1. Obrigada, Pedro 🙂 É verdade, a equipa do Delito é muito diversificada em proveniência geográfica (e não só). O que prova que a pluralidade só traz vantagens.
      Apoio a eleição do burrinho a membro honorário do Delito, até porque me parece que tem um ar algo cabisbaixo e precisa de ser animado. E animação nunca falta por aqui :))))

  3. Desculpem a minha ignorância, mas poderão identificar, pelo nome, as pessoas giras que estão na fotografia? Sim, eu sei, que a curiosidade “matou o gato”, mas nesta situação espero que não… 😊

    Vá, dispenso o nome do Burro, mas se tiver, também poderão comunicá-lo… 😁

  4. Já agora, aí perto há outro restaurante bem melhor e mais barato: “O Apeadeiro”. Grelhados muito bons de peixe ou carne.

    1. Passámos lá à porta, estava bastante movimentado, apesar do adiantado da hora para jantar. Fica a nota, obrigada.

    2. No Apeadeiro recomendo (na época própria) o cozido à portuguesa. Uma das melhores relações qualidade/preço dos restaurantes de Lisboa.

      1. Fiquei curioso. Quando me dá ganas de um cozido costumo ir ao Moisés. Têm cozido à 5.ª É muito bom, tem o gostinho de Lisboa, com aquelas fatias de 1cm de carne de vaca e com chouriço de sangue (aquele que é branco por fora). No Norte não usam chouriço de sangue. Tolos.

  5. E as conversas foram fluindo sempre sobre temas importantes, restaurantes, pratos (o esparregado de urtigas ficou-me na ideia), vinhos, viagens, memórias e episódios variados. Ficamos a conhecer melhor Guimarães, o seu subúrbio mais desenvolvido que é Braga, o Parque Natural de Serra de Aire de Candeeiros, os mindricos, as suas semelhanças e diferenças com os ciganos, Santarém e o seu restaurante michelanizado, o Seixal e os seus sindicalistas, os Olivais e a sua fauna urbana, e ainda, a capital e o seu jumento de fibra à porta daquele mesmo restaurante.
    Quando nos mudamos para a porta do Campo Pequeno, falou-se ainda da festa brava e lamentou-se a preferência da moda de estar sempre do lado dos mais fortes. Enfim, sinais dos tempos.
    Com a chegada das influencers, a concentração de mediatismo do quarteirão disparou, mas apenas no que toca à quantidade. Em termos de qualidade, o rácio ficou de rastos logo que nos despedimos, prometendo repetir a façanha para breve. O meu relógio já está a contar.

    PS: A acta foi aprovadíssima, Ana. Obrigado 🙂

    1. Que memória, Paulo! Obrigada pelo minucioso complemento ao meu pobre post. Em minha “defesa”, como fiquei na ponta da mesa houve partes da conversa que não chegaram aos meus ouvidos, até porque eu e a Teresa também nos embrenhámos noutros assuntos. Quanto ao despique Guimarães-Braga, para bem da minha integridade física (porque tenho amigos em ambos os lados da barricada), optei por não aflorar o assunto no post :)))))

  6. Bom, como ninguém respondeu à minha pergunta lá mais acima, lá terei que continuar a concordar/discordar com nomes de pessoas, em vez de com pessoas que, além de um nome, também têm um rosto… Pelo menos, em relação às sete pessoas que constam nesta “fotografia de família”…

      1. Sem qualquer problema. Também já andei “escondida” durante vários anos… E, às vezes, ainda ando… Sabe-me bem isso, além de me divertir… 🙃

  7. Foi bom voltar ao Entre Copos. Tens este dom, Ana, o de transportar os leitores para os sítios 😉 E fico como tu à espera da próxima “cimeira”, de preferência com maior representação das meninas…

  8. Pois, agora fiquei cheia de inveja 😉
    Gostava muito de participar. Fica a sugestão para um jantar em Maio/Junho. Noutra altura vai ser difícil.

    Beijinhos a toda a equipa delituosa

    1. Vamos meter uma cunha ao nosso delituoso-mor para ver se organiza qualquer coisa nessa altura. Desde que não seja nas semanas dos feriados, que aí sou eu que não costumo estar por cá.
      Um beijinho, Cristina

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