Oxalá


Fernando Sousa,

[Um rapaz de vinte e poucos anos avança, tronco nu, pelas areias do Sara Ocidental a caminho da Guiné-Bissau. A foto, de um amarelo tórrido, não aparece aqui porque um sapo comeu-a. Mas é tudo areia quente. O moço perde-se na linha do horizonte. Foi e veio, uns meses depois, mais velho e mais completo.]

 

Aguçava o lápis para me juntar aos meus novos companheiros do Delito de Opinião quando me caiu debaixo dos olhos um texto de Eduardo Galeano. E ia tão mais além do que imaginava dizer, e além disso tão perfeito, que o troquei pelo meu. Se nascemos incompletos, não estamos terminados – escreve o prosador uruguaio, em jeito de votos para 2011. Neste sentido, um ano cheio para todos. E agora, a palavra a um dos seus reinventores.

 

“Ojalá seamos dignos de la desesperada esperanza.  Ojalá podamos ser desobedientes, cada vez que recibimos órdenes que humillan nuestra conciencia o violan nuestro sentido común. Ojalá podamos merecer que nos llamen locos, como han sido llamadas locas las Madres de Plaza de Mayo, por cometer la locura de negarnos a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria. Ojalá podamos ser tan porfiados para seguir creyendo, contra toda evidencia, que la condición humana vale la pena, porque hemos sido mal hechos, pero no estamos terminados. Ojalá podamos ser capaces de seguir caminando los caminos del viento, a pesar de las caídas, las traiciones y las derrotas, porque la historia continúa, más allá de nosotros, y cuando ella dice adiós, está diciendo: hasta luego. Ojalá podamos mantener viva la certeza de que es posible ser compatriota y contemporáneo de todo aquel que viva animado por la voluntad de justicia y la voluntad de belleza, nazca donde nazca y viva cuando viva, porque no tienen fronteras los mapas del alma ni del tiempo.”

 

Vá. Agora é partir. Como o rapaz da foto.

14 comentários em “Oxalá”

    1. Obrigado, Laura. O rapaz da história salvou-se por um triz de um rapto na Mauritânia e de uma malária já na Guiné. Mas foram os riscos necessários para o crescimento de que fala o Galeano, cujo texto também é de encher a alma. Um beijo.

    1. Todos os círculos se fecham. Quando é que não se sabe. Este encontrou-se aqui. Também te recordo, no entusiasmo da escrita, junto à janela da Ruben. A. Leitão. Um beijinho.

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