[Um rapaz de vinte e poucos anos avança, tronco nu, pelas areias do Sara Ocidental a caminho da Guiné-Bissau. A foto, de um amarelo tórrido, não aparece aqui porque um sapo comeu-a. Mas é tudo areia quente. O moço perde-se na linha do horizonte. Foi e veio, uns meses depois, mais velho e mais completo.]
Aguçava o lápis para me juntar aos meus novos companheiros do Delito de Opinião quando me caiu debaixo dos olhos um texto de Eduardo Galeano. E ia tão mais além do que imaginava dizer, e além disso tão perfeito, que o troquei pelo meu. Se nascemos incompletos, não estamos terminados – escreve o prosador uruguaio, em jeito de votos para 2011. Neste sentido, um ano cheio para todos. E agora, a palavra a um dos seus reinventores.
“Ojalá seamos dignos de la desesperada esperanza. Ojalá podamos ser desobedientes, cada vez que recibimos órdenes que humillan nuestra conciencia o violan nuestro sentido común. Ojalá podamos merecer que nos llamen locos, como han sido llamadas locas las Madres de Plaza de Mayo, por cometer la locura de negarnos a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria. Ojalá podamos ser tan porfiados para seguir creyendo, contra toda evidencia, que la condición humana vale la pena, porque hemos sido mal hechos, pero no estamos terminados. Ojalá podamos ser capaces de seguir caminando los caminos del viento, a pesar de las caídas, las traiciones y las derrotas, porque la historia continúa, más allá de nosotros, y cuando ella dice adiós, está diciendo: hasta luego. Ojalá podamos mantener viva la certeza de que es posible ser compatriota y contemporáneo de todo aquel que viva animado por la voluntad de justicia y la voluntad de belleza, nazca donde nazca y viva cuando viva, porque no tienen fronteras los mapas del alma ni del tiempo.”
Vá. Agora é partir. Como o rapaz da foto.

Inshalá! Tenho os olhos cheios dessa foto imaterial 🙂 E sobretudo da luz, essa luz africana que a objectiva conseguiu captar. Bem-vindo.
Obrigado, Laura. O rapaz da história salvou-se por um triz de um rapto na Mauritânia e de uma malária já na Guiné. Mas foram os riscos necessários para o crescimento de que fala o Galeano, cujo texto também é de encher a alma. Um beijo.
Início inspirador, Fernando. Bem-vindo!
Um abraço, Rui. O Delito de Opinião também é inspirador.
Bem-vindo, Fernando. Vê-se que estás em forma.
Obrigado, João. Digamos que o que me falta na natação, por preguiça, me sobra na escrita. Renovados abraços.
Olá, Fernando. Gosto de te ver outra vez sentado a escrever, aqui mesmo ao meu lado 🙂
Todos os círculos se fecham. Quando é que não se sabe. Este encontrou-se aqui. Também te recordo, no entusiasmo da escrita, junto à janela da Ruben. A. Leitão. Um beijinho.
Então bem-vindo e votos de bom ano, com muitos posts e, se possível, com sapos menos comilões.
Obrigado, Sérgio. Os posts escorrerão conforme a alma e o tempo. O mesmo bom ano para ti.
Porque é sempre muito importante saber a origem de um texto como este (ou outro qualquer, suponho 🙂 ):
Palabras de agradecimiento, de Eduardo Galeano al recibir el premio Stig Dagerman, en suecia, el 12 de septiembre de 2010: (http://comdirecta.blogspot.com/2010/12/ojala-seamos-dignos-de-la-desesperada.html)
Tem toda a razão. Obrigado.
Viva, Fernando. Cá estamos novamente num projecto comum. Já era tempo. Um grande abraço.
Mais tarde ou mais cedo teria de acontecer. Ninguém se livra do passado, para mais quando é saudoso. Outro abraço.