É caso para nos questionarmos se André Ventura andará a dormir.
Vox e Livre, a mesma luta
Paulo Sousa,
![José%20Viana[6][1].jpg](http://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B2e151a0f/20352481_ZTaNv.jpeg)
Este país esquece com chocante persistência os seus valores. Começa por esquecê-los ainda em vida, condenando-os ao ostracismo, e acentua essa tendência depois do seu desaparecimento físico, enclausurando-lhes a memória sob sucessivas pedras tumulares. Como se nunca tivessem existido.
Isto sucede vezes de mais no domínio da expressão musical. Grandes compositores, grandes orquestradores, grande musicólogos que tiveram o condão de tornar este povo menos duro de ouvido acabam por morrer duas vezes. A primeira, paradoxalmente, quando ainda se encontram entre nós mas já foram cobertos pelo manto do silêncio, acentuado pela ignorância dos responsáveis “culturais” e pela amnésia mediática.
Tenho pensado nisto sempre que parte alguém que nos deixou um legado de belas partituras. Recebem uns parágrafos de gélido obituário nos jornais e eclipsam-se da memória colectiva, sem que ninguém pareça interessado em colmatar essa injustiça. Gente como Alain Oulman, Carlos Nóbrega e Sousa, Manuel Paião, José Calvário, José Niza, Pedro Osório, Fernando Correia Martins, Arlindo de Carvalho – ainda há pouco Nuno Rodrigues e José Luís Tinoco. Todos foram capazes de nos dar muito boa música. Nenhum deles merece ser perpetuado no silêncio.
Tendo nós um canal público de televisão, compete-lhe funcionar como memória viva da nossa comunidade musical. E houve um período em que isso aconteceu. No final dos anos 70, num programinha de humor e música intitulado A Feira, a RTP ainda a preto e branco convidou antigos compositores e conversou com eles, apresentando-os pela primeira vez à minha geração.
Maestros como Frederico Valério e Carlos Dias, só para mencionar dois dos que passaram nessas emissões (que devem ter sido apagadas dos registos da TV estatal, pois nunca as vi incluídas na RTP Memória).
Uma fórmula ampliada e melhorada em 1981, já a cores, com E o Resto São Cantigas, pela mão dos três mosqueteiros Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz (também responsáveis por Zip Zip e A Visita da Cornélia, outros mega-sucessos da RTP). Aí escutei pela primeira vez o Zé Cacilheiro, interpretado ao vivo pelo seu primeiro e melhor intérprete, o actor José Viana.
Este fado-canção entrou-me logo no ouvido. E desde então tem-me acompanhado por diversas paragens e nas mais diversas situações. Já o cantei no duche, no carro, na praia. Já o cantei em restritos grupos de amigos: «Quando eu era rapazote / Levei comigo no bote / Certa varina atrevida. / Manobrei e gostei dela / E lá me atraquei a ela / P’ró resto da minha vida.»
Não terá sucedido só comigo. Foi um sucesso instantâneo – do disco, da rádio, do transístor, da cassete. Nasceu em 1966 no palco do Teatro Variedades como número musical de uma rábula da revista Zero, Zero, Zé – Ordem P’ra Pagar, protagonizada por José Viana e Carlos Coelho a propósito da inauguração da ponte sobre o Tejo, ocorrida nesse Verão, faz hoje 60 anos.
«Enquanto houver um passageiro a ir no bote, a exploração continua», dizia o sarcástico e talentoso Viana, em aberta alusão a um dos slogans do salazarismo naquele ano em que se cumpria o 40.º aniversário da chamada Revolução Nacional. As plateias, habituadas a decifrar entrelinhas, estoiravam à gargalhada.
![zzz_abril1966[1].jpg](http://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1b07d1c8/20355802_eeDg8.jpeg)
Espaço de liberdade condicionada entre as malhas da censura, a revista à portuguesa vivia então um dos seus períodos áureos. Alguns dos maiores sucessos de sempre da música portuguesa nasceram precisamente ali no Parque Mayer, onde nenhum actor se negava a cantar.
O Variedades era um palco mítico, onde nas quatro décadas anteriores haviam desfilado Vasco Santana, Beatriz Costa, Teresa Gomes, Mirita Casimiro, Irene Isidro, Raul de Carvalho, Laura Alves, Manuel Santos Carvalho, Costinha, Maria Lalande, Eugénio Salvador, Hermínia Silva, Humberto Madeira, Amália Rodrigues, Eunice Muñoz e Raul Solnado.
Zero, Zero, Zé – Ordem P’ra Pagar foi o último grande sucesso daquelas tábuas: ainda nesse ano, o teatro era destruído por um incêndio quando ali se exibia a peça Descalços no Parque, de Neil Simon.
Zé Cacilheiro deveu-se à inspiração de Carlos Dias associada a dois letristas de muito mérito e também hoje injustamente esquecidos: Paulo da Fonseca (1913-73) e César de Oliveira (1928-88). As melhores cantigas das revistas surgiam destas colaborações impostas pela urgência da encomenda.
Mérito acentuado pelo talento de José Viana, para sempre associado ao tema, que viria a ser registado também como Fado do Cacilheiro na Sociedade Portuguesa de Autores. O vinil de 45 rotações editado ainda em 1966 foi durante anos um dos campeões dos programas de “discos pedidos” que garantiam grandes audiências radiofónicas.
«Desta vez canto um fado. Não como cantaria um fadista mas como suponho que o faria um cacilheiro de meia-idade que, quando era mais novo, cantava nas revistas da sociedade de recreio lá do seu sítio.» Palavras do próprio actor, impressas nesse disco que tanto sucesso fez. E que para sempre ficaria ligado ao imaginário de Lisboa.
Outros gravaram também o tema – entre eles, Fernando Farinha, António Mourão e Nuno da Câmara Pereira. Mas ninguém conseguiu igualar José Viana.
Carlos Dias não só compôs: também o acompanhou com a sua orquestra na versão discográfica. E foi ele igualmente o criador de dois outros enormes êxitos da canção portuguesa nascida nos palcos da revista: Lisboa à Noite, celebrizada por Milu, e Cheira a Lisboa, desde sempre associada a Anita Guerreiro.
Estranhamente, este maestro que tanto amou Lisboa não consta da toponímia alfacinha. É tempo de a capital portuguesa lhe prestar a merecida homenagem, descerrando-lhe uma placa de rua.
E é tempo de a RTP organizar uma nova série do programa E o Resto São Cantigas, consagrada aos compositores e orquestradores que ainda se encontram entre nós e merecem que o canal público lhes preste tributo. Deixo alguns nomes, em jeito de sugestão: Manuel Freire, Nuno Nazareth Fernandes, José Cid, António Avelar Pinho, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Tozé Brito, Sérgio Godinho. Sem sectarismos, sem capelinhas pacóvias, sem visões estreitas. Com sopro artístico e rasgo musical.
«Sou marinheiro / Deste velho cacilheiro / Dedicado companheiro/ Pequeno berço do povo / E navegando / A idade foi chegando / O cabelo branqueando / Mas o Tejo é sempre novo.»
Texto reeditado, com ligeiras alterações, no dia em que se assinala o 60.º aniversário da ponte sobre o Tejo, em Lisboa
Primeiro Amor, Maria da Fé
(EP: Primeiro Amor, 1976)
No passeio pela praia até à ria de Alvor (aí uns 3 km) ia trocando comigo interessantes impressões.
E constatando que se generalizou a moda deplorável de a parte de baixo dos bikinis ficar entalada no rabo porque tem aí a largura de um atilho, perguntei a mim mesmo qual a razão de semelhante dislate. Ocorreu-me que talvez a quantidade inusitada de gays no mundo da moda ajude a explicar o fenómeno: sabem eles lá o que faz atraente uma mulher.
Pareceu-me uma descoberta a um tempo percuciente e inspirada. E dela decidi não fazer segredo para ir ao encontro da perplexidade de não poucos cavalheiros.

Donald Trump actua como toxicómano, viciado em drogas duras. Mas com uma originalidade: é viciado em si próprio. Isto ficou patente logo no discurso de posse, a 20 de Janeiro de 2025 – o discurso do “ai… ai… ai… ai…” Quando proferiu trinta e quatro vezes a palavra eu – aberração que constitui todo um programa, como na altura aqui escrevi.
Insaciável no consumo de si próprio, sem metadona que lhe valha, o bilionário de Mar-a-Lago fez rebaptizar com o seu nome o prestigiado Centro Kennedy, em Washington – medida digna de Rei-Sol felizmente revogada pela justiça federal meses depois. Mas a principal auto-estrada de Marrocos, com mais de mil quilómetros de extensão, irá chamar-se Donald Trump, tal como já acontece com o aeroporto internacional de Palm Beach, no sul da Florida. E tem feito máxima pressão para que a nova nota de 250 dólares (até agora inexistente nos EUA) seja ilustrada com as ventas dele.
A legião de lambe-botas que o rodeia vem fazendo novas sugestões para imortalizar o Supremo Líder das formas mais estrambólicas. Eis um exemplo: incluir aquela cabeça de abóbora junto a Lincoln, Washington, Jefferson e Teddy Roosevelt no emblemático Monte Rushmore. Outro: designar 14 de Junho, data de aniversário do sucessor de Joe Biden, como feriado federal. Coladinho ao Santo António, feriado municipal em Lisboa.
Ainda me parece pouco: há que ser mais arrojado e criativo. Proponho desde já que o Triângulo das Bermudas passe a denominar-se Triângulo Trump. E que a Fossa das Marianas – o ponto mais fundo do planeta, no Oceano Pacífico – fique a partir de agora conhecida por Fossa Trump.
Seria homenagem bem merecida.
Lanço a ideia para debate, aguardo opiniões e contributos.
Uma manifestação de racismo, digamos, estrutural como esta, seria muito mais provável que tivesse origem no Chega do que no Livre. É certo que ambos os partidos militam no campeonato do populismo, mas depois de o PS nos ter tentado convencer que uma vaca podia voar (foi incrível como tantos papalvos engoliram, a sorrir, essa patranha) e de termos visto o Ventura de punho fechado a celebrar uma vitória da CGTP, temos de estar preparados para tudo. Um destes dias ainda veremos o Presidente da República fardado com as cores do Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita, lá na frente, a dar a cara ao touro numa corrida à portuguesa no Campo Pequeno.
The Right Time of the Night, Jennifer Warnes
(Álbum: Jennifer Warnes, 1976)
Em 2026 vigoram as atuais regras de pagamento do IUC, no aniversário da matrícula do carro, diz a notícia, e milhares de condutores suspiraram de alívio com a mudança prevista para 2027, quando o pagamento, para todos, será em Outubro, excepto se o valor for igual ou inferior a xis, caso em que é em Julho e Outubro, com excepção de que não seja nos dois meses, hipótese em que será apenas no primeiro, contrariando o regime geral.
A norma transitória prevê ainda a possibilidade de o proprietário “requerer a anulação da liquidação do IUC referente ao ano de 2027 nas situações em que ocorra o cancelamento da matrícula de veículo das categorias A, B, C, D ou E durante esse ano e antes da data de aniversário da matrícula”.
Já em 20208 é mesmo para valer – tudo em Outubro, excepto naqueles casos em que não seja, por se pagar em duas ou três prestações, casos em que o contribuinte tem primeiro de se informar sobre quanto tem a pagar, a seguir ir ver, porque entretanto se esqueceu, se pode começar logo em Abril, a seguir em Julho e finalmente em Outubro. Se no processo se esquecer de alguma coisa logo virá a AT, com característica insolência, notificar das multas e alcavalas, sob pena de penhora e não sei quê.
Quase todos a pagar em Outubro quer dizer serviços entupidos, computadores em baixo. E já se vê daqui um director qualquer (não muito importante, e aliás provavelmente sem nome, que os cidadãos não precisam de saber ao certo quem mereceria ser seviciado) a dizer: Vêm todos no mesmo dia!, o jornalista concordando que realmente o contribuinte não tem emenda, ou deixa tudo para o fim ou vem a correr ao princípio.
Uma baralhada. Baralhada nada, coisa muito simples, dirá um qualquer inspector de Finanças que calhe ler estas regras, o ignoto autor é que não sabe o que diz, interpretou tudo torto e aliás ignorou os grandes benefícios desta importante reforma.
Benefícios? Abaixo transcrevo os parágrafos pertinentes da notícia sobre os motivos e o escopo da reforma, em itálico, e faço a necessária tradução para português, a cheio:
“… o cumprimento voluntário das obrigações tributárias, agilizando procedimentos e reforçando a confiança e a transparência na relação tributária” e “prevenindo situações suscetíveis de penalizar o contribuinte”.
Tornamos complicado um sistema simples e enraizado (foi criado em 2007) porque pretendemos dar a impressão de estarmos a trabalhar e para isso nada melhor do que gesticular. Quando a intenção seja, ademais e como aqui evidentemente é, criar condições para aumentar a receita fiscal através de multas, é uma excelente iniciativa de marketing político invocar um superior, e louvável, propósito. Esta prática tem dado óptimos resultados com, por exemplo, as multas de trânsito: ao agravá-las e multiplicando as proibições aumenta-se a receita em nome da segurança rodoviária, por inadequadas e abusivas que sejam as proibições, e os réprobos infractores ainda se expõem à ira dos virtuosos cumpridores.
“Com estas alterações legislativas, reforçam-se, assim, a previsibilidade, a transparência e a eficiência do sistema tributário, promovendo uma relação mais equilibrada entre a administração fiscal e os contribuintes”.
A previsibilidade não sai reforçada (o que é que tinha de imprevisível o mesmo carro pagar o imposto sempre no mesmo mês?), transparente é apenas a intenção de aumentar a receita, e da “relação equilibrada” nem é bom falar senão para dizer que é a mesma que existia entre a Santa Inquisição e os incréus.
“Assegura-se, igualmente, a neutralidade fiscal da medida, garantindo-se, designadamente através da disposição transitória, que as novas regras não acarretarão qualquer esforço financeiro acrescido para o contribuinte”.
Fantástico: Mudam-se desnecessariamente as regras, lançando as dúvidas e perplexidades no espírito das pessoas, mas vem-se garantir que não há qualquer “esforço financeiro acrescido”. Acredita-se: O esforço acrescido é apenas o da paciência para aturar estas coisas.
Enfim, o trambolho legislativo está aí, a pesporrência também, e a anestesia do eleitorado idem.
Quais as soluções para chegar a um mundo ideal em que o Governo se ocupasse de coisas sérias, o Parlamento não fosse uma repartição para pôr carimbos de aprovação em quanto lixo um ministério qualquer quer pôr à porta e não houvesse Estados dentro do Estado, como há muito a AT é, governada tradicionalmente por um político menor qualquer que julga que a sua missão não é coarctar abusos mas sim aumentar a receita (prática que no doublespeak politiquês é descrita como “combate à evasão fiscal)?
Tenho várias: Cortejo pelas ruas de Lisboa dos senhores deputados, de sambenito e orelhas de burro, desde S. Bento até à Avenida da Liberdade; aposentação compulsiva (ou despedimento, no caso de não estarem reunidas as condições para aposentação) do funcionário que propôs as medidas; demissão do SEAF e inibição do exercício de direitos políticos por espaço não inferior a 10 anos; e juramento dos senhores membros do Governo diante do Senhor Patriarca de Lisboa, na Igreja de Santa Maria Maior, prometendo abdicar de práticas aldrabonas.
O senhor ministro das Finanças teria ainda de se confessar. Eu, se fosse Patriarca, não lhe dava a absolvição.
«Quando algu´ém sente dor, está vivo, mas quando sente a dor de outra pessoa, então sim, é um ser humano.»
Nikos Kazantzakis
A segunda meninice começa mais tarde. Antes, é à segunda adolescência que chegamos. Voltamos a pensar nos grandes temas da vida e o fascínio é o mesmo que sentimos aos 15 anos, como se todas essas reflexões tivessem ficado fechadas em frascos com formol, à espera que as retomássemos. A pressa de viver também volta. A diferença, agora, é que estamos cheios de razão.
“MERCADO DESPORTIVO”
Os Demónios de Alcácer Quibir, Sérgio Godinho
(Álbum: De Pequenino se Torce o Destino, 1976)

Ando sempre à procura da crónica perfeita. Por vezes encontro-a: só acontece em ocasiões raras. Aí celebro, com júbilo de leitor veterano e exigente.
Ontem encontrei uma dessas preciosidades. Num histórico jornal espanhol, o ABC. Assinada pelo poeta e romancista Ángel Antonio Herrera, sob o título “Perderlo todo”.
Gostei tanto que faço questão de a reproduzir aqui, com a devida vénia, partilhando-a convosco. Tendo arriscado eu próprio traduzi-la nos parágrafos que vão seguir-se.
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Perder tudo é uma experiência extrema que imaginamos impossível até ao dia em que toca ao vizinho. Aconteceu, nestes dias sombrios. De repente há quem perca a casa onde nasceu, o relógio do pai, a cadeira de baloiço da mãe, o álbum onde ainda se vislumbrava um menino de calções no recreio com o coração cheio de esperança inocente — um menino cujo nome poderia ser o nosso.
Há objectos que só valem dez euros e outros que não têm preço, pois contêm uma vida inteira. O fogo é democrático na sua ferocidade: não faz distinções. Para as labaredas, uma tela de Velázquez e uma fotografia de Primeira Comunhão valem exactamente o mesmo.
Existe algo obsceno na contemplação de uma casa em chamas. Ardem uns móveis, mas sobretudo queima-se o próprio tempo. Isso não aparece nos telediários: há sempre uma história dentro da história que não contamos pois o que é destruído inclui segundas-feiras, aniversários, vésperas de Natal, reconciliações, sestas de Agosto, luas românticas e aquela marca de um lápis na porta onde um pai costumava medir o tamanho dos filhos.
A arquitectura invisível de uma família é consumida pelas chamas: nenhuma apólice de seguro pode remendar ou atenuar isto.
A dimensão de um incêndio não se mede por metros, mas em memórias. Em rigor, a vida vai-nos incinerando com lentidão. Primeiro perdemos os pais, depois a casa da infância, a seguir dois amigos que sabiam quem um dia fomos. Surge então um pirómano para completar o serviço. Tarde ou cedo damos por nós a viver entre ruínas invisíveis, com a inabalável obstinação de quem vai deixando flores numa janela, mesmo sabendo que nada é tão precário como uma janela.
Talvez viver consista nisto: aceitarmos que somos uma fogueira invertida. Vamos perdendo tudo aos poucos — juventude, pais, amigos, certezas, o corpo que tivemos. Apesar disso, mantemos o hábito de acender uma lâmpada em cada noite.
O fogo não destrói paisagens ou lares, mas biografias. Cada homem com um incêndio na sua existência é um exilado de si próprio.
Já sabemos que o negro é também a cor do Verão. Todos somos ricos até ao dia em que a chama da desventura trata de nos acertar as contas.
Quer tenha sido forjado ou real, o assalto ao gabinete do Chega é uma ocorrência muito grave. Nisso há consenso. De modo que o mais provável é que a investigação da PJ seja inconclusiva. Vai uma aposta?
Family Again, Sly & The Family Stone
(Álbum: Heard Ya Missed Me, Well I’m Back, 1976)
O Vitorinha ia jogar ao Jamor a final da Taça e na cabeça do dono do melhor restaurante da região (e um dos melhores do país) nasceu a ideia de uma excursão, de camioneta, àquele estádio, sito em terras em devido tempo incorporadas no país.
Só clientes habituais, alguns deles, como este que se assina, amigos, o preço não sendo exactamente uma pechincha.
À hora aprazada lá nos encontramos e, com o olhar prazenteiro, as piadas de gosto duvidoso pululando, a antecipação da jornada, abalamos.
Ainda antes de chegar ao Porto já um empregado, à laia de desenjoo, ia passeando uma garrafa de legítimo champanhe, que teve de ser reforçada prestes, tal o sucesso da iniciativa. E pareceu uma delicada atenção que, apesar do sacolejo da camioneta, a bebida fosse servida em flutes genuínas, decerto para firmar nos espíritos a ideia de não sermos excursionistas com acne e mochilas.
Houve um desvio no Porto para recolher um outro peregrino e a viagem ia decorrendo sem sobressaltos. Algures a meio circularam pratinhos com salmão fumado, pimentos padrón, presunto pata negra, outros mimos, tudo regado pela mesma bebida, dado que se tratava de viajantes conservadores.
Chegados ao destino à hora do almoço, abriram-se as arcas do tesouro, guardado na caverna geralmente destinada, naqueles veículos, às bagagens, e os dois lestos empregados procederam com desembaraço à instalação de várias mesas topo a topo num recanto do pinhal, formando uma grande, dado que éramos aí uns vinte autênticos ou fingidos amantes de futebol.
Assisti com algum espanto ao forrarem com toalhas alvíssimas aquelas mesas de campanha; e as alfaias na mesa não diferiam em nada das da casa-mãe. O meu querido amigo Pedro não fazia as coisas pela metade por entender, cheio de razão, que os requintes da civilização de modo nenhum são incompatíveis com um ambiente bucólico.
Havia entradas variadas e a resistência era cabrito assado, tudo coroado por bom sortido de sobremesas. Quem quisesse tinha também vinhos à disposição, ainda que muitos, como eu, continuassem no champanhe, com certeza por serem avessos a misturas.
A instalação ficava ao lado do caminho de acesso a uma entrada no recinto. E várias pessoas se detinham contemplando a cena inusitada, raros fazendo perguntas mas muitos comentando em alta voz. Que diziam? Que tava-se mesmo a ver que aquilo era gente do Vale do Ave, um bando de fássistas, que era preciso lata para vir para um sítio daquele com estes preparos, e coisas ainda menos simpáticas.
Serviu de picante, ainda que não fosse preciso: o tempero era, como de costume, aprimorado.
E então, o jogo? Ganhámos.

Hoje na papelaria-tabacaria Tabak, no Continente de Telheiras (Lisboa)

Ontem num quiosque de Algueirão-Mem Martins (imagem do Jornal Nacional da TVI)
Tempo de férias para muitos. Tempo propício a deslocações: os dias longos desafiam-nos a isso.
Daí a recomendação que hoje faço. De um blogue escrito a dois. Por uma geógrafa e um físico, Carla Mota e Rui Pinto. Ambos devotos de passeios e excursões e deambulações por países e continentes – quanto mais longe do sofá, melhor.
Antes da guerra mais recente passaram por Ormuz, visitando o Forte de Nossa Senhora da Conceição mandado erguer por Afonso de Albuquerque no século XVI e lá descobriram inscrições portuguesas que têm resistido à erosão do tempo. Sentiram orgulho: «Estas ruínas com 400 anos demonstram que os portugueses tiveram a visão e coragem de criar um mundo novo, e souberam-no fazer contra a vontade de impérios maiores e mais poderosos.» Bem os compreendo.
«No final da visita queremos pagar e [o guia] diz-nos que não. É oferta, o forte, afinal, era vosso!» Orgulho redobrado.
Eis Viajar Entre Viagens, nosso blogue da semana.
É possível que a divulgação feita pelo nosso plantel de bloguistas da transferência do Delito de Opinião para esta nova morada tenha cativado alguns novos leitores. Mas quero crer que a maioria dos visitantes seja composta por leitores veteranos do nosso blog. Mesmo assim algumas velhas questões continuam, apesar de já terem sido repisadas – várias vezes.
Neste meu postal de ontem – “Racismo em Lisboa” – regressam os resmungos de que no DO há censura de comentários. É um gemido antigo, gente que não gosta de algum texto, ou mesmo do blog apesar de visita frequente, queixa-se da “censura”.
Por várias – demasiadas – vezes já aqui escrevi. Não há “censura” nos blogs. Quem afirma isso apenas demonstra (não denota, demonstra liminarmente) a sua profunda ignorância. E até um desnorte, uma desorientação, nisso de não perceber onde está. Pois aqui não é um órgão de comunicação social. Ou seja, não tem código deontológico. Nem tem a “responsabilidade social” requerida à imprensa. Os bloguistas devem escrever com “responsabilidade” – são até passíveis de injunções, morais ou jurídicas. Mas isso não é tal “responsabilidade social” tantas vezes requerida para as instituições.
O que há nos blogs é a selecção de comentários admitidos. Não é censura, é selecção! A qual é totalmente legítima, juridicamente mas também moralmente. Eu pratico-a. Isto é um espaço convivencial, eu convivo com quem quero. E entro em interlocução quando e como quero.
E explicito os meus critérios, de forma mais sistematizada do que antes fiz:
E, por fim mas não menos importante. Ou até mesmo o mais importante:
E ninguém tem nada a ver com isso. Pois essa é a essência do bloguismo: cada bloguista detém império sobre os seus postais. E os visitantes que queiram exercer o seu direito ao renhanha que vão para os comentários dos jornais digitais. Ou bugiar…
(Fica assim tudo elencado. Aos próximos desnorteados que aqui se lamentem poderei orientá-los através da ligação a este postal.)