Interrupções e conceitos


João Carvalho,

Israel decidiu interromper hoje a guerra em Gaza por três horas, para ajuda humanitária. E parece que é assim mesmo que o conflito vai continuar: uma trégua de três horas por dia, para acorrer às vítimas das restantes 21 horas diárias de guerra.

À indiferença com que se matam civis – crianças e velhos incluídos – acresce a previsão desumana das partes beligerantes, que concedem um intervalo regular para socorrer ou recolher as vítimas da guerra. Assim a frio, pode dizer-se que a diferença entre esta guerra e as da Idade Média não vai muito além das fardas e do armamento, por exemplo. E da própria interrupção, claro.

Quanto à diferença entre esta interrupção e outras interrupções, ela está no conceito. Esta é um pouco como nos cinemas, em que a interrupção corresponde a um intervalo. Ou como nos velhos tempos da RTP, em que era retomada a programação após a interrupção, a qual até originava um pedido de desculpas. Diferente é a eufemisticamente chamada ‘interrupção voluntária da gravidez’, em que a interrupção é definitiva e nada se retoma.

Israel e a Palestina deviam pensar no conceito que Portugal associa ao aborto, juntar-lhe um pedido de desculpas tipo RTP a preto-e-branco e deixar o intervalo para os filmes. Mas preferem a razão da força. Contra crianças e velhos, os dois serão seguramente vencedores.

Espanha e Portugal


Patrícia Reis,

O Partido Comunista de Espanha, que em 1996 chegou a eleger 21 deputados, com 10,54% dos votos, sob a sigla IU – Esquerda Unida – está hoje reduzido a dois parlamentares no Congresso em Madrid e fragmentado em várias tendências, cada vez mais microscópicas, cada vez mais irreconciliáveis. Nas legislativas de Março de 2008, obteve apenas 3,77% dos votos – e um dos dois deputados que elegeu nem sequer é militante comunista. O outro é o coordenador-geral cessante da IU, Gaspar Llamazares, que deixou estas funções por vontade própria, embora conserve o lugar no Parlamento. O PCE tornou-se uma força quase residual. Nada que se pareça com o partido que chegou a fazer tremer a ditadura de Franco e a ter uma considerável influência na vida intelectual e sindical de Espanha.

Lá é assim. Por que motivo será tão diferente em Portugal?

Do uso irreflectido das palavras


José Gomes André,

Num longo artigo no DN de ontem, Mário Soares disserta sobre o conflito em Gaza, não se ficando por meias palavras: “Israel lança-se numa «guerra inútil» que lembra a barbárie do Holocausto”.

Confesso que face à complexidade destes eventos tenho dificuldades em assumir posições taxativas. Porém, este género de declarações é absolutamente ridículo, não apenas porque compara o incomparável, mas essencialmente porque relativiza um evento histórico de gravíssimas e hediondas proporções – ao qual nos deveríamos referir com grande parcimónia tendo objectivos metafóricos.

As pessoas têm todo o direito em indignar-se com as decisões militares de Israel. Mas isso não justifica a invocação fácil do Holocausto como arma de arremesso (numa espécie de psicologia invertida), banalizando o Mal e atraiçoando a memória histórica das suas vítimas.

Ler


Patrícia Reis,

O blogue Generación Y, da cubana Yoani Sánchez. Não é "dissidente", como alguns lhe chamam: dissidente é o regime dos irmãos Castro, que rasgou as promessas de liberdade feitas há meio século, quando Cuba se livrou de uma ditadura de sete anos para mergulhar noutra ditadura que dura há sete vezes sete anos.

Paisagem com Tejo ao fundo


Teresa Ribeiro,

Nasceu numa manhã soalheira de Junho de 2000, num bairro à beira-Tejo, dias depois das obras terem sido interrompidas pelo aluimento de terras e inundação que bloqueou um dos túneis do metro. Enquanto a área obstruída se ia desbloqueando nasceram-lhe os primeiros dentes, deu os primeiros passos e articulou as primeiras palavras. No dia em que entrou na pré-primária, em Janeiro de 2003, a inundação foi finalmente estancada.

Desde então muito aconteceu na sua vida. Nasceu-lhe mais um irmão, mudou de casa, entrou no ensino básico, renovou toda a sua dentição. Actualmente frequenta o 3º ano. Há dias, numa aula de História, ouviu falar no Cais das Colunas. A professora explicou que era mesmo ali, no Terreiro do Paço, onde estavam os tapumes do estaleiro por onde ela se habituou a passar durante toda a sua existência. Mas familiarizada como estava com o cenário das obras naquele sítio teve dificuldade em imaginar como seriam as coisas antigamente, quando ainda nem sequer tinha nascido…

Ascensão do Império Russo


André Couto,

Orfã da grandeza soviética, consumou-se o declínio da Rússia nas últimas duas décadas. Depois da calamitosa governação Iéltsin, Vladimir Putin, com métodos tão questionáveis como eficazes e populares internamente, recupera a Rússia como potência, restaurando o famoso temor reverencial mundial.

Os Estados Unidos, via NATO, tentaram promover a ocidentalização da Geórgia e da Ucrânia. Agora, perante o ranger de dentes da Rússia, assobiam para o lado. Só por instantes Dick Cheney pensou intervir militarmente na Geórgia. (In)coerentemente, nos últimos dias, perante o aperto à Ucrânia, não se vêem nos Estados Unidos ou União Europeia vozes, braços e "peitos feitos" atrás da Ucrânia na batalha do gás.

Em pouco tempo os governos pró-ocidentais desta duas antigas Repúblicas Socialistas Soviéticas serão substituídos, sucumbindo internamente ao assédio pró-russo das oposições. Nesse dia a Rússia não terá apenas ganho a batalha diplomática pela via de um ostentado destemor, como terá recuperado dois preciosos aliados estratégicos que lhe haviam fugido. Onde terminará esta crise?

 

Todos enfrentaram, todos fogem.

Custos de contexto


Paulo Gorjão,

A partir de hoje é oficial que em 2009 vamos trilhar o caminho das pedras. Mais más notícias a juntar a quase uma década de divergência da média da União Europeia. Curiosamente, embora todos reconheçam a natureza estrutural das nossas dificuldades, não vejo ninguém a bater na tecla que é fundamental. Sejamos claros porque não são precisos mais diagnósticos. Nós sabemos muito bem aquilo que está mal em Portugal. Enquanto ninguém colocar no topo da agenda política — PSD, please? — o combate feroz e impiedoso aos custos de contexto nós vamos continuar a rastejar na lama. Eu soletro: cus-tos-de-con-tex-to.

Duas vezes mal


J.M. Coutinho Ribeiro,

Vale de Salgueiro, aldeia de Mirandela, é conhecida por uma tradição segundo a qual, na noite de 5 de Janeiro, as crianças são incentivadas pelos familiares a fumar cigarros. Está mal. Entretanto, nas televisões a tendência é para "moranguizar" as crianças, ensinando-lhes coisas igualmente impróprias. Também está mal.

Sentido de (in)oportunidade


Leonor Barros,

Cumprindo a tradição de Dia de Reis, foram cantadas as Janeiras a José Sócrates. O Primeiro-Ministro estava visivelmente bem-disposto e sorridente, recessão não lhe terá batido à porta certamente, e aproveitou a ocasião para desejar que, para o ano, os pequenos cantores o encontrassem em São Bento. Há que aproveitar todas as oportunidades. Se isto não é fazer campanha, não sei o que é.

Esplendor na tela


Patrícia Reis,

Morreu Pat Hingle. Vi-o em muitos filmes, mas houve um que me marcou para sempre: Esplendor na Relva, de Elia Kazan. Fazia um fabuloso papel de pai que estraga por completo a vida do filho à custa de tanto o proteger. É um filme dilacerante sobre o peso do silêncio no reduto familiar e a impossibilidade do amor na América puritana dos anos 20. As cenas que Pat Hingle partilha nesse papel de pai possessivo e dominador com o inseguro Warren Beatty são dignas de antologia. A crítica arrasou o filme na estreia: tem sido essa a sina de tantas outras obras-primas. Não admira: é impossível gostar deste filme sem ter uma paixão avassaladora pela Sétima Arte. E há muitos críticos cinematográficos que detestam o cinema acima de qualquer coisa.

 

Na foto: Kazan (à esquerda) com Warren Beatty, Natalie Wood e Pat Hingle nas filmagens de Esplendor na Relva

Primeiro Grito


André Couto,

O pluralismo e a diversidade são a base da sociedade. Como a maioria dos meus companheiros nesta aventura del(e)itual, partilhando a confusão da Teresa Ribeiro, não conheço os de mais fisicamente. Temos raízes diversas e será certamente singular a forma como olhamos e vivemos o mundo. Será também diferente a forma como o transmitimos, felizmente. Sem isto, caminhar por estas páginas seria vaguear perdido numa exposição de Munch, em busca sôfrega d’O Grito.

Inicio assim esta partilha diária, esta simbiose perfeita entre o eu, os prevaricadores deste domínio e os nossos leitores, a essência de um blog. Prometo jamais vender a alma, prometendo gritar constantemente.

 

 

A mutação da relação


Paulo Gorjão,

José Medeiros Ferreira chama a atenção para a escolha do momento da entrevista de José Sócrates Como nota, tratou-se de uma opção que muito claramente teve a intenção de abafar as palavras do Presidente da República.

Mas há um outro aspecto que importa salientar. A entrevista confirma que a cooperação estratégica é nesta altura uma ficção. A escolha do timing revela que o Primeiro-Ministro neste momento se relaciona com o Presidente da República também no plano do combate político e não apenas no domínio institucional.

A antecipação do ano político


Adolfo Mesquita Nunes,

O ano político de 2009 começou verdadeiramente em Dezembro de 2008, com a mensagem presidencial de Cavaco Silva acerca do Estatuto dos Açores. O vigor da sua argumentação e a especial violência da sua apresentação aconselharam o Governo a antecipar um discurso que planeava apenas utilizar um pouco mais perto das eleições.

 

Na verdade, como há muito se percebeu, o Governo pretende, ao contrário do que é normal, utilizar esta crise como motor para a segunda maioria absoluta.  Na convicção de que o desnorte da oposição à direita e a irresponsabilidade da oposição à esquerda afastariam os eleitores, os socialistas convenceram-se de que, em tempos de crise, e com um discurso seguro e estatista, a única alternativa credível para o eleitor seria mesmo o PS.

 

Foi por isso mesmo que José Sócrates negou a crise até mais não poder, levando mesmo a Lusa a não admitir a palavra estagnação nos seus takes. Na verdade, dava-lhe jeito fazer desta crise um evento internacional a que Portugal, infelizmente, lá para Abril ou Maio, descobriria não ter conseguido ficar imune, mas que só a destreza do Governo teria conseguido atrasar. E só isso justifica que um Ministro das Finanças de um país da União, como Portugal, seja incapaz, em Setembro, de prever, mais que não fosse à cautela, o que viria a passar-se em Dezembro.  

 

A mensagem de ano novo do Presidente da República – que se substituiu a uma oposição que manifestamente o desrespeitou – veio, no seguimento da questão dos Estatuto dos Açores, inviabilizar a estratégia do Governo. O Presidente veio colocar o Governo no centro da crise. Ela está aí e há que actuar. Daí que, na entrevista de ontem de José Sócrates, que sumariamente analisei n’A Arte da Fuga, o Primeiro-Ministro tenha vindo assumir a crise. Cavaco Silva impediu-o de se fazer passar por distraído e obrigou-o a apresentar-se ao eleitorado com o discurso seguro, determinado e cheio de ideias optimistas que apenas tencionava apresentar a meio do ano.