A recuperação e as provas


Leonor Barros,

As carteiras de senhora são um labirinto insondável, albergam mistérios e tralhas em número excessivo. Descobrir o que se procura pode ser uma tarefa hercúlea levada a cabo com tacto e persistência. O telemóvel tocava, insistente, num final de tarde em que acabava de deixar a escola. Para trás o dia que se aconchegava no crepúsculo gélido mas luminoso, o chilreio de adolescentes em delírio e a sala de professores pontilhada de rostos pessimistas. Para trás, tudo, então, o tempo que se afirmava peremptoriamente de tranquilidade e aconchego entre os livros e a lareira, a preguiça das gatas na arte de nada fazer, só os felinos o conseguem com mestria. Encontro finalmente o telemóvel, após tentativas infrutíferas. A um número desconhecido correspondeu uma voz igualmente desconhecida. Quem seria? Do lado de lá soava alguma inquietação e ansiedade. Reconhecida então a voz, a conversa foi correndo com sucessivas tentativas de acalmar a mãe da minha aluna: a burocracia não deve sobrepôr-se às partidas que a saúde ou falta dela pregam, tento convencer-me, tudo se resolverá, pois, tento acalmá-la, tudo tem solução. Depois de ter sido submetida a uma intervenção cirúrgica delicada e de recuperação lenta, a minha aluna ficará retida em casa por um tempo que se adivinha longo. Desencadeados mecanismos para colmatar a ausência forçada das aulas, acresce a inquietação de fazer provas de recuperação a todas as disciplinas assim que regressar à escola e que constituem apenas aquilo que tão bem se faz neste país: burocratizar o sistema. Nada me oporia às provas caso ela, e outros como ela, se tivessem entretido no café em frente à escola em vez de ir às aulas. O absentismo não deve ser premiado em circunstância alguma. Em caso de doença comprovada não são senão uma enorme injustiça.

O que diz Marinho


J.M. Coutinho Ribeiro,

Estive a ler as afirmações mais polémicas de Marinho Pinto, segundo o JN. Vale a pena lê-las. Para pensarmos nelas e, sobretudo, para que um dia mais tarde possamos avaliar o seu efeito. O estilo é discutível. A oportunidade também pode ser. Mas a substância talvez não seja tanto.

 

Adenda: e também vale a pena ler aqui.

Ferrari morto, Bugatti posto


Patrícia Reis,

Partiu um Ferrari 599 GTB, num túnel perto de Manchester. Quase só por milagre não se partiu todo ele também: o impacto do embate do bólide contra as barreiras de protecção foi tão violento que toda a parte dianteira ficou destruída e uma roda desprendeu-se, aterrando a 200 metros de distância. Felizmente ileso, Cristiano Ronaldo encolheu os ombros e anunciou de imediato aos jornalistas: "Vou comprar um Bugatti." O avançado do Manchester United já tem um Rolls-Royce, um Bentley Continental, dois Porsches Cayenne e um Porsche 911: segundo os jornalistas da especialidade, o seu parque automóvel está avaliado em três milhões de euros. Pode bem dar-se ao luxo de espatifar um Ferrari. Ou dois ou três. Há uns anos, não muitos, era um menino pobre da Madeira: hoje é um perfeito símbolo da nossa era, consumista no mais alto grau. Ostenta, exibe, acelera, voa baixinho.

Usa um Ferrari e deita-o fora.

Venha daí esse debate!


João Carvalho,

Ninguém acreditava que Sócrates fosse aceder ao desafio da líder do PSD. Provavelmente, nem Manuela Ferreira Leite acreditou nisso por um só momento e, portanto, não há qualquer razão para ficar amuada. Pelo contrário: ninguém esperava, tão-pouco ela própria, convencer o primeiro-ministro com as medidas que ela já deve ter cogitado e respectivo argumentário. O debate era, pois, para o País, para os eleitores, os quais é sempre possível que ainda estejam à espera.

Assim sendo (e não se vislumbra espaço para ser de modo diferente), o debate continua em aberto. Manuela Ferreira Leite pode ir apresentando as suas medidas e fundamentos, que a gente está cá para o saudável debate. Sócrates jamais se deixaria convencer, mas a gente está aqui para se deixar conquistar. Ainda por cima, cheira-me que os eleitores, por muito que rejeitem o já cansado folclore político e todo o circo à sua volta, não arriscam o seu voto numa primeira-ministra muda e pronta a combater a crise com um pacote de medidas secreto.

A líder do PSD tem agora todo o espaço disponível, sem precisar de assentar datas com Sócrates. E parte com uma evidente vantagem: não usa nem vai usar gravatas monocromáticas…

A notícia!


João Carvalho,

O José Rodrigues dos Santos é um ponto. No Telejornal de hoje, aí pela metade do alinhamento, lembrou-se de uma grande ‘caxa’: Soares Franco iria dizer à Judite de Sousa, logo a seguir, se será recandidato ao Sporting. O País ficou suspenso, à espera.

Soares Franco já ia recandidatar-se muito antes do Telejornal. Não se falou em outra coisa o dia inteiro, em todos os noticiários. Mas parece que ele ia dizer na entrevista à RTP-1 que ia mesmo recandidatar-se. Dizê-lo com a boca toda, mesmo toda; declarar em definitivo, mesmo em definitivo; garantir com todas as forças, mas mesmo todas; jurar a pés juntos, mas mesmo juntos. E foi o que fez, mas é que fez mesmo…

Mundial 2018


José Gomes André,

Num ano de crise económica e com três actos eleitorais não faltarão críticos à ideia de Portugal organizar o Mundial de Futebol em 2018 (juntamente com a Espanha). Manuel Alegre, com a demagogia a que nos habituou, já veio afirmar que “o país tem outras prioridades”. Esta observação óbvia não nos deve toldar a análise: é certo que a experiência megalómana do Euro 2004 (com a desnecessária construção de dez estádios) justifica algumas reticências, mas a ideia não é totalmente descabida.

 Portugal tem um parque desportivo herdado precisamente do Euro 2004 que estaria disponível para esse Mundial, o qual poderia ser rentabilizado numa competição extraordinariamente mediática. Com os estádios construídos, Portugal praticamente não precisaria de investir em infra-estruturas, bastando-lhe fazer alguns ajustes nos acessos e nas condições hoteleiras para receber os visitantes. Um custo mínimo face ao enorme retorno económico que a organização de um Mundial de futebol obviamente geraria.

Câmara de tv


J.M. Coutinho Ribeiro,

Depois de João Carvalho (actor dos Malucos do Riso), de Cecília do Carmo e de Hernâni Carvalho (ambos jornalistas televisivos), aventa-se, agora, a hipótese de o mediático ex-inspector da PJ Gonçalo Amaral também ser ser candidato do PSD. À Câmara de Olhão. Se fosse nos consulados de Santana Lopes ou de Luís Filipe Menezes, não teríamos qualquer dúvida em dizer que estávamos perante uma deriva populista. Mas como estamos na era de Manuela Ferreira Leite, a única conclusão possível é que as lideranças credíveis atraem figuras de inestimável capacidade política que têm andado desperdiçadas.

 

Separados à nascença


André Couto,

A 30 de Dezembro, data da aprovação em sede de Conselho de Ministros da atribuição por ajuste directo de obras públicas até 5,15 milhões de euros, concordei que a medida, em ano de eleições, não favorecia a curta quota de credibilidade dos políticos. Achei igualmente pouco credível a reacção dos Partidos do espectro de governação nacional e local da oposição.

Hoje esta medida foi estendida às Autarquias Locais. Espero em pulgas pelas vozes dos mesmos puros e castos paladinos da oposição ao Governo, em especial do PSD e do PCP. É que o marido de Maria José Morgado não fala por ninguém.

Todos diferentes…

…todos iguais.

Mudam-se os tempos


Adolfo Mesquita Nunes,

Manuela Ferreira Leite tem de facto alguma razão de queixa pela forma como a comunicação social tem tratado a sua liderança no PSD, quer porque realça as opiniões dos críticos, quer porque desconsidera alguma da sua acção política.

 

Mas ao contrário do que a sua parca memória parece sugerir, a indiferença perante as suas propostas (talvez porque as mesmas não sejam muito diferentes daquelas que vêm do Largo do Rato) é coisa pouca perante a forma como, também pela mão de Ferreira Leite, foram tratadas as lideranças de Santana Lopes, Luis Filipe Menezes e até de Marques Mendes.

 

E muita sorte tem Manuela Ferreira Leite em ter Pedro Passos Coelho como crítico, uma vez que a actuação deste, ao luso estilo de chove mas não molha, tem respeitado a figura da Presidente e, bem assim, o seu campo de acção. Já o mesmo se não pode dizer da forma como os anteriores Presidentes do PSD viram a sua liderança ser desafiada, tantas vezes vendo a sua própria honorabilidade e capacidade intelectual postas em causa.

 

Este estado de desordem no PSD, em que ninguém respeita ninguém, e muito por culpa dos "credíveis" encartados, resulta da forma como o PSD lidou com o último Governo por si liderado (e não falo, evidentemente, da oposição que podia e devia ser feita ao Governo, mas à forma como a mesma foi feita). E não deixará de ser irónico quando, daqui a uns anos se fizer a história do PSD, se vir que esse foi o princípio do fim.