Sabia há muito dos velhos. Há tanto tempo que eu, como toda a gente, me habituei a essa circunstância como quem se habitua a uma fatalidade. Os adolescentes, problemáticos por natureza, aos meus olhos também se revelaram como um grupo de risco óbvio, o que de alguma forma branqueou a situação. Quando me constou, há uns anos, que as crianças também sucumbiam a esta espécie de pandemia, incomodei-me. A ideia de crianças a tomar ansiolíticos e anti-depressivos, os medicamentos miseráveis dos crescidos, fez-me questionar tudo.
Agora voltou a acontecer quando soube, por veterinários, que há cada vez mais bichos a tomar também estes medicamentos. Claro que estamos a falar de animais domésticos, os únicos que são obrigados a conviver com o "agente patogénico".
Cada vez mais umbiguistas e obcecados com a sociedade do bem-estar, não conseguimos resolver esta disfunção. Fazemos sofrer os nossos velhos, os nossos miúdos e os nossos bichos com a nossa ausência. Estes últimos vivem trancados em apartamentos, sozinhos de manhã à noite e ao serão sem a migalha de um carinho, porque ao fim de um dia de trabalho já não há tempo nem pachorrra para miaus e canitos.
Os putos sempre têm a televisão e as consolas. Os velhos metem-se longe da vista, nos lares. Os animais e as crianças pequenas, com aquela mania que têm de nos pôr no centro do mundo, é que são mais difíceis de enquadrar. O amor incondicional, uma capacidade que partilham, cria, inevitavelmente, descompensações, porque não se adapta ao nosso estilo de vida. Pena não haver uma vacina para isto.


Bom e bonito. Justo também. Parabéns, Teresa.
Obrigada! (oops, melhor tirar o ponto de exclamação). Obrigada. (bolas, assim parece-me seco) Raios, estou a abusar dos parêntesis…
Parece uma Árvore de Natal! Hehe…
Grandes verdades, Teresa. Daquelas que doem.
É uma realidade triste, Ana. Só faltava os animais ditos “de estimação” andarem também à força de “pastilhas”.
Animais de estimação mal estimados, afinal. Uma triste ironia. Mas as crianças, Senhor…
Muito bem lembrado. Constacto constantemente que a solidão e uma inteligência emocional deficitária são os maiores consumidores de antidepressivos e ansiolíticos que conheço.
Muito triste, Teresa. Tal como noutras coisas, as pessoas deviam pensar antes de ter animais.
Sem dúvida, Leonor.
Algumas destas pessoas que têm cães fechados numa varanda um dia inteiro ou gatos fechados numa sala uma vida inteira são depois capazes de andar em protestos politicamente correctos contra os animais de circo. Não me espantava nada.
“Faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, aplica-se a muito boa gente, Pedro.
Pois…