Na verdade, no Nordeste transmontano, terras de Bragança, até há cerca de cem anos, não se falava Português, no dia-a-dia das aldeias. E, ainda nos anos 1970, os dialectos transmontanos eram de muito difícil compreensão para os compatriotas de outras paragens. Eu própria só comecei a entender a minha avó transmontana, a partir dos sete anos. Antes disso, não lhe entendia palavra, embora ela insistisse em me contar histórias e lengalengas. Também a minha mãe tinha sérias dificuldades em compreender os parentes e restantes habitantes da aldeia-natal do homem com quem casou. Hoje, já se tornou raridade encontrar alguém que fale “à moda antiga”.
Todos nós sabemos que existe uma outra língua, em Portugal: o Mirandês. O que quase ninguém sabe, pois muitos estudiosos só actualmente têm chegado a essa conclusão, é que, em tempos, esse Mirandês não se confinava à região de Miranda do Douro, pois seria falado em quase todo o distrito de Bragança.
Um desses estudiosos é o Rui Rendeiro Sousa, natural de Macedo de Cavaleiros (o concelho onde nasceu o meu pai). No grupo Memórias e outras coisas… Bragança, do Facebook, ele tem publicado textos sobre essa “língua tcharra”, que me enchem de nostalgia. E de pena. De nunca ter gravado esse falar, enquanto era quotidiano, na freguesia do Lombo, onde ia visitar a minha avó Ludovina Amélia Rodrigues. E, com a devida autorização do autor, decidi trazer alguns desses textos para aqui.
Não sei se os leitores e comentadores do Delito irão apreciar. Mas não posso deixar de o fazer. Não só porque estes textos me dizem muito. Também por fazerem parte de uma realidade portuguesa praticamente desconhecida em Portugal, nomeadamente, para quem não tem raízes transmontanas.
Ou um comentário que me “spritou’e”… E, outra “bêze”, a “língua tcharra e á proa”
Surpreendido vou ficando por, ao optar por escrever em modo “parolo”, assim bem ao género de “ua galdrumada”, parecer despertar um orgulho que supunha adormecido. Confesso que fico de olhos arregalados, boquiaberto, os meus genes trasmontanos ficando “spritadus’e” com tais inexpectáveis reacções.
Por entre todos os valiosos e gratificantes comentários, um houve que me “arrascanhou’e” este profundo orgulho, vaidade até, que sinto nestas terras, que não são melhores nem piores do que outras, todavia sendo MUITO diferentes. Já tive a oportunidade de deixar uma resposta no referido comentário, não apenas o agradecendo, mas informando que já me tinha dado o mote para “butare mais uas palabras’e”.
Para os curiosos, tratou-se do seguinte: «De quando em vez aparece um “visconde” que se diz transmontano que diz que em Trás-os-Montes não se fala/nunca se falou assim». “Ah peis é, tamém já nus apanhei’e, ós biz’condes e às biz’condessas’e”… Um apreço especial tendo por apanhá-los. Apenas e tão só porque, em simultâneo, com eles consigo falar na sua “língua fidalga” e na minha/nossa “língua tcharra”. O que representa “ua bantaige”…
Por “bantaige” ter mencionado, por vezes é preciso ter “curaige” para escrever assim, fazendo estas literárias “biaiges” por uma terra onde se “debagum nas baiges”. Terra essa onde parece não ter chegado, entre muitas outras coisas, o sufixo [-agem]. Por “bias” disso, ouvia dizer que éramos uns “selbaiges” que corrompíamos e falávamos mal a Língua Portuguesa. Acrescia, a essa observação, que essa forma de falar era de pessoas analfabetas, e que era muito semelhante ao Galego. O que a paradoxal me soava, porque fui, orgulhosamente, “paridu e criadu’e” nestas terras, e não era analfabeto. Mas também gostava de falar a “língua tcharra”…
Um dia, contingências da vida, resolvi aprender o tal de Galego. E até descobri que havia duas versões, o Galego-Português, seguido pelos mais puristas, e o Galego-Castelhano, adoptado pelos aculturados. Confusão me tendo feito que, essencialmente o Galego-Português, tivesse muito mais semelhanças com o Português propriamente dito, do que com a tal de “língua tcharra”. Mais tarde, tive o raro privilégio de, nestas andanças linguísticas, conhecer e privar com o meu saudoso amigo Amadeu Ferreira, um dos grandes instigadores e defensores da Língua Mirandesa. E lá me convenceu a aprender «Mirandés». Espanto meu, a “língua tcharra” da minha Avó Maria era “quaije” que igual ao tal de «Mirandés»! Até na ausência e transformação do [-agem] era «igualzinha»…
Idioma esse que também tem mais [u] que a Língua Portuguesa, como são bons exemplos «cumprar, cumbersa, frunteira, buber». Ou no qual sucede um processo fonológico de apócope, «comendo-se» a letra final em, por exemplo, «home» ou «onte», tal qual como a Avó Maria dizia. Tal como dizia “trasdonte”, por «anteontem», como consta do «Mirandés». Idioma no qual «depois de amanhã» é «passado manhana», expressão que a Avó Maria dizia «passado manhã». Coincidências… Mais havendo, como o «disse», que em «Mirandés» é «dixe», e a Avó Maria «dixu» pronunciava. Ou «fez», «fizo» em «Mirandés», «fezu» na pronúncia da Avó Maria. Senhora minha que não utilizava os [v], letra que, viria a saber, nem sequer consta do Alfabeto Mirandês. São incontáveis os exemplos das afinidades…
Nesta insanidade por perceber que não falávamos mal Português, «cada maluco com a sua panca», passei a estudar os mais eminentes Linguistas, portugueses, espanhóis e de nacionalidades outras. Entre os quais, o inevitável e insuspeito Leite de Vasconcellos. Personalidade que, instigado pelo seu grande amigo, o «nosso» Mogadourense Trindade Coelho, por estas terras andou, há sensivelmente 140 anos, para entender uma tal de «língua estranha» que por aqui se falava. Esclarecedores sendo os valiosos testemunhos que nos deixou, seguidos que seriam por outros eminentes Linguistas. E imaginem lá que idiomas falavam, na esmagadora maioria das terras do distrito, essencialmente nas da chamada Terra Fria, os nossos bisavós/trisavós? “Peis é!”… Ou aquilo a que ele designou por «Mirandês», que seria incluído no ramo das línguas Ásturo-Leonesas, ou dialectos daí derivados, alguns que até ganhariam nome específico, como o Riodonorês, o Guadramilês ou o Sendinês.
Posteriormente, outros desenvolvimentos surgiriam, que concluiriam que o tal de «Mirandés» já tinha tido uma extensão muito maior do que aquela a que hoje está confinado. Conclusões que advieram, não apenas do aturado estudo de processos fonológicos, mas também da permanência, na toponímia, de vocábulos de filiação «Mirandesa», sendo o exemplo maior as «Urretas» ou «Orretas» que abundam no cadastro toponímico das nossas freguesias. Ou palavras como «cochino» ou «cachico», tipicamente «Mirandesas».
Conclusão: NUNCA falámos mal Português! Falávamos, sim, idiomas de um ramo distinto do Galego-Português, idiomas que até o antecederam, do ramo do Ásturo-Leonês. O que me conduziu a aprender «Asturianu», e com isso melhor ainda percebendo que… NUNCA FALÁMOS MAL PORTUGUÊS! Como tal, para os “biz’condes e pr’ás biz’condessas’e”, cujos bisavós/trisavós até falavam em “língua tcharra”, este “rapaze ou raparigu’e, c’mu le quijerim tchamare”, como muitos outros iguais a ele, “paridus e criadus’e” nestas terras “selbaiges”, tem “ua bantaige” em relação aos “fidalgus’e”: é poliglota! E tão rapidamente fala e escreve, escorreitamente, em Português, a “língua fidalga”, como o faz em versões “língua tcharra”, as derivadas do Ásturo-Leonês.
Alguém me perguntava, recentemente, qual a minha nacionalidade. Respondi-lhe, a sorrir, que tinha dupla nacionalidade: Galego-Português por adopção, Ásturo-Leonês por essência.


Boa, Rui. Bota-lhes aí o nosso linguajar. Ensina-os. Que eles pensam que somos parolos, mas são parvos. Nós temos ascendentes (linguísticos) e orgulhamo-nos disso; que é quase a mesma coisa que um tipo qualquer ter orgulho por porvir de uma família antiga.
Há mais … É uma fractura imparável.
Os ‘portucalenses’ (a partir do ano 800, e depois desde 1143) colonizaram pela força das armas os povos e culturas que existiam neste território há mais de 40 mil anos.
Essa origem ‘galaico-portucalense-borgonhesa’ não representa as Nações e Culturas que vivem em ‘Portugal’. Nem no passado, nem no presente, e muito menos no futuro. Desde o tartéssico, ao túrdulo, passando pelos lusitanos (que Camões refere no Canto I dos ‘Lusíadas’), até aos actuais movimentos independentistas que estão a ocorrer a sul do Mondego até ao Algarve e Ilhas.
As nações e culturas que foram subjugadas por essa colonização galega-borgonhesa-portucalense (sedeada a norte do rio Douro) começam a regressar, pelo efeito de desagregação política que a compressão dos anglo-saxónicos e franceses que mandam na dita ‘UE’ estão a provocar. As antigas nações e culturas (e o fenómeno não ocorre apenas em ‘Portugal’), perante essa perda de poder agregador dos actuais Estados Nação (actuais países) começam a emergir, potenciadas pelo cruzamento de pessoas de variadas origens étnicas que chegam por via da imigração.
A esse linguajar mirandês, para dar um exemplo de uma dessas culturas mais a sul que foi ainda mais subalternizada, contraponho outra, que está cada vez mais viva e forte:
— “Os covanos e cardetas do canteiro da Cabaça Sem Miolo jordam fredericos de cópios passos às suas varejeíras … Sou antónio forno por jordar à minha lareira na minha terruja os carranchanos do Casal Grande.”
Ou seja, traduzindo para galego-portucalense: “As pessoas do concelho de Alcanena desejam boas-vindas aos que nos visitam… Tenho orgulho em receber na minha terra os amigos de Lisboa” (in “Piação dos Charales de Ninhou”, 2004, Centro Roque Gameiro, Minde, Alcanena)
Só um reparo: o actual concelho de Bragança (grosso-modo) não pertencia propriamente ao condado Portucalense. Afonso Henriques conseguiu ter o “Braganção” Fernando Mendes a seu lado, por ser seu cunhado (casado com uma sua irmã). Mas a fidelidade dos “Bragançãos” era instável, já que facilmente se mudavam para a corte leonesa. Os dialectos do Nordeste, assim como o Mirandês, têm mais influência Ásture-leonesa do que Galaico-portuguesa. A fronteira que conhecemos hoje só surgiu mais tarde. D. Teresa considerava, por exemplo, que os senhorios de Astorga e Zamora lhe pertenciam. Deve ter sido essa a razão de D. Afonso Henriques ter sido armado cavaleiro em Zamora.
Os ‘portucalenses’ (a partir do ano 800, e depois desde 1143) colonizaram pela força das armas os povos e culturas que existiam neste território há mais de 40 mil anos.
Há cada disparate. O que é que isto quer dizer? Quais povos colonizados, ó palerma?
Já percebi que estás a insinuar que os muçulmanos são “naturais” da Península, que tinham “direitos”. Mas não eram e não tinham e não têm. Tinham invadido a Península e depois foram corridos daqui para fora. Azar. Só é pena que não tenham sido todos — ficaram cá uns simpatizantes.
A última descoberta da evidência de culturas e povos ‘humanos’ neste território dito ‘Portugal’, data de há 41 mil anos, em Minde, na Lapa do Picareiro. Portanto, o dito ‘Portugal’ é constituído por uma identidade forjada desde o Neolítico. Milhares de anos antes da vinda do Islão (ano 711), e dos Galego-Portucalenses (anos 800-1143).
Os povos e culturas de ‘Portugal’ trocavam com os Fenícios, e os Lusitanos combateram os ‘Romanos’ desde 194 a.C. Mais de mil anos antes dos galegos-portucalenses e dos muçulmanos para cá terem vindo.
Em suma, estudar não faz mal nenhum à ignorância.
Além disso, o minderico não é uma língua, não pertence a uma cultura específica. E nem sequer é um dialecto, como o português do Brasil: é uma fala codificada.
Uma fala codificada são todas as actuais línguas originadas no ‘Indo-Europeu’.
Trás os Montes é uma zona de enorme sabedoria.

Felizmente há quem sinta essa terra no coração e se disponha a escrever sobre ela.
Adoro este nosso português tão genuíno, tão nosso.
Obrigado por esta belíssima partilha.
Bem-haja!
Eu é que agradeço
Muitos desses sons era a voz corrente no Minho de há umas largas dezenas de anos.
Língua tcharra – qual o sentido de tcharra?
Vou averiguar.
Creio que quer dizer “rústico”.
Também me parece. Mas ainda me vou aconselhar com o Rui Rendeiro Sousa.
De facto, “charra” significa “rude” ou “grosseira”. Usa-se “língua charra” para a diferenciar de “língua fidalga”, o Português-padrão. Acontece que, até inícios do século XX, o povo do Nordeste transmontano falava a “língua charra”, sendo a “língua fidalga” usada pelos funcionários do Estado e clérigos. Mas também estes, muitas vezes, falavam a “charra”, no seu dia-a-dia, caso fossem naturais de lá.
Já agora, um apontamento de Rui Rendeiro Sousa, com quem contactei: «”charra” é o termo em “língua fidalga”. O “t” a anteceder é apenas a aplicação do processo fonológico da africada. O seu significado é “rude” ou “grosseira”, naturalmente uma designação “fidalga”. “Tcharra” era o termo original”».
Quem ler o livro “Pátria” de Fernando Aramburu saberá que na língua basca “txarra” significa “má”, “ruim” ou “má qualidade”, o que não pode ser uma coincidência.
Obrigado pelo postal, Cristina.
Não sabia, Paulo. Será que a origem é realmente a mesma?
De qualquer maneira, algo a verificar.
De nada, eu é que agradeço.
Tem toda a razão, Paulo. Essa palavra, assim como a palavra “esquerda”, por exemplo, teve origem na língua basca, passou para o Castelhano e, depois, para o Português
Esquerda!? Essa não sabia.
“Terra charra”, designação da zona rural salmantina .
JSP
Realmente “palavra, aunque te cuntasse istórias i lhengalhengas” ninguém iria perceber.
É a bantaige do Nordeste. Ser um trasdonte poliglota sem sair da aldeia.
O estatuto de língua vem do facto de o Mirandês ser uma variante do Leonês, e não por ser parecido ou não com o Português.
Galego e Português, por um lado, e Mirandês, Leonês e Asturiano, por outro, são em grande parte mutuamente inteligíveis. Pelo menos na forma escrita.
🇵🇹 O Eixo Galego-Português 🇪🇸
Galego e Português: É o grupo, Galaico-Português
(antigamente era só “Galaico”, depois é que apanhou o “Português”. São mutuamente inteligíveis (claro, um fala à “Zé da Esquina” e o outro fala à “Zé de Braga” que foi para Santiago de Compostela), mas os políticos decidiram que eram línguas distintas. E foi o Galego que deu origem ao Português, e não o contrário.
A Grande Diferença: O Português é a língua oficial de 8 países. O Galego é a língua oficial de uma Comunidade Autónoma espanhola e vive na sombra do Castelhano.
🇪🇸 O Bloco Asturo-Leonês: 🇵🇹
O Leonês, o Asturiano e o Mirandês são o continuum Asturo-Leonês. O Mirandês é o único desta família que atravessou a fronteira e disse “agora sou português, mas não sou Português”.
Mirandês, Leonês e Asturiano: São variantes umas das outras, ou dialetos da mesma língua mãe, ou sub-dialetos de uma língua que nunca teve grande glamour histórico (o Leonês). Têm imensas semelhanças e partilham a mesma história evolutiva (aquela do latim), mas NÃO pertencem ao mesmo grupo Galaico-Português.
Em Portugal o Mirandês tem estatuto de Língua Oficial (desde 1999) não veio de ser parecido com o Português (que não é, fonologicamente e morfologicamente é muito diferente), mas sim de ser o Leonês que viveu no nosso quintal, isolado e a preservar características que se perderam noutros sítios. Os gajos em Miranda têm um Leonês com sotaque português, basicamente. O Galego e o Português dividiram-se antes. O Mirandês nunca andou para os lados do Galego e do Português.
A Grande Diferença:
O Mirandês, a variante mais periférica do Leonês, tem reconhecimento oficial em Portugal.
O Leonês e o Asturiano em Espanha, andam em lutas de reconhecimento e protecção, e a levarem com o Castelhano.
Portanto, o que interessa é isto:
O Galego e o Português são parecidos porque eram a mesma coisa.
O Mirandês e o Português são diferentes porque o Mirandês é a prova de que a nossa fronteira é política e não linguística.
As semelhanças que há entre eles todos (Asturiano, Leonês, Mirandês vs. Galego, Português) são só porque, no fim de contas, todos eles vêm do latim e andavam ali a coçar a barriga na mesma Península.
É tudo uma questão política, não é uma questão de verbos.
A minha avó materna era transmontana, mas falava português sem qualquer sotaque e corrigia-me até a minha troca dos ves pelos bes à moda do Porto.
O que é “português sem qualquer sotaque”?
Tive uma professora de português no secundário que ensinava aos alunos que em Trás-os-Montes se pronunciava “tch” o som “ch”. Mais tarde tive um amigo no Alto Douro (na Pesqueira), ao qual ouvi dizer “catchorrinho”.
A minha avó transmontana sempre disse “tch” em vez de “ch”. “Tchouriço”, “tchigar” (chegar), “matchado”,”tchuva”, etc. Por acaso, este som ainda se usa muito, nas aldeias do concelho de Macedo de Cavaleiros, apesar de já praticamente ninguém falar a “língua tcharra”. Usa-se em certas palavras, com um sorriso, por exemplo: “come a tchitcha”, “não queres tchitcha”?