Para lá do Marão… (10)


Cristina Torrão,

Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias… e outras coisas – BRAGANÇA:

Irei principiar esta nova incursão por uma afirmação que poderá gerar polémica. Que me perdoem os meus amigos Mirandeses, antecipadamente me penitenciando, igualmente, perante os meus amigos Mirandelenses… Em simultâneo me desculpem os meus amigos Podentinos, neste caso particular porque até tenho, com muito orgulho, costelas de Podence.

 

Os Pauliteiros são tão de Miranda, como as alheiras são de Mirandela (ou o folar é de Valpaços, só para sair do âmbito geográfico bragançano). Ou, daqui por cinquenta ou cem anos, dado o patamar superior que atingiram os «meus» Caretos de Podence (e muito bem, que “munta proa” tenho nisso!), algum estudioso venha a tomar como exclusivas estas três acepções: os Pauliteiros são de Miranda, as Alheiras são de Mirandela, os Caretos são de Podence. O que não é bem verdade… Ou seja, os Pauliteiros são, efectivamente, de uma região, a que ocupada foi pelos Zelas, a antiga «Civitas Zoelarum», assim como os Caretos o são. Já quanto ao Folar ou às Alheiras, são de todos…

 

Não me irei deter no Marketing, nem nos acasos da História, nem nas campanhas que alguns municípios, «puxando a brasa à sua sardinha», tão bem souberam impor. Assim como imposto foi o nome de um idioma, parte fazendo de um «sistema» Ásturo-Leonês Ocidental, com a exclusiva designação de «Mirandés». Nada me move contra ele, antes pelo contrário, até fiz questão de o aprender, tendo uma especial afeição pelo «Mirandés». Mas também fiz questão de aprender o Asturianu, que por lá não há sectarismos, não havendo «Oviedês», ou «Gijonês» ou «Avilês», é uno, regulado pela «Academia de la Llingua Asturiana». Assim como na Galiza há uma língua una, o Galego, com variantes regionais, mas não havendo o «Corunhês» ou o «Ourensês», só para mencionar duas das suas províncias.

 

Quanto às variantes do Leonês, não estão reguladas… Ou seja, aprendi uma língua que já foi falada no meu concelho (e noutros), nos quais subsiste com variantes dialectais, que mais correctamente deveria ser designada através de um nome genérico, tal como acontece com os ditos Asturianu ou Galego. Até poderia ser «Trasmontanês Oriental». Porque, de facto, é tão «Mirandês», como poderia ser «Vinhaês», «Bragancês», «Vimiosês», «Mogadourês» ou «Macedês»… Quem dúvidas tiver, faça o favor… de se pronunciar em «queimarês pestanês»… Nota adicional, para que dúvidas não restem: “tengo muita proua ne l Mirandés”! “E tamém tânhu munta proa na faladura q’aprendi co a nh’ábó Maria”! E talvez o «Mirandês» tivesse outro protagonismo e outra visibilidade se olhado fosse como ele, efectiva e historicamente é: um idioma que foi falado numa região abrangente. Assim, parece não passar de uma curiosidade em vias de extinção (o que muito me custa!).

 

Mas regressemos aos Pauliteiros… Os quais, históricos registos, são tão de Miranda como de… Vinhais, Bragança, Vimioso, Mogadouro ou Macedo! Ou seja, da região que era abarcada pelos Zelas (os «Zoelae» da literatura clássica)! Por isso ainda subsistem, no meu concelho, os Pauliteiros de Salselas! Já tendo havido outros… Por isso, também, por Bragança, já houve os Pauliteiros de São Pedro dos Sarracenos! E já houve mais…

 

«Pauliteiros» que é uma designação contemporânea, que nos documentais registos eram «apenas» Dançadores. “Ó depeis”, à custa dos paus, ou dos palitos ou paulitos, ficou mais engraçado adoptarem esse nome. Que por território espanhol correspondente ao antigo território Zela, não há «Paloteros» ou coisa do género, há, simplesmente, «danzadores» e «danzadoras» da… «danza do paloteo». Cujas características são «iguaizinhas», com algumas variantes, às dos nossos «Pauliteiros». Que o magnífico Marketing fez, exclusivamente, tal como o «Mirandés», de… Miranda. É bonito, mas é falacioso, e retira-nos o conceito de região.

 

Como escreve um ilustríssimo autor, corroborando observações de outro insigne autor Mirandês, apesar de, em Portugal, os Pauliteiros estarem associados a Miranda do Douro e ao seu concelho, eles subsistem como elemento da cultura popular noutras regiões do distrito de Bragança. Porque se trata disso mesmo, tal como os Caretos, um «elemento da cultura popular», da cultura de um Povo, não de uma região específica! Bastará, para os que dúvidas tiverem, consultar a extensa documentação existente desde a Idade Média. Sei que dá “muntu trabalhinhu’e”, mas vale bem a pena! E até se poderá recuar a mais ancestrais tempos, nos quais viveram os nossos antepassados Zelas, mais os seus vizinhos «Vacceos», ambos indicados como tendo origem celta. De onde, com muita probabilidade, provirá a tal de «dança dos paus», que de uma «dança guerreira» parece tratar-se. E os ditos Zelas não foram exclusivos de Miranda…

 

Como estas incursões têm tendência para se alongar, tanta é a informação que subsiste sobre a nossa região, já cá virei noutra ocasião com mais «polémica»… Esperando não ser excomungado ou crucificado, especialmente pelos meus amigos que dizem, e muito bem, “proua an ser Mirandés”…

 

(Foto: Pauliteiros de Salselas)

 

Rui Rendeiro Sousa 11.jpg

4 comentários em “Para lá do Marão… (10)”

    1. As alheiras que conheci, em criança, feitas pela minha avó, minhas tias-avós e outras parentes (algumas nascidas ainda no século XIX) continham, além de porco, muito peito de frango. São assim as alheiras tradicionais da freguesia do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros, as melhores alheiras que conheço. Quer isto dizer que as alheiras, originalmente, eram feitas só com frango? A origem das alheiras não está esclarecida. Mas é indiferente. Invenção dos “marranos”, ou não, continuam deliciosas.

      A propósito de “marranos”: tive um antepassado transmontano, no século XVIII, que aparece nos livros paroquiais com a indicação de “marrano”. Terei algo a recear dos cheguistas? Seria irónico. A esmagadora maioria dos portugueses, se fizesse pesquisa familiar até tempos tão recuados, encontraria, pelo menos, um “marrano”, entre os seus antepassados. Vai uma aposta?

  1. Sempre achei que os pauliteiros fossem não exclusivamente de Miranda, mas restritos ao planalto mirandês, que se estende a Vimioso e Mogadouro. Quanto às alheiras, as de Mirandela estão longe de ser as melhores. As da Terra Fria levam a palma. E para a semana devo fazer uma incursão para rever os caretos. Os de Podence, mesmo.

    1. Um senhor de idade muito avançada (e isto passou-se há quase vinte anos), explicou-me a origem da denominação “alheiras de Mirandela”, no Pinhão, enquanto o meu marido fotografava os lindos azulejos da estação daquela localidade.

      Em tempos idos, iam ter ao Pinhão as “alheiras de Mirandela”, a fim de serem transferidas para os barcos Rabelo, que as transportavam até ao Porto. Ora, na verdade, Mirandela era o ponto de encontro das alheiras da região transmontana, vindas de várias localidades. Mas, no Pinhão, era anunciado: “lá vêm as alheiras de Mirandela”. A explicação pareceu-me credível, porque o senhor disse ter trabalhado, em criança, no carregamento dos barcos Rabelo com as mercadorias chegadas ao Pinhão. E assim, segundo ele, se terá criado a fama das “alheiras de Mirandela”.

      Desejo-lhe um bom Carnaval, entre Caretos

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