Continuando a saga da “língua tcharra”, transcrevo aqui um esplêndido diálogo, criado por Rui Rendeiro Sousa. Esta série também serve para mostrar aos portugueses sem raízes transmontanas que não há apenas uma “pronúncia do Norte”. O falar do Nordeste transmontano nada tem a ver com o do litoral, nomeadamente, do Porto e da província do Minho.
Uma dica: ler alto ajuda a perceber.
(Advertência: O diálogo que a seguir será apresentado, é ficcional, porém baseado em memórias guardadas. É um retrato, o mais fiel possível, da forma de falar da minha Avó Maria, oriunda de uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros. Forma de falar que, quando à aldeia ia, absorvia e procurava imitar. Trata-se, apenas, de uma transcrição respeitando a original pronúncia, com todos os fenómenos fonológicos à mesma associada, onde entram paragoges, africadas, betacismos, apócopes, e demais designações estranhas. Em simultâneo respeitando a quase inexistência de vogais átonas, o que conduz, p.e., à recorrente substituição de [o] por [u]… Não se trata de nenhuma forma «científica», sempre tendo em conta que há variações regionais, quer no léxico, quer na pronúncia. Apenas para precaver eventuais protestos…)
– Ó mou filhu’e, já tchigaste?
– Ó bó, bote cá um beiju’e! E um tchi-curaçãu dus sous, mim arrotchadinhu’e!
– Fizeste boa biaige? Já te fiz’u café nu pote, q’és ua malga dele? Já te bou pur um cibu de persuntu’e. Abonda di um pão da arca, que já te cort’um carólu’e. Assenta-te aí, mou filhu’e, trai u môtchu’e.
– Ó bó, deixe stare. Só bim pr’á bere.
– Ai u diatchu du raparigu’e! Daqui num sais sim m’rendares, bô! Q’inda te tchegu a roup’ó pêlu’e, pur’i, q’inda sou capaze! Bá, sabes q’stou a mangare, que da tu’ábó nunca alombaste. Stás um home, mas tens d’aparare essas repas’e. Bá, bota lá, q’és ua nabalha, ou trou’xeste a tua?
– Um home que bai pr’ó mare, prupara-s’im terra, num é assim que dize?
– Ó depeis fais um fabore à tu’ábó? Bais ó s’queiru’e, e trais ua gabela de guiçus’e, e de caminhu’e, trai um tóru p’ró depeis serbire de strafugueiru’e. Q’habemus de fazere um magostu’e, que já apanhei ua man’tchêa de caz’tanhas’e. Bá, trai um manhuçu de bides, mas das que já stão amanhadas co baraçu’e, oubiste!
A minha avó, naquele seu peculiar estilo de viúva sozinha, de muitos anos, que o meu avô já não conheci, gostava de emitir ordens. Não me incomodavam, afinal era a “nh’ábó Maria”, a única que conheci. E lá fui ao sequeiro, não sem antes passar a cumprimentar a “Marela e á Ruça”, companheiras de aventuras tantas. Um dia, que por vezes também era “atraganadu’e”, para que uma delas andasse, “tchiz’quei-le” num qualquer local que não apreciou, e levei com um “pinote”. Mas ficámos sempre amigos.
– Inda stibeste a talhar’us guiçus’e? Bem tempu te lubou’e. Bai à’dega, e trai u assadore, que stá lá imbarradu’e. E si’u q’és, trai binhu’e, mas inda num é du nóbu’e.
…
– Trai daí us lumes’s, ou assopra-le co fole. Num le botes as caz’tanhas sim le fazer um corte, olha que stourum, c’um catanu’e! Bá, rebir-ás, q’és um rudilhu’e, pra num te queimares, pur’i? Ó caralhitchas’e, aban’ó assadore, assim’e, p’ra tráse e p’ra diante. Bai ali pur’ua saca, pr’ás abafare! Ó depeis inda lebas uns bilhós’e.
…
É com alguma emoção de permeio, porém com imenso orgulho, que me recordo dos longos diálogos com a “nh’ábó”. À custa deles e de, um dia, dois colegas «alfacinhas» me terem perguntado que idioma falava a minha avó, questionando-me, por exemplo, o que era “butare as carabunhas pr’ó lume”, hoje me aturam aqueles que paciência têm para ler estas “tchabaz’quices”. É, também, uma forma de honrar e prestar uma sentida homenagem a todas as “Abós Maria” destas magníficas terras.
“C’ua lágrima nu cantu du ólhu’e”… “Bá, bou-me lá, c’os deseijus d’um bô f’riadu’e!”… Assim o diria a minha Avó Maria…

Nota: O Rui Rendeiro Sousa deseja “bom feriado” porque publicou este post no passado dia 31 de Outubro. Resolvi assim deixar por igualmente estar escrito em “língua tcharra”.

«para lá do Marão mandam os que de lá são … para cá …»
gostava de ter informação sobre o Mosteiro Polaco do séc. xix do tempo de Józef Antoni Poniatowski, marechal de Napoleão
Não sei se se refere ao Santuário de Balsamão.
conheço o Balsemão.
o outro ficava no Alto Douro
O Santuário de Nossa Senhora de Balsamão, bem perto da aldeia-natal do meu pai, foi fundado, no século XVIII, por um padre polaco e sempre lá teve polacos. Agora, nem tanto. É um sítio maravilhoso, no meio das montanhas. De lá, se avistam as freguesias do Lombo, onde o meu pai nasceu, e de Chacim, onde uma tia minha, nascida no Lombo, casou e foi professora primária durante mais de quarenta anos. Essa minha tia, muito religiosa, conhecia todos os padres e freiras de Balsamão.
Uma vez, o meu pai andava por lá à caça, com uns amigos de Gaia e arredores (lá pelos anos 80). Dirigiram-se a Balsamão, a ver se lhes davam jantar, ou algo assim. Mas as freiras não foram nada simpáticas, não gostavam de caçadores forasteiros, mandaram-nos dar uma volta. Nisto, o meu pai teve a ideia de dizer que era irmão da professora Nair, de Chacim. As freiras tornaram-se simpáticas de um momento para o outro. E escusado será dizer que lhes serviram uma bela refeição.
Em Balsamão, há uma pequena igreja barroca, lindíssima. E tem estalagem para hóspedes. Passe lá um fim-de-semana. Garanto que não se vai arrepender!
Nem sei bem o que dizer, fiquei atordoado com beleza
Até digo mais: em Trás os Montes e Alto Douro) há mais do que uma pronúncia. Há dias tentava comparar a de Vila Real com a de Foz Côa e há bastas diferenças.
Sim. Até ao início dos anos 80, quando ainda se falava muito a “língua tcharra”, no distrito de Bragança, desconfio que cada aldeia tinha o seu dialecto
Cristina Torrão, isso faz-se?
É imperdoável.
Neste seu Post … até o cheiro das castanhas cá chegou.
Mais aquela beleza sublime do ouriço, meio aberto, na humidade perdida de uma clareira perdida dos passos humanos.
As saudades da minha avó despertaram ao ler este texto. Nascida, criada e morrida no Douro, para os lados de Vale de Figueira, longe de Bragança.
Bem haja!
Catarina Silva