(mais um texto de Rui Rendeiro Sousa, partilhado no grupo Memórias…e outras coisas – BRAGANÇA)
A minha Avó Maria nasceu em 1913. Nunca frequentou a escola, por isso constando do imenso número de analfabetos que foram imagem de marca de Portugal. Como tal, e de facto, NUNCA aprendeu Português. A língua que ela falava tinha-a aprendido através da transmissão oral dos seus pais, os meus bisavós que não conheci. Suponho que esses meus bisavós também nunca tenham frequentado a escola. Especialmente no século XIX, no qual as taxas de analfabetismo, no Portugal rural trasmontano, rondavam os 80% no sexo masculino, subindo essa percentagem acima dos 90% para o sexo feminino.
Presumo, portanto, que esses meus bisavós se incluíssem no vasto grupo populacional que Leite de Vasconcellos identificou como falando «Mirandês», ou uma sua variante dialectal. Ou seja, a minha Avó Maria falava uma variante do Ásturo-Leonês que tinha aprendido, oralmente, com os seus pais. Por isso, os meus colegas «alfacinhas», que apenas se comunicavam na “língua fidalga”, a norma-padrão, o Português, me perguntaram que língua falava a minha Avó…
Subitamente, recuei aos meus tempos de «estudantezeco» em Lisboa. E recordei-me que tinha por lá um grande amigo, de Macedo, tal como eu. Embora estudantes na mesma universidade, éramos de cursos diferentes. Mas raro era o fim-de-semana no qual não nos encontrássemos, ou indo eu para as «tainadas» com os colegas dele, ou o inverso, vinha ele para a «copofonia» com os meus. Naquilo que julgávamos ser uma mera brincadeira, quando pretendíamos que ninguém nos entendesse, ou queríamos troçar com os restantes, malvadez de jovens, falávamos “à Macedu’e”, como lhe chamávamos.
Vulgar sendo, no meio de um jantar, sair, com pronúncia carregada, um “abonda d’i um carólu’e”, ou um “bota lá mais um catchu de pinga”, ou um “tchega aí u caçoulu da tchitcha”. Ou passávamos a utilizar os pronomes “ou, mou, tou”, ou os derivados de «ele» no plural, “eis, deis, aqueis, daqueis”, entre tantas outras coisas, onde também entravam “tchítcharus’e”, “érbançus’e” ou ”coubes-trontchas’e”. Recorrentemente fazíamos uso do “bô”, do “bem m’ou fintu’e”, do “c’mu quera”, sem “sequera” ponderarmos que, de facto, estávamos a comunicar-nos num idioma distinto do Português. Por isso não nos entendiam…
Mais nos divertíamos a fazer contas em “me’ réis”. Bem ao género de, dividida a conta, dar “binte deis me’ réis” a cada um. Atónitos ficavam os comensais perante a moeda que utilizávamos. Hoje, enquanto pensava sobre esses episódios, fui assolado pela expressão que tantas vezes usámos, o “bota a bubere uas cerbeijas”. Inevitavelmente, lembrei-me do «Mirandés»… E pensei para com os meus botões: “Rais’parta! Pois, em Mirandés, «beber umas cervejas», escreve-se «buber uas cerbeijas»!”… Estão a entender?… Nessas paródias, nós não falávamos deturpando o Português! Nós falávamos, mesmo (!), noutro idioma!!!
E, creiam, só hoje me apercebi, com clarividência, desse facto. Em simultâneo me apercebendo por que entendia, ao mesmo tempo, a minha Avó Maria, que NÃO falava Português, e os meus colegas «alfacinhas», que Português falavam. Reparado tendo que a “nh’ábó” não intervinha muito quando a conversa decorria em “língua fidalga”, agindo de forma semelhante àquela que acontecia quando alguns dos membros da família, também filhos e netos da emigração, desatavam a «parler en français», demonstrando um alheamento que só os “belhotes’e” sabem fazer. “Ele hai cousas du catantchu’e”!…
E, de facto, as minhas conversas com a Avó Maria só eram consequentes e profícuas, quando falávamos em “língua tcharra”, a variante do Ásturo-Leonês que era a sua língua materna! Variante essa que, sem consciência ter, também eu tinha aprendido, quer nos contactos com ela, quer naqueles que mantinha quando fazia as minhas incursões à aldeia. E deixava de dizer «a minha avó», passando para “a nh’ábó”, ou «o meu tio», transformando-o em “u mou tiu’e”. Ou a «chuva» passava a “tchuba”, a «água» a “auga”, o «descer» para “decere”, as «escadas» para “scaleiras’e”, o «descalço» para “zcalçu’e”, ou o «nu» para “couratchu’e”…


É como, actualmente, aqui no bairro de Alvalade onde moro.
Já não falamos o ‘português’ entre a maioria de nós.
Estranho que Trás os Montes estivesse assim desse modo que relata. Meu Pai nasceu em 1906 e minha Mãe em 1911 e ambos tinham a 4ª classe e faziam bem contas, sabiam bem história e geografia de Portugal. Meus tios igualmente e muitas outras pessoas da aldeia.
Meu Pai dava tanta importância à Escola que andava com o meu irmão ás costas, (porque partiu uma perna) durante 5 Km para que não faltasse ás aulas. Hoje muitos levam os filhos de carro até ao portão da entrada da Escola.
Falo do Ribatejo.
maria, os seus pais nasceram na altura em que os meus avós nasceram. Dos meus quatro avós, só um avô estudou, fez o 5º ano do liceu. O avô transmontano aprendeu a ler e a escrever só na tropa. As minhas duas avós eram analfabetas (tanto a transmontana, como a nascida numa freguesia do distrito de Santarém).
maria, se os seus pais nasceram em 1906 e 1911, permita-me que respeitosamente lhe pergunte: que idade tem a maria?
A minha Avó Maria, afinal, NUNCA falou Português, idioma do ramo do Galego-Português, porque NUNCA o aprendeu. Só aprendeu a comunicar-se numa versão de Ásturo-Leonês, que é, afinal, tudo menos o «português dos nossos avós». (do Facebook)
Nada mais errado de se afirmar. Não se pode ver estas coisas pelo lado aldeão. Como os nortenhos gostam tanto de fazer para se sentirem diferentes (é um complexo meio ao contrário, que dá a volta por cima de si próprio e regressa ao mesmo sítio).
O Asturiano-Leonês é quase tudo o que o Galego-Português é — as variações no sotaque e na grafia não contam só por si para fazer uma língua. As variações semânticas e gramaticais sim. E essas são muito poucas. A mania de querer ser diferente à força, dá nestas tolices.
“O Asturiano-Leonês é quase tudo o que o Galego-Português é — as variações no sotaque e na grafia não contam só por si para fazer uma língua” – então porque é que o Mirandês, com a sua origem no Ásturo-Leonês, é reconhecido como língua? Mirandês não é Português! E os dialectos transmontanos, que se falavam ainda nos anos 1980, são variações do Mirandês, que, tem-se vindo a descobrir, se falava, não só na região de Miranda do Douro, mas também em quase todo o distrito de Bragança.
É Leonês (como eu disse primeiro aqui há uns posts atrás quando vocês ainda andavam a pensar que o Mirandês era Português). Mas agora que descobriram que é Leonês (por motivos sobretudo lexicais) parece que não querem ver que é praticamente igual ao Português.
Como se sabe, o Reino de Leão ocupou durante séculos quase todo o noroeste peninsular, portanto qual é o espanto de serem todas línguas praticamente iguais na gramática nas construções frásicas? Se entrarem numa livraria em Oviedo e forem à secção dos livros em asturiano vão ver que percebem tudo o que lá está escrito. Não é Gaélico!
“quando vocês ainda andavam a pensar que o Mirandês era Português” – não sei a quem se está a referir. A mim não é, de certeza.
Claro que as línguas ibéricas são todas parecidas, com excepção do Basco. Se pegar num livro em castelhano, também percebo praticamente tudo o que lá está escrito.
Em 5 de outubro de 1910 a Monarquia deu lugar à República.
De 1910 a 1928 governou a esquerda maçónica e republicana.
Em 1928, com Salazar, iniciou-se o período dito “Estado Novo”.
Em 25 de abril de 1974 iniciou-se o período dito ‘Abrilismo’.
A pergunta é simples: quantas escolas primárias e preparatórias havia em Portugal em 1910? E em 1928? E em 1974?
Quem tiver a coragem de fazer essa comparação, em percentagem, e em proporção aos recursos económicos que Portugal possuía em cada uma dessas épocas (sem recurso a Dívida feita com o dinheiro estrangeiro dos ‘fundos europeus’) faça-a.
Em bom rigor, o Estado Novo começou em 1933.
O período entre1928 e1933 é chamado de Ditadura Militar.