Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias e outras coisas… BRAGANÇA:
As efectivas razões para sermos «a terra das duas línguas», ou para dizerem que «falamos mal Português» (Parte I)
Vou partilhando por aqui, com todo o prazer, umas “tchabaz’quices’e” com os meus conterrâneos (…) as quais, naturalmente, uns apreciam mais do que outros. Recebi, ontem, dois contactos. No primeiro, não fiquei surpreendido pelo entusiasmo, do outro lado transbordando uma alegria contagiante pelo tão diferentes que somos. Já quanto ao segundo… A «coisa» não correu tão bem, acusado tendo sido, inclusive, de «separatista», como se fosse um «terrorista» qualquer. Obviamente, as observações que me foram feitas, basearam-se na «cartilha» da historiografia «vendida» pelo Estado Novo, na qual entravam conceitos como «pátria» ou «heróis», período durante o qual só poderia ler-se ou escrever-se aquilo a que a «doutrina oficial» permissão dava. Entretanto, “dize” que aconteceu “ua cousa a que tchamarum R’buluçãu dus Crabus’e”, parecendo ter aí terminado a formatação do pensamento, das leituras e da escrita…
Essa «doutrina oficial» foi-nos vendendo, a propósito dos tais conceitos de «pátria» e «heróis», um chorrilho de inverdades, no qual se incluem «Lusitanos», «Mouros», «Reconquista», «Condado Portucalense»*, entre muitos outros, os quais representavam, subrepticiamente, e particularmente para a região de Bragança, um «comei e calai-vos». Nesse «comei e calai-vos», à semelhança do que aconteceu com o Franquismo em Espanha, tudo o que pudesse representar uma ameaça à «unidade nacional», nomeadamente no que respeitava à exclusiva Língua Oficial, toda a gente sabe como era tratado… E assim recrudesceu o conceito, nascido com os neo-clássicos do século XVI, de que «falávamos mal Português». “E bota lá á’mandar’u Mirandês’e e ó dialectu pr’ó poulu’e”…
Dessa forma, à semelhança do que quase ia acontecendo em Espanha com os idiomas regionais ou minoritários, os ancestrais dialectos que por aqui se falavam, quase iam morrendo. Todavia, nestes últimos 50 anos têm surgido novas abordagens à compreensão das realidades histórica, etnográfica, linguística, etnológica, destas magníficas terras. As quais, ainda assim, permanecem muito pouco estudadas. Todavia, o que já se avançou, permite construir uma visão completamente distinta da emanada pela «cartilha» em cujos resquícios ainda fiz a Escola Primária… E ai de mim que exclamasse “bô”, ou dissesse que precisava do “tchuço”, porque estava a “tchubere”. Logo vinha a reprimenda da minha excelsa e saudosa Professora, que «tínhamos de aprender a falar Português de forma escorreita».
Hoje, tem-se outra noção, já conseguindo justificar-se porque “esta ye a tierra de las dues lhénguas”, em Mirandés escrito; ou “esta ye la tierra de les dos llingües”, noutro idioma Ásturo-Leonês, o Asturianu, nosso familiar directo. Ou ainda, transcrevendo a genuína forma como a Avó Maria o pronunciaria: “ez’ta ié a terra daz’ duas línguas’e”. Não conseguindo retratar, fielmente, o sistema de sibilantes que ela utilizava, no que respeita à perfeita distinção fonológica entre [s], [z], [ç] ou, inclusive, [x]. Ou seja, tomando como exemplo a forma verbal «trouxeste», que em Português se pronuncia «trousseste», a Avó Maria pronunciava como “trou xeste”, mantendo o som [x]. Ou a clara distinção entre «massa» e «maça», que, em Português, são homófonas, ou seja, se pronunciam da mesma forma. Porém, a Avó Maria, distinguia-as perfeitamente. E se «maça» era pronunciado como em Português, a «massa» saía com um som aproximado a ”maxa”… E a pronúncia de «coser» era completamente distinta da de «cozer»…
Já cá virei, numa próxima oportunidade, e “pr’ós q’intresse tiberim”, para tentar expor as razões históricas que bem fundamentam o facto de sermos essa tal de «terra das duas línguas»… Sem «separatista» ser, que muito gosto de ser Português, muito respeitando a também minha Língua Portuguesa.
Porém, poderia ter nascido noutro local qualquer, mas, “azare du caralhitchas’e, habia de ter nacidu’e n’ua terra adonde se falaba male. E boto-le miúda proa nissu’e!”…

* As Terras de Bragança eram uma zona de fronteira indefinida, não se pode dizer que pertencessem ao Condado Portucalense. No Nordeste transmontano, não há o mínimo vestígio de permanência de “mouros” (embora haja lendas de “mouros” e “mouras”). Por isso, nunca lá houve Reconquista. Também não foi terra de Lusitanos.
antes da fundação da nacionalidade já na Galiza havia comércio de cereais com os Mouros, donde a expressão ‘do tempo dos Mouros’. Vilar de Mouros fica no município de Caminha.
Na faixa litoral, sim. Para lá do Marão, não há o mínimo vestígio.
Os “mouros” eram, acima de tudo, citadinos. E, pelos vistos, não gostavam muito de montanhas. Também não penetraram nas Astúrias, nem no País Basco.
Os “mouros” eram, acima de tudo, citadinos.
Hmmm. Mas trouxeram grandes inovações na agricultura, tanto na introdução de certas culturas (como a alface) como de tecnologias (notoriamente, de irrigação).
É verdade. Mas foi o Professor Mattoso que o afirmou: eles desprezavam bastante o mundo rural (apesar das inovações).
Os mouros na terra deles têm muitas montanhas, pelo que, não gostarem das montanhas da Península Ibérica será um bocado estranho.
Eu diria antes que os mouros tinham superioridade tecnológica (especialmente na agricultura, que era a base da economia nesses tempos) em terras com clima similar ao deles. No Norte da Península, que tem um clima muito diferente, essa superioridade tecnológica não existia, e por isso não se impuseram lá.
Sim, talvez o clima tivesse muito a ver com isso. Eles povoaram o interior alentejano.
Superioridade tecnológica: punham uma burra a rodar à volta de um poço.
Sim.
E em pleno “Web Summit”!
Ainda por cima, os cristãos imitaram.
deixem lá os mouros, caralhito.
🇵🇹 Troca de ideias na fronteira 🇲🇫
O Tuga de Bem (português “padrão”, irritadiço com a mania das “provincianices”) e O Mirandês (calmo, mas com uma paciência muito curta para a parvoíce).
O Tuga de Bem: (A bufar) Ó vizinho, é só para saber: quando é que vocês de Bragança param com esta conversa das “duas línguas”? Já não bastava o sotaque das telenovelas brasileiras, agora querem-nos enfiar um dialeto que só a vossa avó falava?
O Mirandês: (Com a calma de quem acabou de abater um animal para o fumeiro) Bó, Tuga de Bem. Ieç’tou a cumprender. Mas essa tua irritação, para além de ignorante, é provinciana. É a tal cartilha a dar-te cabo dos neurónios. Achas que a unidade nacional se mede por sotaques e por obrigar as pessoas a dizer “chuva” quando toda a gente sabe que “tchuba” sabe melhor.
O Tuga de Bem: Lá estás tu com a mesma cassete: a ditadura, a cartilha. Queres ser separatista, é? Queres uma bandeira gira com um burro e uma couve, e o dinheiro do Turismo de Portugal para ires dizer mal do Estado Novo em Mirandês nas feiras medievais? É isso?
O Mirandês: Léngua nuossa é tão oficial como a tua, pá. Não fomos nós que andámos a escrever romances da treta em Lisboa a falar de heróis que nunca saíram do Terreiro do Paço. E se a minha avó Maria te mandasse para “o raio que te parta” em Mirandês, tu nem notavas. Achavas que era um bom dia. E isso, Tuga de Bem, é que é o teu problema.
O Tuga de Bem: O meu problema é ter de aturar gente que tem a mania da exclusividade linguística quando o país mal consegue falar Português de jeito! Olha, vai mas é cultivar batatas tristes e deixa-te de separatismos de pacotilha! Já não há pachorra para o drama das “duas línguas”!
O Mirandês: (A sorrir, com a maldade de quem sabe que ganhou) Fíu, tenes todu l dreitu an falare só a tua língua. É a única que percebes, e com sorte, ainda te safas a falar mal Espanhol nas férias em Benidorm. Eu, cá, prefiro ter duas. Ye siempre mais rico. I mais útele. Agora abalha.
“No Nordeste transmontano, não há o mínimo vestígio de permanência de “mouros” (embora haja lendas de “mouros” e “mouras”). Por isso, nunca lá houve Reconquista”
Arrisco dizer que não existiu Reconquista em lugar nenhum da Península Ibérica.
Os árabes viviam naquilo a que hoje chamamos Portugal há cerca de quatro séculos foram expulsos à espadeirada por uns barbudos de origem francesa.
Quem seriam os invasores nessa altura os que estavam aqui estabelecidos há quatro séculos ou aqueles que os expulsaram* à força?
* a verdade é que não houve limpeza étnica nenhuma, ainda hoje mais de metade dos portugueses terá sangue árabe a correr-lhe nas veias, o sr. André Ventura, por exemplo, tem um ar bastante moçárabe.
Ahahaha
, pois tem! E o amigo dele lá do Parlamento, não me lembro agora do nome, um assim bastante redondo e muito moreno, é muito parecido com um amigo marroquino que temos aqui na Alemanha 
Pois, isso da Reconquista é um pouco polémico e eu não quis enfurecer certos comentadores que por aqui aparecem, por isso, tive algum cuidado.
Mas isso dos mouros na região de Bragança é um pouco enigmático. Há bastantes lendas, principalmente, das chamadas “mouras encantadas”. Mas o certo é que, até hoje, não se encontraram vestígios arqueológicos da presença de muçulmanos.
A burrice e a ignorância são as coisas mais comuns. “mouras” são “fadas” (não é “fodas”, escusam de fazer essa piada, benfiquistas). E as fadas, como entidade do folclore europeu, estão bem estudadas nas suas actividades… literárias.
É claro que falar disto com socialistas, comunas, tugas e toda a tropa parola e ignorante que saiu do 25 de Abril é o mesmo que falar com uma parede. Eles não vão lá. Não entendem. Mais vale mandá-los todos apanhar na tarraqueta. É a única linguagem que eles percebem.
“um ar bastante moçárabe.”
Caso não saiba, os moçárabes eram os cristãos que os sarracenos deixavam viver nas zonas que conquistaram. Não eram mouros nem tinham sangue sarraceno.
A prevalência de sangue “árabe” (seja lá o que isso fôr) em Portugal é insignificante. É cerca de menos de 3%.
As pessoas pensam que só por haver casas com açoteias no Algarve, que é tudo “árabe”. Nunca pensam que os árabes também foram influenciados pelas culturas do norte do outro lado do Mediterrâneo. É sempre o pastorzinho de ovelhas que influenciou as civilizações mais desenvolvidas. Pirueta notável, só mesmo um discurso marxista se lembraria desta. Em Itália e mesmo em zonas do Mar Adriático há muitas açoteias, mas ninguém se lembra de chamar àquilo “cultura árabe” — até porque já havia açoteias no mediterrâneo muitos antes de os “árabes” existirem.
A verdadeira questão aqui é: quando é que acaba este discurso esquerdista que está sempre a querer relevar culturas que não têm relevo nenhum — e que mal sobrevivem sozinhas sem se esfolarem todos uns aos outros?