Para o Rei da Machamba


Cristina Ferreira de Almeida,

 

O negro velho fez milagres naquele triângulo que nasce debaixo da curva de um IC. De canavial seco, o bocado de terreno atrás do sinal de perigo passou a um pedaço de paraíso. O velho fez nascer alfaces milimetricamente ordenadas, de um verde que cega os olhos; agriões de folhas simétricas; batatas em quadrados perfeitos.

Todos os dias, enquanto faço a curva rápida do IC,  passo naquela plantação durante cinco segundos e vejo o velho a trabalhar: cinco segundos: o velho finca uma cana no chão; outro dia, cinco segundos: o velho tira uma folha que seca; mais um dia, cinco segundos: o velho estica uma mangueira. Decidi chamar-lhe o Rei da Machamba, dada a óbvia superioridade da sua horta ao pé das outras do IC.

Um dia estava um trânsito insólito e tive direito a dez segundos do Rei da Machamba. Pude vê-lo, pela primeira vez, a endireitar as costas e a olhar o horizonte como se, em lugar dos blocos de cimento das habitações sociais, visse uma plantação sem fim.

Há poucos dias, cinco segundos: o velho não estava. Foi ao médico, pensei. No outro dia, cinco segundos, nem sinal. Está de cama, inquietei-me. Ao fim de pouco tempo a Machamba parecia despenteada, sinal evidente de desgraça. Hoje de manhã, confirmei o pior. Cinco segundos: uma mulher jovem – filha? – vestida de preto, despe do espantalho as roupas que o negro velho com ele partilhava. Princesa da Machamba, consola-te porque, no pedaço de terra que abraça, o Rei vai fazer nascer alfaces viçosas como nunca se viram em Massamá.

9 comentários em “Para o Rei da Machamba”

    1. Tenho más notícias, e digo-o com desgosto: Se para voltarmos a respirar Sócrates tivesse que dar o fora da vida pública, bem morríamos asfixiados. Entretanto, o seu texto ajuda a melhorar a qualidade do ar.

  1. Excelente texto, sem dúvida! Fez-me recordar uma peça do Nós por Cá , sobre um velhote de 72 anos que há 20 tem uma horta plantadoano meio da estrada, tornando o trânsito precário na zona. À repórter da SIC manifestava a sua tristeza, pelo facto de ao fim de 20 anos, a Junta de Freguesia ter decidido arrasar a sua horta.

  2. belo texto (a desnecessitar por completo do teu comentário) – o que interessa o resto diante disto?. Deixei modesta oferta lá nas minhas machambas

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