O negro velho fez milagres naquele triângulo que nasce debaixo da curva de um IC. De canavial seco, o bocado de terreno atrás do sinal de perigo passou a um pedaço de paraíso. O velho fez nascer alfaces milimetricamente ordenadas, de um verde que cega os olhos; agriões de folhas simétricas; batatas em quadrados perfeitos.
Todos os dias, enquanto faço a curva rápida do IC, passo naquela plantação durante cinco segundos e vejo o velho a trabalhar: cinco segundos: o velho finca uma cana no chão; outro dia, cinco segundos: o velho tira uma folha que seca; mais um dia, cinco segundos: o velho estica uma mangueira. Decidi chamar-lhe o Rei da Machamba, dada a óbvia superioridade da sua horta ao pé das outras do IC.
Um dia estava um trânsito insólito e tive direito a dez segundos do Rei da Machamba. Pude vê-lo, pela primeira vez, a endireitar as costas e a olhar o horizonte como se, em lugar dos blocos de cimento das habitações sociais, visse uma plantação sem fim.
Há poucos dias, cinco segundos: o velho não estava. Foi ao médico, pensei. No outro dia, cinco segundos, nem sinal. Está de cama, inquietei-me. Ao fim de pouco tempo a Machamba parecia despenteada, sinal evidente de desgraça. Hoje de manhã, confirmei o pior. Cinco segundos: uma mulher jovem – filha? – vestida de preto, despe do espantalho as roupas que o negro velho com ele partilhava. Princesa da Machamba, consola-te porque, no pedaço de terra que abraça, o Rei vai fazer nascer alfaces viçosas como nunca se viram em Massamá.

Percebo muito bem, não calha nada bem esta conversa agora com o Sócrates e tal mas que querem, só hoje percebi que o homem morreu e não podemos ficar em apneia até o Sócrates ir embora, ok?
Fizeste muito bem. É uma excelente crónica, um texto comovente – do melhor que temos publicado aqui.
Tenho más notícias, e digo-o com desgosto: Se para voltarmos a respirar Sócrates tivesse que dar o fora da vida pública, bem morríamos asfixiados. Entretanto, o seu texto ajuda a melhorar a qualidade do ar.
Excelente texto, sem dúvida! Fez-me recordar uma peça do Nós por Cá , sobre um velhote de 72 anos que há 20 tem uma horta plantadoano meio da estrada, tornando o trânsito precário na zona. À repórter da SIC manifestava a sua tristeza, pelo facto de ao fim de 20 anos, a Junta de Freguesia ter decidido arrasar a sua horta.
belo texto (a desnecessitar por completo do teu comentário) – o que interessa o resto diante disto?. Deixei modesta oferta lá nas minhas machambas
Tentei pôr aquei a foto que ofereces mas, por alguma razão, não consigo. Talvez um dos rapazes (he he) consiga. Obrigada.
pois … a mecânica é para os rapazes …
(isto aqui é sapo, não sei como é, não posso ajudar)
Grande post, Cristina.
também gostei, muito!