Há dias, quase pelo canto do olho, reparei num sem-abrigo sentado no chão.
Estava rodeado por duas senhoras que falavam com ele. O assunto de conversa era o seu fiel animal de companhia. Enquanto uma delas penteava o cão e a outra encetava uma embalagem de petfood, o sem-abrigo respondia às duas, encantado. Pareceu-me que a sua satisfação maior era por ter alguém com quem conversar.
Eu, que sou avisado e observador, ignorei-os e segui à minha vida.

A nova mania: os “amigos dos animais” andarem a “salvar” os cães companhia dos sem-abrigo, retirando-os à força aos donos em “acções de resgate”.
1 – Em 1989 (no trabalho-de-campo etnográfico em contexto urbano, para um trabalho numa licenciatura na NOVA, em “antropologia das sociedades complexas”) passei um ano na condição dita “sem abrigo” nas ruas de Lisboa.
2 – O corpo (esse “objeto” actualmente tão ciclável, e tão glorificado pela «ideologia da actividade física»), classificado pela actual Ciência como sendo “Homo sapiens sapiens”, … De facto, é um mero robot proteico e molecular perpetrado pela cognição. Um «IT» comandado por um «BIT».
3 – Qualquer Futuro — na evolução daquilo que designamos por “humano” — não passa por segregações, separações, guerras ou fronteiras baseadas nas diferenças anatómicas desse “corpo” (seja a cor, o género, o local de nascença, a língua, o modo de trajar, a condição social, a opção religiosa, ou a idiossincrasia étnica).
O post fez-me lembrar uma ex-colega de trabalho que pertencia a “Associação Conversa Amiga” https://conversa.pt/
Na altura já partilhava a ideia que os sem abrigo estavam “bem servidos” de alimentos, roupas ou de cobertores, mas faltava este face humanizante da comunicação, de dispensar algum tempo para conversar com eles.
Pelo site vejo que o projeto evoluiu e bem, e que a par de outras associações, tem alcançado bons resultados.
Se afinarmos o sentido operacional da carência de relacionamentos dos sem-abrigos, faz todo o sentido que se faça munir de animais de estimação.
Consciente do meu “ignorei-os e segui à minha vida”, sou o último a poder fazer juízos de valor.
‘Eu, que sou avisado e observador, ignorei-os e segui à minha vida.’
Convém e nunca fiando, não vá ser contagiado para apoiante do pan e para funcionário da santa casa da misericórdia.