N’Os Lusíadas, Camões utilizou 9160 palavras diferentes. Há pouco mais de um século, um compatriota culto poderia conhecer cerca de dez mil palavras. O vocabulário-padrão dos escritores actuais está reduzido a metade disso enquanto um português médio não domina mais de um milhar de vocábulos.
A contínua compressão lexical empobrece não apenas a capacidade de expressão, mas o próprio pensamento. No limite, torna-nos menos livres.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Dessas 9160 palavras seria interessante descobrir qual ou quais apenas aparecem uma vez no texto. A esse fenómeno chama-se Hapax Legomenon.
Há dois mundos. Num há gente que tenta saber umas coisas, depois há um sub-mundo, nos subúrbios do ser, onde há gente que pensa que sabe tudo.
Os piores são aqueles que não sabem nada mas se pavoneiam como se soubessem tudo.
O perigo maior será com a legislação e o legislador desconhecer a diferença entre branco e claro e entre preto e escuro. E mesmo conhecendo os vocábulos desconheça o significado.
A não ser que tudo se resuma a um crioulo como p.ex. manga dele, que quer dizer alto, grande, comprido, pesado, largo, longe, fundo, muito, caro.
O legislador e os seus funcionários lavouras (os que cometem o erro e depois os que o repetem) legislam sobre a língua para os PALOP terem facilidades quando imigram para cá — não querem saber da Língua para nada.
O legislador é um escritório privado de advogados, externo à Assembleia Legislativa.
Há escritórios públicos de advogados?
Você percebeu, mas imagine que estão a ler aqueles que pensam que as leis são feitas por escritórios públicos de advogados? Ou seja, haver um organismo público de advogados que fazem as leis.
Vale uma carica, poder haver gentinha com este “conhecimento” ?
Há escritórios públicos de advogados?
Há a Assembleia da República… vai dar aí.
Nada que uns emoji não resolvam
E a designação “anónimo” onde devia vir nome e apelido. Isso é que “resolve” seja o que for.
Há pouco mais de um século, um compatriota culto poderia conhecer cerca de dez mil palavras.
Em compensação, não saberia nada de um mundo de coisas que uma pessoa atualmente sabe.
Não saberia, por exemplo, que Balio e Lavoura são a mesma pessoa.
“um homem assim tem tudo o que quer, o que ele não tinha era um fecho eclair”
Caro balio/Lavoura,
Quando olhamos para o passado com os olhos de hoje é sempre “assi”, como seria a Maria da Fonte de bikini?
Acredito que na conversa do dia a dia ( que inclui SMSs e conversas via apps) seja mais fácil seguir a lei do menor esforço e passar o máximo de informação no mínimo de tempo. Aqui a palavra é tempo. Na escrita é mais flagrante e muito triste observar essa limitação de que fala, Pedro.
É preocupante, Dulce. Como qualquer professor de Português hoje testemunha. A captação de significados básicos começa a diluir-se em nome da “comunicação instantânea” que nada comunica porque é mais próxima do grunhido do que da linguagem.
Daí também a proliferação de políticos que não falam mas urram e grunhem.
Estas coisas andam sempre ligadas: se nos tornamos básicos, elegemos o primeiro tipo tão básico como nós para nos representar e governar.
Não por acaso, são sujeitos que não lêem um livro e se mostram incapazes de exprimir qualquer pensamento elaborado, mas mostram-se activíssimos nas supostas redes sociais – polegar para cima, polegar para baixo, em imitação fajuta dos antigos imperadores romanos no Coliseu.
É exactamente como diz.
A propósito da nossa língua foi triste ler e ouvir, a propósito da triste saga de incêndios que começaram na passada semana, a ocorrência de vários incêndios «no Pombal».
No Pombal!?!?!?
«”Não temos palavras para isto (…) Foi uma noite muito difícil e a tarde também. Se não fossem os bombeiros, ardia a casa toda”, relatou uma moradora de Vale Perneto, no Pombal, à SIC.» asa-ardia-toda-se-nao-fossem-os-bombeiro s-moradores-relatam-noite-dificil-em-Pom bal-0d5d774c
https://sicnoticias.pt/pais/2022-07-13-A-c
«39 idosos retirados de lar no Pombal devido aos incêndios» entenas-de-bombeiros-combatem-incendios-d e-norte-a-sul-do-pais
https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/c
«O incêndio começou na sexta-feira em Vale da Pia, no Pombal, e acabou por se alastrar para Ansião e Alvaiázere. Apesar de na segunda-feira parecer controlado, ontem à noite houve um reacendimento.» te-do-ic8-entre-pombal-e-ansiao-JH117010 91
https://onovo.pt/pais/incendio-forca-cor
«Incêndio na Mata Nacional do Urso, no Pombal» ata-nacional-do-urso-no-pombal-36410
publico.pt/2005/08/28/jornal/incendio-na-m
Um asneira, os restantes vão atrás. Devido à mesma ignorância básica.
Que leva também a dizer (e a escrever) Garcia “da Orta” ou até “da Horta”. E tantas outras calinadas.
O “acordo ortográfico”, como tantos de nós alertámos em devido tempo, deu um fortíssimo contributo para esta ignorância, patente no próprio Diário da República.
Em vez de a esconderem, exibem-na.
Peço desculpa pelo anónimo.
Viva, António. Grato pelo seu testemunho, que vem tão a propósito.
Ainda a este propósito, permita-me que transcreva um pequeno parágrafo de José Saramago, publicado nos Cadernos de Lanzarote II (a entrada é de 29 de julho):
«Na altura, como sempre acontece nesta época do ano, a televisão mostrou os incêndios. Era verdadeiramente assustador ver como as chamas subiam pelas árvores acima, rugindo, transformando-as em archotes, e logo, com uma velocidade incrível, passavam às árvores próximas, até que ficava abrasada toda a encosta de uma montanha. Este relato de Jèssica, porém, torna a tragédia subitamente mais real. Ela quase não descreve o incêndio, só diz, como de passagem, umas quantas palavras diante das quais a memória das imagens empalidece. Refiro-me aos «gritos das vacas queimando-se». Como toda a gente, eu sabia que as vacas mugem, agora sei que também gritam.»
In: Saramago, José – Cadernos de Lanzarote II. Porto: Porto Editora, 2016. p. 164
Muito a propósito, António.
Os disparates nas TVs e nos Jornais são de uma ignorância doentia.
Quem escreve está convencido de dizer/escrever correctamente.
Já nem falando no ‘o senhor ainda chegou a ver o fogo a arder?’ ao crioulo brasileiro no “CM” como o ‘registrado’, ao não acertar em todas as notícias sobre as obras de Metro em Lisboa no Boqueirão do Douro(?) quando é Boqueirão do Duro.
E os políticos, neste momento não podendo atacar nos fogos por vários países da Europa, atiram com “responsável pela vulnerabilidade da floresta”, para dizer alguma coisa a quem sofre directamente com os fogos. Vulnerabilidade, e vem o chega pra lá connosco não contem.
Isso dá para uma série completa aqui. Aliás, já deu. Qualquer dia, retomo-a.
É espantoso o número de alegados jornalistas que chegam à profissão com desconhecimento total das regras mais básicas da profissão. Parece, por vezes, que são escolhidos por isso mesmo. E até exibem um título profissional que lhes é emitido sem escrutínio algum.
Os estagiários é o que está a dar, e nem é preciso pagar o salário mínimo.
Conheci um advogado estagiário que não sabia distinguir secção de sessão ou cessão.
Vá que se dizia de família importante e não caía naquela popular do ‘pode-se dizer de várias maneiras’.
Há até quem escreva sexão. Pensando sabe-se lá em quê.
Lá dizia o velho Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”.
O cerne da questão é esse.
” N’Os Lusíadas, Camões utilizou 9160 palavras diferentes. “
Para quê? Passados quinhentos anos mais de 50% dos tugas não sabe o que é que ele quis dizer.
Em vez dos dez cantos, era preferível ter feito só um, o efeito era o mesmo e a Lusitânia não passava por estúpida.
Pior andou o Cervantes, que usou mais de 23 mil palavras diferentes no ‘Quixote’.
Que desperdício.
Qualquer episódio de telenovela, se usar 50 substantivos, já é coisa para “intelectuais”.
Deve ser por isso que os intelectuais estão substancialmente interessados na telenovela de Famalicão. Isso sim é que é cultura.
Eu já tenho saudades de uma telenovela histórica. A última que passou foi em 2017, protagonizada pelo comediante Capoulas com aquela célebre frase “Fiz a maior revolução na floresta desde D. Dinis.”
No ano em que o pinhal de Leiria ardeu.
Por acaso vi essa telenovela foi a seguir a uma outra da artista Cristas. Qualquer palhaço podia plantar eucaliptos onde quisesse. Era a chamada Lei Cristas.
Parece que o pinhal de Leiria já tinha mais eucaliptos que pinheiros.
Pois o Pinhal de Leiria – que tinha incomparavelmente mais pinheiros do que eucaliptos, claro – ardeu no “reinado” de D. Dinis Capoulas, em 2017.
A sua cronologia está quase tão baralhada como as suas coordenadas vegetais…
Chega esta “época dos incêndios”, como lhe chama o governo, e começa logo o tiro ao eucalipto. Nunca falha. Como se o eucalipto fosse mais propenso a arder do que (por exemplo) o pinheiro bravo, árvore mais frequente em Portugal, até por fazer parte do ecossistema mediterrânico.
O montado (sobreiro-azinheira) ocupa cerca de 34% da mancha florestal portuguesa, seguido do pinhal (30%) e do eucaliptal (26%).
O pinheiro chegou a ocupar 40% da nossa superfície florestal pois adapta-se a qualquer clima e a qualquer terreno, além de ajudar a travar a erosão dos solos e ter valor comercial (teve-o, de modo incomparável, na época dos Descobrimentos). Infelizmente são também árvores propensas a doenças e pragas, o que contribuiu para a sua redução em termos relativos – além dos fogos florestais, como é evidente.
Mas aguardemos o resultado da brilhante «revolução» que o plantador Capoulas nos prometeu. Ainda só passaram cinco anos.
E Os Lusíadas tinha que dar nesta do pinhal capoulas da crista
Agora, até temos um fresquinho, que também se ri quando discursa para aleijar, e todos à espera de umas melhores que as do chega pra lá, sai-se com um frouxo ‘vulnerabilidade florestal’.
Esta do Capoulas é muito bem lembrada. Talvez a merecer “Memória da Semana”… se tal rubrica houvesse. Pois se se vão esquecendo (desconhecendo) muitos termos também se vão esquecendo dislates e mariolagens. Se calhar são amnésias siamesas.
Ainda há-de aparecer um socialista a jurar que a frase é da Cristas. Não me admirava nada.
pois, e a elogiar o “Super-Capoulas”
Nem precisa ser “Super”. Esses mabecos elogiam qualquer “Infra”, desde que seja da pandilha.
A difusão do conhecimento, “cultura”, passou de J. Gutenberg (criar texto, escrita, leitura) para Hollywood (criar imagem em movimento “moving pictures”) e sucedâneos.
Troca de informação, mensagens, via “telefones portáteis expertos”, que se realiza cada vez mais com uma codificação estreita, não é nem pretende ser cultura.
O que menos me interessa são etiquetas e catalogações.
Importa, sim, verificar que se pensa cada vez menos, cada vez pior e de uma forma cada vez mais sujeita a códigos tribais.
A crescente incapacidade para apreender as subtilezas e as amplitudes da nossa língua materna é um desses sintomas. Outro é a chocante falta de exigência do ensino público, onde é possível transitar de ano sem conhecimentos básicos de português ou de matemática.
Temos agora quase 60% de negativas a Matemática no terceiro ciclo – e tudo segue em frente porque o Ministério da Educação não quer alunos “retidos” para não traumatizar as criancinhas e não aborrecer os papás.
Esta falta geral de exigência tem a ver com o que referi.
Assim não há “elevador social” que funcione. Fica sempre encalhado, entre o primeiro e o segundo andar.
O corretor do meu PC nem sempre coincide com o meu telemóvel.
Não sendo eu de letras, há uns anos Um Juiz lendo um artigo ignorava uma vírgula.
Pedi-lhe para repetir a leitura 2 vezes e só à 3ª percebeu o erro.
Somos maus a letras, péssimos em números e a nossa lógica é a da batata.
O “acordo ortográfico” fomentou o analfabetismo funcional dos portugueses, levando-os a suprimir consoantes de toda a espécie – mudas e sonoras – e instituindo diferenças em relação à ortografia brasileira (em recepção e excepção, por exemplo), enquanto os restantes países lusófonos continuam a escrever como escreviam.
Por causa da burrice de uns governantes cá do burgo que acordaram numa manhã enevoada com a ideia utópica de “unificar a ortografia”. Resultado: nunca a ortografia foi tão dispersa, tão errática e tão caótica. Enquanto tudo quanto nos separava dos brasileiros – do vocabulário à sintaxe – continua exactamente na mesma, como era de esperar.
Exactamente.
Foi tudo muito bem feito, como diria o zeca, que até um conceituado Reitor entrou na treta das editoras de livros brasileiros.
Ainda pior é tradutor na internet ser para Português do Brasil, sem outra opção.
A minha neta neerlandesa é guarda-redes de uma equipa de futebol e quando escreveu a dar-me a novidade disse ser doelman (goleiro).
E eu perguntei-lhe o que é goleiro, respondeu goalkeeper
Nem precisamos de sair do futebol para concluirmos que os idiotas do acordo que queriam ver a ortografia “unificada” nem perceberam que essa unificação é impossível desde logo porque as diferenças vocabulares e sintácticas entre portugueses e brasileiros são gritantes.
Alguns ainda não entenderam isso 32 anos depois.
“…as diferenças vocabulares e sintácticas entre portugueses e brasileiros são gritantes.”
Por acaso é verdade, os brasileiros viram-se
aflitos para compreender o Jorge Jesus.
Está a acontecer o mesmo com os turcos.
A língua portuguesa é muito traiçoeira.
Na boca de alguns políticos, mais ainda.
Olá
Perfeitamente de acordo.
Bom fim-de-semana.
Abraço
Maria
Para si também, Maria.
é por isso que adoro o Aquilino , tem palavras lindas , jamais escritas por outro .:)
Aquilino era um grande inventor de palavras, várias delas com enorme sentido de humor.
Quando se diz que é preciso «ir ao dicionário para ler Aquilino», isso faz pouco ou nenhum sentido. Porque muito do que ele escreveu nem vem no dicionário.
Mas o leitor arguto interpreta muito bem o sentido de tudo aquilo e até faz suas as expressões que ele inventou. Precisamente com esse objectivo: para nós as usufruirmos.
Grande pensamento. Nós somos a nossa linguagem, como tão bem disse Benveniste.
T. Gouvea
É isso, Teresa.
Um livro que vai sair brevemente Damião de Goís Vs Camões
https://www.telegraph.co.uk/books/what-t o-read/one-eyed-pirate-vs-humanist-how-1 6th-century-empire-building/#comment
PS: não tenho relação alguma com o livro e o autor.