Como acentua Javier Cercas no seu livro Anatomia de um Instante, a análise política só funciona quando somos capazes de detectar o que está vivo no que parece estar morto e o que está morto no que parece estar vivo. Precisamente ao contrário do que sucede com grande parte dos chamados “analistas políticos” em Portugal.
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

A maioria nem precisa de abrir a boca em cada aparição. tão conhecida é a cartilha de bolso bem obedecida e decorada.
Em grande parte assim é, de facto.
Sim, na verdade são ativistas políticos e não analistas. Depois queixam-se que os meios de CS tradicionais estão em crise. Cada vez mais pessoas estão fartas de “catequistas” disfarçados de analistas isentos.
São activistas políticos. Ou activistas do clique, do ódio primário, da boçalidade à solta, da aldrabice desenfreada.
Oscilam entre o mau e o péssimo. Alguns chegam mais longe: tornam-se execráveis.
E se o Javier Cercas escrevesse um livro sobre o 23-F na Assembleia da República…
Quando o militar golpista lá entrasse, de espingarda em riste e desse o célebre tiro para o tecto a gritar “Toda a gente para o chão, carago!”, o impacto ia ser terrível.
Tal como em Espanha, quase todos os deputados se atiravam para o chão. Mas não era por medo das balas. Em Portugal, sempre que há um estrondo inesperado no Parlamento, a malta acha logo que é a Polícia Judiciária e o Ministério Público a entrar de surpresa. O hemiciclo estaria deitado no chão, sim, mas não em silêncio. Ouvia-se o barulho frenético de 200 gajos a apagar e-mails a correr, a formatar telemóveis do Estado e a engolir faturas de almoços pagos por terceiros.
Mas, para manter o paralelismo com a obra, três homens ficavam sentados. As razões, no entanto, exigiriam a tal análise de distinguir “o que está vivo no que parece morto e o que está morto no que parece vivo”.
O Primeiro-Ministro ficava sentado porque estava freneticamente a mandar mensagens de WhatsApp para tentar perceber se as balas cravadas no tecto podiam ser financiadas a 100% pelos fundos do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).
O Líder da Oposição mantinha-se hirto na cadeira e ficou ali, meio agachado, meio sentado, a aguardar pela próxima sondagem da Intercampus para decidir se ia apoiar o golpe de Estado ou fazer uma abstenção violenta.
E finalmente, o Decano do Parlamento (o nosso Gutiérrez Mellado). Este ficava impávido, sereno, de braços cruzados, sem pestanejar perante a arma. Cercas dedicaria 200 páginas a tentar dissecar a sua frieza heroica, até descobrir, que o homem estava simplesmente a dormir o sono dos justos, anestesiado depois de ter malhado duas doses de cozido à portuguesa com tinto da casa no refeitório da Assembleia.
E os nossos “analistas políticos”, esses seres maravilhosos que o Cercas diz (e bem) que não pescam nada disto?
No domingo seguinte à noite, a televisão estaria inundada de paineleiros a garantir que “o tiro no tecto foi uma prova da tremenda resiliência das nossas instituições”.
Em Portugal, a malta não precisa de saber o que está vivo e o que está morto. A nossa classe política passa metade da vida a fingir-se de morta quando é apanhada na trafulhice, e a outra metade ressuscita milagrosamente logo que cheira um lugar no Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos ou da ANA Aeroportos.
O livro do Javier Cercas? Não se chamaria Anatomia de um Instante. Em Portugal, a obra-prima seria intitulada:
“Anatomia de um Tacho”.
Por acaso estou em condições de confirmar que o cozido à portuguesa é o prato mais requisitado no restaurante da AR. Dia de cozido é dia de lugares sempre preenchidos com antecedência. A procura aumentou bastante com o desembarque dos deputados do Chega.
Muito bom, cozido à portuguesa.
Mas ainda longe do meia banana na minha zona com as suas tripas à moda do porto às quinta- feiras.
Bom desfrute das merecidas férias.
Obrigado, Corvo. Faço por isso.
Mais ou menos parecido com o Sporting.
Estava melhor quando estava pior.
🙂
Boa semana.
Votos devolvidos, com gosto. A minha semana é de férias, felizmente.
“O problema foi esse, a povoação dividir-se a meio e a convivência tornar-se muito difícil”
in O monarca das sombras, de Javier Cercas (Assírio & Alvim)
https://leiturasimprovaveis.eu/2026/03/o-monarca-das-sombras-de-javier-cercas/
É um autor que muito aprecio. E várias vezes tenho citado.
” a análise política só funciona quando somos capazes de detectar o que está vivo no que parece estar morto e o que está morto no que parece estar vivo. Precisamente ao contrário do que sucede com grande parte dos chamados “analistas políticos” em Portugal.”
Impossível quando os jornalistas censuram uma parte da realidade.
O Liceu Nelson Mandela- e vários outros- foi incendiado em França, estranhamente não teve destaque algum…:
https://x.com/DrEliDavid/status/2106343846749646884
Esta só apareceu no Correio da Manhã. Em mais nenhum:
Tribunal da Relação confirma motivação terrorista no ataque à “Marcha pela Vida”
Alguns desmentidos da sua falsa alegação:
https://expresso.pt/franca/2026-10-02-revolta-dos-liceus-em-franca-alastra-as-universidades-e-entra-numa-fase-de-violencia-38c54664
https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/protestos-intensificam-se-em-franca-e-resultam-em-cerca-de-2-000-detidos/
https://sicnoticias.pt/mundo/2026-10-01-franca-enfrenta-onda-de-protestos-estudantis-com-violencia-e-detencoes-47674160
https://cnnportugal.iol.pt/franca/liceus/pelo-menos-600-detidos-e-400-liceus-fechados-protestos-estudantis-em-franca-marcados-por-violencia/20261002/6abf9b6bd34e53c759c74c8d