Pensamento da semana


Pedro Correia,

Passámos a década de 90 a discutir se a História tinha acabado. Bons tempos esses, totalmente irrepetíveis. Assim nos despedimos do milénio anterior. A partir de 2001, ao contrário de muitos vaticínios, a História tem acelerado – sem limite de velocidade. Toda a poeira levantada por aquelas frenéticas discussões jaz sepultada sete palmos abaixo do chão.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a seman

12 comentários em “Pensamento da semana”

  1. Na década de 90 pensavam que o grande adversário tinha sido a URSS. Só depois se aperceberam de que afinal era a China.

    1. O balio é incapaz de perceber que as coisas mudam?

      Como se poderia imaginar que os Chineses depois de terem assassinado dezenas de milhões de outros Chineses – a “civilização milenar” é tão esperta- porque seguiram o culto mais mortífero desde sempre que nasceu na Europa iriam depois adoptar o culto Europeu do mercado livre, aquele que trouxe mais prosperidade ao mundo?

      Impressiona como o culto Marxista nascido na Europa acabou por fazer muito mais mal for dela, atrasou países, quase continentes por décadas ou mais, isto para além da mortandade.

  2. O Fukuyama andou a década de 90 inteira a vender livros a dizer que a História tinha acabado. Um optimista. Passámos esses anos a achar que o grande drama da humanidade era saber se o fecho do Expo 98 ia ter fogo de artifício suficiente. Bons tempos.

    Mas depois chegou 2001. O eixo de rotação da Terra inclinou-se irreversivelmente no exato momento em que o Engenheiro António Guterres olhou para os resultados das autárquicas, viu o Santana Lopes a ganhar Lisboa, e guinchou: «Ai que vem aí o pântano!»

    Foi aí nesse milissegundo de terror que o homem atirou a toalha ao chão.

    O pânico do Guterres perante o “pântano” foi de tal ordem que rasgou o continuum espaço-tempo. A História, que andava ali a dormitar desde a queda do Muro de Berlim, acordou em sobressalto com o estrondo da porta do Largo do Rato a bater.

    Mas por acaso até há uma ironia poética na coisa: para nos salvar de um charquinho, o Guterres atirou o país para o colo do Durão Barroso, que a seguir atirou o país para o colo do Santana, que a seguir atirou o país para a bancarrota. É o chamado efeito borboleta, versão tasca: um primeiro-ministro bate as asas em Lisboa por causa de um pântano, e o mundo inteiro afoga-se num tsunami de crises financeiras, pandemias e guerras.

    Mas a ele correu-lhe bem. O homem que acelerou a História fugiu dela a sete pés. O mundo está a arder a uma velocidade alucinante desde 2001, é um facto, mas ao menos o Guterres continua com os sapatos limpinhos e secos em Nova Iorque, a emitir notas de repúdio. Um visionário.

  3. Pois é, tanto as certezas como as especulações humanas se vão sedimentando, em camadas arqueológicas: os anos 90 a sete palmos de profundidade, os avoengos primevos nos abismos do Vale do Rift – sendo certo que em termos cosmológicos jazem lado a lado, foram enterrados nem com breves segundos de intervalo.

    E estou em crer que a História está mesmo prestes a acabar, desta é que é, a IA vai acabar-nos por fim com o sofrimento e a estupidez congénita. É assim como outro Dilúvio, mas a seco.

    Por falar em Dilúvio, questiono-me: a IA poupará os bichos “irracionais” e mais os lírios do campo, ou também lhes limpará o sebo preventivamente, não vá dar-se o caso de “evoluírem”?
    Com os megalhões de livros e filmes que papou, não lhe terão escapado clássicos fajutos como “O Planeta dos Macacos” ou “A Pequena Loja dos Horrores”, ou artigos mais finos como o tenebroso “Vida Inteligente”…
    Porque prognósticos, antes e perto do fim do jogo, foram sempre abundantes, ninguém poderá alegar surpresa – só o Trump, mas o Trump não conta.

    E a nossa descendente e sucessora muito mais inteligente do que nós, também já terá debaixo d’olho aqueles bunkers catitas onde o “crème de la crème” humano se vai enfiar quando as coisas aquecerem demasiado – num buraco, confortável mas buraco, totalmente dependentes de maquinismos e automatismos e mais cangalhada “inteligente”, que não deixará de lhes meter uma rolha no respiradouro à primeira oportunidade.
    Pode até fazer filmes “snuff”, não para entretenimento como os humanos fazem, mas para intercâmbio de experiências entre “agentes”. Tipo Erasmus.

    1. Para destacar reflexões como esta, já falta pouco para ressuscitar a rubrica “O comentário da semana”.

  4. Diz quem sabe, se vier a ter lugar a 3ª guerra mundial com toda a extensão que se poderá adivinhar. a 4ª a existir será resolvida á pedrada.

    1. Basta ler “A Estrada”, extraordinário romance de Cormac McCarthy: vem lá tudo.
      A grande literatura não apenas descreve, mas antecipa a realidade.

  5. “jaz sepultada sete palmos abaixo do chão.” – Pelas acções e decisões dos governantes do nosso mundo ocidental, e pelo vociferado pelos donos do espaço mediático, considero uma afirmação manifestamente exagerada!

    Hoje no ocidente não se discute o fim da História, trabalha-se activamente para que ela acabe. Criam-se alegres caminhos ou processos para alimentar o “sono da razão”.

    Não se vislumbra pensamento e ou acção condizente. Quem lidera/governa continua a agir como se a Historia tivesse mesmo acabado.

    Os pequeno-burgueses e os centes do homem novo (cidadão transformado, solidário e liberto de amarras coloniais ou capitalistas) tomaram conta dos nossos destinos. Como um dia foi referido: um conto para crianças!

    1. Já passámos por muito pior. Duas guerras mundiais com 70 milhões de mortos. Epidemia planetária de gripe dita espanhola com milhões de vitimas. Fomes dantescas na Ucrânia, China, Nigéria, Etiópia. Holocausto, Hiroxima, Gulag…
      Só nos último século.

      Hoje ouvi numa TV um comentador dizer: “A classe média portuguesa não aguenta mais.” É perder a noção mínima das proporções.
      Apetece-me parafrasear o outro: “Ai aguenta, aguenta…”

      1. Tempos diferentes, tragédias e bonanças diferentes. Mas a verdade é que vivemos tempos muito desafiadores e perigosos. Nunca nada é garantido. O mundo está um local perigoso e nós ocidentais tínhamos a obrigação de estar a fazer diferente, temos a obrigação de impedir a corrosão do nosso modelo de sociedade e libertar flanco ao vector ditatorial, agora servido num bandeja digital!

        Uma das grandes capacidades do Ser humano é a resposta e adaptação às dificuldades e desafios. É claro que aguenta. Os papagaios das narrativas é que insistem em fertilizar e explorar o drama e as emoções. Tudo para alimentar o sono da razão.

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