Muitos economistas têm defendido que o combate à crise deve passar pelo investimento público, uma vez que os agentes privados receiam avançar num momento de grande incerteza. A aceitação desta ideia – que me parece razoável – não deve dispensar porém a definição de objectivos específicos que enquadrem a sua execução.
A meu ver, há dois princípios vitais a ter em conta. Em primeiro lugar, procurar dirigir o investimento público para um benefício concreto das populações e das comunidades locais, agindo sobre infra-estruturas que têm um impacto directo e imediato no bem-estar do cidadão comum. Refiro-me em particular à revitalização do parque escolar, ao investimento em hospitais e centros de saúde, ao restauro de pequenas e médias redes viárias, à requalificação do património histórico, à preservação dos espaços verdes e à aposta em novos modelos de mobilidade urbana. Estas são áreas que promovem emprego e geram mais-valias indiscutíveis para o país real, quer estejam em causa pequenas comunidades, cidades de média dimensão ou grandes aglomerados.
Em segundo lugar, importa garantir que o investimento público não conduz a um endividamento excessivo, que hipoteque o direito das gerações futuras a concretizarem as suas aspirações. Temos a obrigação de investir em projectos que venham a beneficiar os que ainda não nasceram, mas devemos também proteger os direitos das gerações vindouras a determinarem o seu próprio destino, sem estarem presas a pesados fardos contraídos no passado sem o seu consentimento.
Um dos maiores problemas do actual Governo tem sido a sua tendência para confiar cegamente no investimento público sem estabelecer prioridades, nem reflectir sobre os seus propósitos. Com efeito, o Governo socialista pouco tem atendido aos dois objectivos acima enunciados, manifestando um entusiasmo quase bacoco pelos denominados “megaprojectos” (TGV, aeroporto internacional, terceira auto-estrada Lisboa-Porto), que favorecerão mais as construtoras do que as comunidades locais, estando ainda por conhecer os reais benefícios que o cidadão comum retirará destas obras faraónicas.

E há um terceiro lugar ainda, José (a meu ver). Se é importante dirigir o investimento públco para obras que beneficiem as populações e para projectos que não impliquem importações e aumento da dívida externa, não é menos importante que ele seja aberto aos construtores e serviços locais e regionais. Sem a demagogia de achar que os grandes construtores vão distribuir o trabalho pelos subempreiteiros.
Subscrevo em absoluto, caro João. A ideia de uma descentralização dos serviços deve também estender-se à lógica de realização de obras, certamente. Um abraço!