RIO MONDEGO
Nascente: Serra da Estrela
Foz: Oceano Atlântico, na Figueira da Foz
Afluentes: Rios Dão, Alva, Ceira, Ega, Arunca, Pranto
Extensão: cerca de 230km
"Doces e claras águas do Mondego, / Doce repouso de minha lembrança, / Onde a comprida e pérfida esperança / Longo tempo após si me trouxe cego."
Luís de Camões




O Mondego imprevisível: ora seca, ora transborda.
Agora é mais basófias… mas isto são coisas cá minhas.
:))))
Lembrei-me de um livro, o romance «Os Sinos de S. Bartolomeu», de Nuno de Figueiredo (Temas e Debates). Começa assim:
«Coimbra é uma cidade triste e parada, talvez por isso a ame tanto. Talvez por isso se quede tantas vezes apoiado ao gradeamento da ponte olhando os salgueiros debruçados sobre o rio, a curva ao longe onde a água se embrenha entre o arvoredo no sopé dos montes azuis a perder de vista. Por tanto a amar segue-a com doçura trepando nas manhãs de Inverno soalheiro, socalco a socalco, vencendo o desnível até à torre que a coroa, projectada no céu aberto e luminoso. Gosta de ficar ali, à beira da Portagem, a ver o rio quase seco, transbordante após as enxurradas que desde a serra empurram, de bermas corroídas, terras, lamas, árvores inteiras e animais estripados, como se de um grande e caudaloso rio se tratasse, quando afinal, passadas as chuvas austeras da Beira e o ribombar dos trovões de tempestades fora de horas, não é mais do que aquele delta indefinido num areal de desolação, lodo, juncos semeados entre veios de água salobra, imóvel, onde os mosquitos e as libelinhas se acoitam.»
Belo, aqui, o Mondego – deve ser o rio mais cantado pelos nossos poetas e a propósito…
(…)Estavas, linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
in “Os Lusíadas” (Canto III -Inês de Castro) de Luís Vaz de Camões
e
Lindas águas do Mondego,
Por cima olivais do monte!
Quando as águas vão crescidas
Ninguém passa além da ponte!
O rio, rio da vida
Quem te fora atravessar!
Vais tão cheio de tristezas
Ninguém te pode passar.
Mas dize tu, ó Mondego
Pois todos levam o seu fado,
Tu que foges e eu que fico
Qual de nós vai mais pesado (…)
In “Primaveras Românticas”, Antero de Quental
Ai, ai, Maria, desperdiçaste tanto espaço na caixa de comentários e…. não tarda nada ;))
Ora cá está… a escolha das escolhas 🙂
Para mim, o sortilégio do Mondego é inalterável. E reparo que, espantosamente, nunca digo mal dele, ao contrário da cidade emblemática que cresceu à sua volta.
Não fica mal sublinhar que este é mesmo só nosso, pois não? Todo e todinho português.
E só o nome já diz muito de si: – muito mais melodioso que o agressivo ” Te-jo ” e mais swingado ainda que o doce ” Dou-ro “.
Maria, ainda bem que se lembrou desses versos, que obviamente também são os que prefiro 🙂
E há depois os choupos. Os choupos condizem em absoluto, esguios e espirituais, dançando sempre à mínima aragem e discretos, quase transparentes, sem nunca tapar a paisagem.
Quanto aos “maledicentes” do Basófias eheh ) tenho a informar que isso é uma coisa passada à história. Há largos anos que o Mondego (este que eu vejo) tem um caudal rico e regularizado, mercê da cirurgia estética do célebre dr. Açoreamento . E dá uns belos passeios de canoa.:)
PS- Pedro Correia, tenho de lhe mandar umas fotos actualizadas do burgo vizinho do seu (refiro-me à sua cidade de origem, se bem retive). Este bilhete postal da torre e do casario é deprimente :-(. Sobre a mesma malha urbana há imagens lindíssimas 🙂
Receberei com todo o gosto, Chloé.
Depois vi que até fui injusta, porque o ‘cromo’ do casario+torre da uc até nem é exactamente o da sua imagem. Esta tem uma variante: o espelho de água.
Aqui neste link tem imagens mais actuais de Coimbra, no que respeita à batidíssima alta/baixa e não só.
Também deixo uma nota: a margem mais interessante do rio não é a do costume (a direita, que tb é a minha). Do ponto de vista paisagístico, a mais bonita é a esquerda, incompreensivelmente desperdiçada pela ancoragem social mais significativa (serviços, habitação, etc ).
Para além de um preguiçoso poente no parque verde (como se sugere abaixo – margem direita),
recomendo a quem passe apressado e sem grandes sonhos gastronómicos uma paragem para almoçar rapidamente num sítio encantado (margem esquerda): o bar do Convento de Santa Clara-a-Velha , requalificado.
Um enquadramento muito bonito para quem se sinta bem entre o moderno e o antigo e que tanto dá para o modo rápido como para o modo slow (conversa fiada e confortável, com olhos fitos no séc. XIII).
Bom sobretudo na esplanada.
Servido pela Quinta das Lágrimas.
Faltou o link ts/1419567/show/
http://www.flickr.com/photos/vitor107/se
(Não deu para tirar só o que vale a pena)
Tudo bonito, entre o clássico e o moderno. Gostei muito, Chloé. De tal maneira que fiquei com vontade de passar um dia da próxima semana em Coimbra – é o que tenciono fazer. A minha opção para o ‘postal’ coimbrão foi precisamente o magnífico espelho d’ água. Aliás o difícil é seleccionar imagens do Mondego, magníficas muito antes de chegar a Coimbra.
Só espero que nesse dia tenha sorte com o tempo. A chuva é um ‘corte’ para quando se quer apreciar qualquer cidade. O Inverno é um castigo dos deuses…
Pedro
Este é o meu preferido. Tal como a personagem da Marilyn Monroe na Paragem de Autocarro, o Mondego acompanhou parte da linha da minha vida: serra de Estrela (nasci lá perto) – Coimbra (estudar) – Figueira da Foz (parte das férias de verão).
O Mondego tem uma poesia muito própria, mas afinal todos os rios a têm…
Também eu, Ana. Parte da minha família é da zona da Serra da Estrela, que conheço bem desde muito pequeno. Outra parte é do eixo Coimbra-Figueira, que faz parte do meu roteiro afectivo. Com o rio sempre como traço de união.
Agora que chegou ao meu rio, ou ao rio de quem sou mais do que à cidade que ele banha, mesmo sabendo que há afluentes e afluentezinhos, e dentro destes outras ribeiras faltam na listagem, sempre sublinho que o último afluente do velho Munda ou Mondik se chama Rio Pranto. É um nome bonito para as últimas águas que entram no verdadeiro rio, acho eu.
Já acrescentado, com todo o gosto.
O “meu” Mondego, a “minha” Coimbra!…
Ame-se ou deteste-se, Coimbra é uma cidade do mundo. Irrepetível, intemporal, de uma decadência sublime…
O rio Mondego ainda a torna mais especial…
Você já esteve num final de tarde de Outono no Parque Verde, à beira rio?
É absolutamente fabuloso!
Cumprimentos.
Realmente, ama-se e detesta-se. Mesmo.
Faces da mesma moeda.
Mas eu cá só reconheço esse ‘direito’ ao amor-ódio a quem cá vive.
O resto é a habitual baboseira nacional
(deve ser a primeira vez que aqui lavro uma contra o pet de estimação do DO, Pacheco Pereira… 🙂
Tornou-se moda dizer mal de Coimbra, apontando-a como sinónimo de tudo quanto é retrógrado a nível nacional. Uma imbecilidade como tantas outras que vamos escutando, repetidas por mil e um papagaios, dia após dia.
Rio Mondego, o rio que banha a minha cidade paixão-Coimbra-.
Felizmente que a cidade há uns para cá que fez as pazes com o seu rio e tem permitido que passemos em familia tardes fantásticas nas suas margens.Já para não falar dos peixinhos do rio que se podem comer na estrada,velha, que liga Coimbra a Penacova.
Para quem gosta de passar um dia bem passado na primavera pode fazê-lo secendo o Mondego de kaiake.
abraço Pedro
Meu caro, só Penacova – e o Mondego a passar por lá – dava para uma série exclusiva de postais.
É verdade Pedro,
Os meus sogros viveram alguns anos em Penacova antes de irem para Coimbra e temos lá bons amigos.
A mesa por aqueles lados é tão farta….
abraço
Bem sei, meu caro. E Penacova faz-me lembrar que falta pouco para começar a época da lampreia.
Abraço