Portugal: por estes rios acima (18)


Patrícia Reis,

 

 

 

RIO MONDEGO

 

Nascente: Serra da Estrela

Foz: Oceano Atlântico, na Figueira da Foz

Afluentes: Rios Dão, Alva, Ceira, Ega, Arunca, Pranto

Extensão: cerca de 230km

 

"Doces e claras águas do Mondego, / Doce repouso de minha lembrança, / Onde a comprida e pérfida esperança / Longo tempo após si me trouxe cego."

Luís de Camões

22 comentários em “Portugal: por estes rios acima (18)”

  1. Lembrei-me de um livro, o romance «Os Sinos de S. Bartolomeu», de Nuno de Figueiredo (Temas e Debates). Começa assim:
    «Coimbra é uma cidade triste e parada, talvez por isso a ame tanto. Talvez por isso se quede tantas vezes apoiado ao gradeamento da ponte olhando os salgueiros debruçados sobre o rio, a curva ao longe onde a água se embrenha entre o arvoredo no sopé dos montes azuis a perder de vista. Por tanto a amar segue-a com doçura trepando nas manhãs de Inverno soalheiro, socalco a socalco, vencendo o desnível até à torre que a coroa, projectada no céu aberto e luminoso. Gosta de ficar ali, à beira da Portagem, a ver o rio quase seco, transbordante após as enxurradas que desde a serra empurram, de bermas corroídas, terras, lamas, árvores inteiras e animais estripados, como se de um grande e caudaloso rio se tratasse, quando afinal, passadas as chuvas austeras da Beira e o ribombar dos trovões de tempestades fora de horas, não é mais do que aquele delta indefinido num areal de desolação, lodo, juncos semeados entre veios de água salobra, imóvel, onde os mosquitos e as libelinhas se acoitam.»

    1. Belo, aqui, o Mondego – deve ser o rio mais cantado pelos nossos poetas e a propósito…

      (…)Estavas, linda Inês, posta em sossego
      De teus anos colhendo doce fruito,
      Naquele engano da alma ledo e cego,
      Que a fortuna não deixa durar muito,

      Nos saudosos campos do Mondego,
      De teus fermosos olhos nunca enxuito,
      Aos montes ensinando e às ervinhas,
      O nome que no peito escrito tinhas.

      in “Os Lusíadas” (Canto III -Inês de Castro) de Luís Vaz de Camões

      e

      Lindas águas do Mondego,
      Por cima olivais do monte!
      Quando as águas vão crescidas
      Ninguém passa além da ponte!

      O rio, rio da vida
      Quem te fora atravessar!
      Vais tão cheio de tristezas
      Ninguém te pode passar.

      Mas dize tu, ó Mondego
      Pois todos levam o seu fado,
      Tu que foges e eu que fico
      Qual de nós vai mais pesado (…)

      In “Primaveras Românticas”, Antero de Quental

  2. Ora cá está… a escolha das escolhas 🙂
    Para mim, o sortilégio do Mondego é inalterável. E reparo que, espantosamente, nunca digo mal dele, ao contrário da cidade emblemática que cresceu à sua volta.
    Não fica mal sublinhar que este é mesmo só nosso, pois não? Todo e todinho português.
    E só o nome já diz muito de si: – muito mais melodioso que o agressivo ” Te-jo ” e mais swingado ainda que o doce ” Dou-ro “.
    Maria, ainda bem que se lembrou desses versos, que obviamente também são os que prefiro 🙂
    E há depois os choupos. Os choupos condizem em absoluto, esguios e espirituais, dançando sempre à mínima aragem e discretos, quase transparentes, sem nunca tapar a paisagem.
    Quanto aos “maledicentes” do Basófias eheh ) tenho a informar que isso é uma coisa passada à história. Há largos anos que o Mondego (este que eu vejo) tem um caudal rico e regularizado, mercê da cirurgia estética do célebre dr. Açoreamento . E dá uns belos passeios de canoa.:)

    PS- Pedro Correia, tenho de lhe mandar umas fotos actualizadas do burgo vizinho do seu (refiro-me à sua cidade de origem, se bem retive). Este bilhete postal da torre e do casario é deprimente :-(. Sobre a mesma malha urbana há imagens lindíssimas 🙂

      1. Depois vi que até fui injusta, porque o ‘cromo’ do casario+torre da uc até nem é exactamente o da sua imagem. Esta tem uma variante: o espelho de água.

        Aqui neste link tem imagens mais actuais de Coimbra, no que respeita à batidíssima alta/baixa e não só.

        Também deixo uma nota: a margem mais interessante do rio não é a do costume (a direita, que tb é a minha). Do ponto de vista paisagístico, a mais bonita é a esquerda, incompreensivelmente desperdiçada pela ancoragem social mais significativa (serviços, habitação, etc ).
        Para além de um preguiçoso poente no parque verde (como se sugere abaixo – margem direita),
        recomendo a quem passe apressado e sem grandes sonhos gastronómicos uma paragem para almoçar rapidamente num sítio encantado (margem esquerda): o bar do Convento de Santa Clara-a-Velha , requalificado.
        Um enquadramento muito bonito para quem se sinta bem entre o moderno e o antigo e que tanto dá para o modo rápido como para o modo slow (conversa fiada e confortável, com olhos fitos no séc. XIII).
        Bom sobretudo na esplanada.
        Servido pela Quinta das Lágrimas.

        1. Tudo bonito, entre o clássico e o moderno. Gostei muito, Chloé. De tal maneira que fiquei com vontade de passar um dia da próxima semana em Coimbra – é o que tenciono fazer. A minha opção para o ‘postal’ coimbrão foi precisamente o magnífico espelho d’ água. Aliás o difícil é seleccionar imagens do Mondego, magníficas muito antes de chegar a Coimbra.

          1. Só espero que nesse dia tenha sorte com o tempo. A chuva é um ‘corte’ para quando se quer apreciar qualquer cidade. O Inverno é um castigo dos deuses…

  3. Pedro
    Este é o meu preferido. Tal como a personagem da Marilyn Monroe na Paragem de Autocarro, o Mondego acompanhou parte da linha da minha vida: serra de Estrela (nasci lá perto) – Coimbra (estudar) – Figueira da Foz (parte das férias de verão).
    O Mondego tem uma poesia muito própria, mas afinal todos os rios a têm…

    1. Também eu, Ana. Parte da minha família é da zona da Serra da Estrela, que conheço bem desde muito pequeno. Outra parte é do eixo Coimbra-Figueira, que faz parte do meu roteiro afectivo. Com o rio sempre como traço de união.

  4. Agora que chegou ao meu rio, ou ao rio de quem sou mais do que à cidade que ele banha, mesmo sabendo que há afluentes e afluentezinhos, e dentro destes outras ribeiras faltam na listagem, sempre sublinho que o último afluente do velho Munda ou Mondik se chama Rio Pranto. É um nome bonito para as últimas águas que entram no verdadeiro rio, acho eu.

  5. O “meu” Mondego, a “minha” Coimbra!…
    Ame-se ou deteste-se, Coimbra é uma cidade do mundo. Irrepetível, intemporal, de uma decadência sublime…
    O rio Mondego ainda a torna mais especial…
    Você já esteve num final de tarde de Outono no Parque Verde, à beira rio?
    É absolutamente fabuloso!

    Cumprimentos.

    1. Realmente, ama-se e detesta-se. Mesmo.
      Faces da mesma moeda.
      Mas eu cá só reconheço esse ‘direito’ ao amor-ódio a quem cá vive.
      O resto é a habitual baboseira nacional
      (deve ser a primeira vez que aqui lavro uma contra o pet de estimação do DO, Pacheco Pereira… 🙂

      1. Tornou-se moda dizer mal de Coimbra, apontando-a como sinónimo de tudo quanto é retrógrado a nível nacional. Uma imbecilidade como tantas outras que vamos escutando, repetidas por mil e um papagaios, dia após dia.

  6. Rio Mondego, o rio que banha a minha cidade paixão-Coimbra-.
    Felizmente que a cidade há uns para cá que fez as pazes com o seu rio e tem permitido que passemos em familia tardes fantásticas nas suas margens.Já para não falar dos peixinhos do rio que se podem comer na estrada,velha, que liga Coimbra a Penacova.
    Para quem gosta de passar um dia bem passado na primavera pode fazê-lo secendo o Mondego de kaiake.
    abraço Pedro

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