Presidenciais (19)


Pedro Correia,

 

Sobre o caso BPN, que tem dominado a campanha presidencial, havia duas abordagens possíveis. A primeira, a abordagem política, confrontando Cavaco Silva com um núcleo nada recomendável do seu vasto clube de amigos – com destaque para o inefável ex-secretário de Estado Oliveira e Costa, financiador da campanha cavaquista de 2006. Esta foi a via seguida, com desassombro e eficácia, pelo candidato comunista Francisco Lopes no frente-a-frente com Cavaco. A segunda abordagem, a tentativa de assassínio de carácter, foi feita pelo candidato Manuel Alegre de série B nesta campanha, Defensor Moura. Aludindo ao BPN de mistura com a história requentada de um pavilhão qualquer em Viana do Castelo e outra acerca da fadista Kátia Guerreiro: tudo ao molho e fé em Maquiavel, que alguma coisa havia de se agarrar à parede. Agarrou-se o pior: um “escândalo” já noticiado pelo Expresso há dois anos em que à viva força se pretendeu recriar a biografia de Aníbal Cavaco Silva, político bem conhecido dos portugueses há três décadas, apresentando-o como um sujeito dado a negócios ilícitos e favorecimentos indevidos no exercício de funções públicas.

Manuel Alegre, que devia ter seguido o trilho de Francisco Lopes, preferiu adoptar o tom e o estilo chocarreiro de Moura – o Alegre de série B, que só se candidatou para isto. Um papel que lhe serve muito mal: o candidato a Belém apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda não é vocacionado para carregar baldes de lama destinados a adversários políticos. Conheço-o, sei do que falo: nunca até hoje o vi proceder assim.

Foi mal aconselhado por quem gosta de sentir o cheiro do napalm ao amanhecer. As companhias escolhem-se – e nesta campanha Alegre não tem nenhum motivo para se gabar das que escolheu.

12 comentários em “Presidenciais (19)”

  1. Subscrevo a ideia, apesar de não ser um republicano convicto e ser mais do centro direita, pelo que ideologicamente estou mais próximo de Cavaco, confesso que Alegre não precisava de seguir esta via e ter-lhe-ia sido bem mais frutuoso se não a tivesse escolhido em detrimento do caminho seguido por Lopes, que só não faz mais estragos por estar demasiado amarrado a um partido tão distante dos potenciais eleitores de Cavaco.

  2. Creio que o Pedro lhe faz falta.
    Agora, peço à grandeza do seu carácter – que advinho, dado que não o conheço pessoalmente – que meça bem o que diz sobre a postura de Alegre, porque se há alguém que está refém (e não é só de uma estratégia de campanha) é Cavaco Silva e não manuel Alegre.
    Leia, por favor, com atenção, isto que li noutro blog:

    “É natural que a candidatura de CS insista que o caso das acções do BNP é um tema lateral, uma campanha negra que revela o desespero da candidatura de Alegre. Em termos de gestão da comunicação política, é o posicionamento mais evidente a ter neste tipo de situações. No fundo, dramatizar e tentar que um tema altamente desfavorável não cresça.

    Mas de toda esta situação surge uma evidência ainda mais complicada de ignorar. É que se este caso não inundasse a agenda, isso sim seria de estranhar. Ora vejamos:

    1.Portugal está na situação económica que está;
    2.Apesar da penúria, foi assumida a nacionalização do BPN, um negócio ruínoso que arrepia qualquer contribuinte;
    3.No referido banco estiveram envolvidas inúmeras figuras eminentes do cavaquismo;
    4.o BPN tem vindo a revelar-se um buraco inacreditável, um antro de falcatruas e negócios ruínosos cuja factura será penosamente paga pelo contribuinte português;
    5.o ex-primeiro-ministro e, como tal, figura eminente de um dos principais partidos e eterno possível candidato a Presidente de República, consegue um negócio fabulástico de compra e venda de acções não cotadas em bolsa. Negócio este validado por um dos seus antigos subalternos e então responsável máximo do Banco.
    Posto isto, insisto: em que país do mundo democrático tal não seria encarado como um perigoso indício de tráfico de influências? Em que país do mundo democrático tal não levantaria suspeitas de favorecimento e de almoços pseudo-gratis? Em que país do mundo democrático uma história como esta não incendiaria uma campanha eleitoral?”

    1. Agradeço o seu contributo para o debate. Nesta matéria temos posições diferentes. A minha já foi aqui expressa com clareza, ao que suponho. O que não invalida que volte um dia destes ao tema. Mas o balanço a sério será feito na noite de 23 de Janeiro.

      1. Seja quem for que ganhe, há muitas leituras possíveis dos resultados.
        Mas, creio que teremos ocasião de conversar…
        Desde já lhe digo que, depois do que se vai sabendo das acções da SLN de CS, do nascer duas vezes, da superioridade moral e silenciosa em que Sexa se julga, se ele ganhar, isso pode significar que o País perdeu qualquer referência ética…o que é bem um inequívoco sinal de uma crise muito profunda de valores e muito generalizada.
        Mas, haverá tempo para conversar(mos)…

  3. Pedro
    De facto, há muitos temas que estão ausentes desta campanha. Por isso, em 2010/2011 temos uma campanha presidencial sui generis.
    Porque motivos o tema “salário máximo” não é discutido na campanha?
    Só falam do salário minimo.Porquê?
    Colocámos esta questão em
    http://o-andarilho.blogspot.com
    Pedro
    Esta campanha está a deixar os portugueses (as) sem pachorra para certos candidatos. Depois não se queixem que o “partido abstenção” foi o “vencedor” das eleições e os jovens se afastam da política.

    1. Caro António Eduardo, ainda esta semana abordarei esse tema, que muito me preocupa e parece preocupar pouco alguns dos nossos políticos: a abstenção.
      Um grande abraço.

  4. Apesar de não apreciar Manuel Alegre como politico, não estava à espera que ele tivesse este tipo de comportamento à la Louçã.
    Parece não oferecer duvidas a ninguem que Alegre optou pela estrategia do Bloco de Esquerda, e aos 70 anos de idade vê-se a fazer estes tristes papeis. Que aliás continuam, basta ouvir as suas declarações de hoje sobre a eventual entrada do FMI em Portugal, e “os seus (do FMI) cumplices cá dentro”. Ficamos todos a saber que para um candidato a Presidente da Republica Portuguesa, o FMI é um bando de delinquentes, com cumplices nos paises onde intervem, sempre a solicitação dos respectivos governos. Muito elucidadivo.
    Mas nem tudo são más noticias: Mourinho sempre é “O Melhor Treinador de Futebol do Mundo”!

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