Presidenciais*


José Meireles Graça,

Nas recentes eleições autárquicas quis-se ver um grande significado nacional. E como o Chega, a novidade, juntou a correr um ramalhete de personalidades que não tinham relevo, nem ligações locais, ou paraquedizou umas figuras nacionais que pareciam, e eram, depositárias de um palavreado ideológico que não falava em jardins, ou saneamento, ou recolha de lixos, ou habitação, ou IMI, o resultado foi relativamente medíocre.

Quando, como em Loures, o candidato do PS se cheguizou no discurso, num assunto que tinha importância local, ganhou. Mas como o PS não se vai, nacionalmente, cheguizar, nada verdadeiramente mudou em relação às últimas legislativas. A ideia de que regressamos ao bipartidarismo é assim wishful thinking e não mais do que isso. A menos que o PSD se dedique de alma e coração à tarefa de esvaziar o Chega comprando-lhe as bandeiras (coisa que evidentemente fez no problema da imigração), a tendência recente acentuar-se-á e em qualquer caso o PS vai fazer uma cura de águas duradoura para a Oposição, o que só lhe fará bem e a nós.

As presidenciais são vinho de outra pipa e põem às pessoas de senso um problema.

Depois de Marcelo de nenhum presidente se poderá imaginar que pode ser pior, donde até mesmo Marques Mendes, o mais marceléfilo de todos, pode ser incluído na lista de presidenciáveis. Nenhum, vírgula, que António Filipe ou Catarina Martins seriam piores, mas o primeiro é o simpático guardião de uma ideologia mumificada e a segunda enfermeira de um doente em coma irreversível. Recentemente o Livre, achando que de candidatos quanto mais melhor, também apresentou o seu, esquece-me agora o nome. Ignoro neste momento se o PAN também apresenta candidato, dúvida que o meu Cacau poderia esclarecer – mas não estou para lhe perguntar. Já Cotrim seria imensamente melhor que todos estes mas a função não casa com o perfil da personagem, nem com a sua imagem, nem com a sua carreira, nem a Presidência é o lugar para fazer avançar ideias liberais, mesmo que o país delas esteja muito carecido. O PS regressará um dia (longínquo, espero) porque a democracia faz-se, entre outras coisas, de alternância, mas o PS de Costa, ou Pedro Nuno, ficará bem no armário das velharias.

Quem desconfiar do europeísmo cego, do bem-pensismo de esquerda moderninha (vulgo social-democracia caseira), do wokismo larvar em questões como racismo, igualdade de “género”, discriminação positiva de minorias, defesa do folclore LGBTurbo, e toda a parafernália das causas, deve pesar bem o seu voto porque todos os candidatos (salvo Ventura, que todavia em cinco dos sete dias da semana é socialista na economia) sofrem em maior ou menor grau destas escaras no corpo são do recto pensar, mas nem todos têm a vontade de respeitarem os limites que a Constituição põe ao exercício dos seus poderes, e que os transforma em reis constitucionais a prazo.

Além de Marques, há três com potencial para ganharem, e são eles o Almirante, Ventura e António José Seguro.

Marques é apresentado como tendo uma vasta experiência política, implicitamente se querendo dizer que isso é uma grande vantagem. Tem, é inegável, mas de rodilhices, leva-e-trás politiqueiro, manobras, declarações e discursos, tudo pilotado pelo apalpar ansioso do pulso da opinião pública, tentando sempre agradar ao maior número e passar a mão pelo dorso do patrioteirismo. O Professor serviu-nos disso durante dez anos, seria desejável que, escarmentados, não fôssemos acabrunhados com mais dez do aluno.

Do Almirante ouvem-se declarações sobre tudo e um par de botas, e o tudo é um chorrilho de banalidades que se destinam a comprar o centrão eleitoral, para o que veste o seu activo para a corrida: uma farda e o seu brilhante desempenho como enfermeiro-mor da Nação. Porém: A farda não desqualifica ninguém para o exercício de funções mas também não qualifica; e a capacidade para liderar uma task-force para um programa que foi apresentado como um desígnio nacional que justificava o atropelo de várias liberdades constitucionalmente garantidas assegura que o Almirante tem condições para comandar um submarino por baixo do Ártico ou liderar uma missão humanitária no Sudão, mas só isso. Ser o pináculo do Estado e árbitro do jogo constitucional de poderes é outra coisa.

Ventura não é candidato à presidência da República mas à visibilidade que lhe dará a campanha. E, se ganhasse, seria uma grande desgraça para a crescente massa de apoiantes do Chega porque nem o Presidente pode liderar um partido nem este tem segundas figuras que se possam afirmar como primeiras. Poder-se-ia julgar que Ventura, na presidência, daria um suplemento de alma a algumas mudanças que o Chega encarna e que são necessárias. Mas quem tem poderes legislativos é sobretudo a AR, e quem os tem executivos é o Governo. E são portanto esses órgãos, e não a presidência, agentes da mudança. Depois, a função, por muito que Marcelo a tenha desvalorizado, tem uma componente de gravitas da qual Ventura não dispõe.

Resta António José Seguro. Deu sobejas provas de independência porque não hesitou em subordinar as suas possibilidades de êxito na carreira política às suas convicções, pelo que não foi um áulico de Sócrates; de soldado disciplinado porque tendo sido injustiçado não veio para a praça pública esbracejar contra os que (como Costa) o esfaquearam; e de modéstia porque nunca cultivou obsessivamente a presença na comunicação social. É inequivocamente um homem sério e talvez seja um homem bom, ainda que muitíssimo chato. Não faz mal, quando falar muda-se de canal na certeza de que enquanto vemos um filme ele está a cuidar de não fazer, nem dizer, asneiras.

É socialista e o PS vai apoiá-lo? Sim, a perfeição não é deste mundo, e ademais o apoio é pouco sincero. Mas não será um obstáculo às mudanças que maiorias e governos legítimos queiram operar; não acredito que seja no palco pessoa diferente da que é nos bastidores; não se toma por homem providencial; e, sobretudo, não acho que leve para Belém o seu PS de sempre.

Tem algumas companhias sulfurosas, como a pasionaria do asneirol Ana Gomes? Tem.  Mas não deixo de ir a um restaurante que serve bem lá porque na clientela há alguns indesejáveis.

Para mim, até mais ver, isto basta. E, se ainda aparecer outro melhor, cá estou.

* Publicado no Observador

19 comentários em “Presidenciais*”

  1. Depois de me inteirar dos prós e contras de todos eles, que a sua crónica apresentadora dos candidatos me elucidou, a minha preferência tornou-se incomparavelmente mais lúcida do que antes.
    Acho que o Almirante tem os olhos mais bonitos.
    Votos de um excelente fim-de-semana.

    1. “Presidente de nada” é um excelente trabalho para o Tózero, como lhe chamaram assassinamente os costinis. E com o Seguro a presidente, o Costa não arranja tacho nem como capacho. Só por aí já vale a pena

      1. Olari… voto nisso. Se conseguir que o Costa Poucochinho e a sua ganga ( incluída essa tal do asneirol) não voltam à mesa do poder, voto pelo Seguro. Pelo seguro.
        Ou até Cotrim… porque sim!
        Ou até no Gouveia & Mello, porque um tipo que sabe navegar (ainda por cima em apneia) é sempre muito útil.
        O Mendes não me diz nada. É muito rasteiro.

    1. Un escándalo sacude al periodismo mundial.
      Una filtración interna reveló que la BBC manipuló el discurso de Donald Trump del 6 de enero de 2021, cortando y uniendo frases para hacerlo parecer un llamado a la violencia.
      El resultado: una narrativa falsa transmitida al mundo entero, justo antes de las elecciones de 2024.

      Tras la exposición del caso, renunciaron el director general de la BBC y la jefa de noticias, mientras que Trump prepara una demanda de mil millones de dólares por difamación.
      Pero más allá de la polémica, este episodio plantea una pregunta crucial:
      ¿quién controla la verdad en la era de los grandes medios y las redes globales?

      En este nuevo episodio de América Revelada, analizamos los documentos filtrados, las renuncias, las reacciones del gobierno británico y la respuesta de Trump.
      Una historia que va mucho más allá de una edición de video…
      👉 Es una advertencia sobre cómo el poder mediático puede moldear lo que el mundo cree que es real.

      Canal América Revelada en espanhol

      https://youtu.be/ihXXqcBkqv8?si=4B6BvH5x9Q3CjyL0

  2. > ele está a cuidar de não fazer, nem dizer, asneiras.

    Bem resumido, e é bem capaz de ir a presidente por aí.

  3. V.Exª tem qualquer problema de memória e isso tem remédio, tome memofante.
    De vez em quando resvala para a mediocridade e é pena porque escreve bem.
    Obcecado com as múmias, metralha num sujeito que foi o melhor após o 25 de Abril.

    1. Vou falar nisso ao meu médico de família, mas receio que ele tenha embaraços para concordar com o seu diagnóstico uma vez que decerto ignora quem foi esse sujeito “o melhor após o 25 de Abril”. E eu não o posso ajudar porque também não estou ao corrente. A Maria vem para aqui fazer segredinhos, sem cuidar dos danos que pode causar à minha saúde, que acha, provavelmente com razão, já abalada. A verdade é que possivelmente não é apenas a memória que já viu melhores dias: veja lá que ainda hoje andei denodadamente à procura dos meus chinelos de quarto, desesperado porque não se encontravam no sítio habitual, tendo acabado por me dar conta de os ter nos pés. Estavam afinal à mão, por assim dizer. Talvez a Dra. Maria possa, com generosidade, aconselhar outro medicamento que eventualmente possa ajudar neste desnorteamento.

        1. Ainda estou por descobrir o que tem a Kika contra as mulheres.
          Não me diga que é assim tão gorda que não possa ver uma mulher jeitosa emitir opinião.
          Menos hidratos e mais exercício que os nervinhos eclipsam-se.

      1. Reli o seu texto e assumo que a referência a múmias não as sinalizei bem. Questão de vírgulas.
        Na verdade muitos por dor de cotovelo e sem moral apreciável, referem-se a pessoas que são um exemplo ( com defeitos certamente) , como múmias, num bota abaixo de desclassificação a quem deu provas capitalizáveis da sua governação o seu melhor a Portugal.
        Relevo o meu erro.

  4. Caro José Meireles Graça…

    Estive a ler o seu interessante e bem humorado texto,
    com a máxima atenção, e fiquei muito satisfeito pela
    sua opção pelo André Ventura.

    Dos nomes que enunciou, é o único que se interessa
    por Portugal e pelos Portugueses.

    Como em Portugal, os nomes das pessoas falecidas
    não são retirados imediatamente das listas que vão
    para as secções de voto, é possível que os resultados
    “oficiais” não correspondam aos verdadeiros resultados.

    Ao contrário do que acontece em outros países europeus
    e não só, onde as urnas são em acrílico transparente
    e estão devidamente seladas, em Portugal as urnas são
    em ferro pintado de preto e a selagem é feita com umas
    abraçadeiras em plástico branco fáceis de retirar e de voltar
    a colocar…

    Portugal é um País onde a abstenção varia entre os 40% e os 60%.
    Uma parte são pessoas falecidas (ver supra) e as outras são pessoas
    que não vão votar por várias razões.

    Normalmente, nas secções de voto só estão cinco pessoas:

    1. Presidente.
    2. Vice-Presidente.
    3. Vogal.
    4. Vogal.
    5. Vogal.

    Os pequenos partidos têm alguma dificuldade
    em ter representantes nas secções de voto.

    Não existe uma fiscalização independente feita às secções de voto.

    As pessoas que estão nas secções de voto,
    quase sempre as mesmas, podem, em conluio,
    após o “encerramento das urnas”, preencher
    uns boletins e riscar uns nomes das listas.
    Outra maneira de falsificar os resultados
    é colocar X (xis, erradamente designados
    por “cruzinhas”) em boletins com “voto em branco”.

    Voltando ao André Ventura.

    Todos os partidos políticos estão contra o Chega!.
    O André Ventura é o Presidente do Chega!.
    Todos os partidos políticos estão contra o André Ventura.

    Premissas certas e conclusão também.

    Espero que o André Ventura seja eleito Primeiro-Ministro,
    nas próximas eleições legislativas e, noutras eleições presidenciais,
    Presidente da República. Será bom para Portugal…

    P. S.: Eu sei que não vai votar no André Ventura.

    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

    1. “Eu sei que não vai votar no André Ventura.”

      E faz muito bem o José Meireles Graça. Estou com ele.

      De resto, quem é que, tendo “os cinco alqueires bem medidos”, como diriam as minhas avós beirãs, votaria numa figurinha tão aberrante como a do “querido líder”?

  5. 📮 Carta Aberta ao Caríssimo Cronista

    Vinha eu na minha vida, no meu recato, a dar as minhas aulas, a escrever os meus livros sobre a Reforma do Parlamento Português – um tema, convenhamos, que atira multidões para a rua – e eis que sou confrontado com uma análise que, no meio de tanta palavra escorreita, lá me crava a etiqueta de “chato”.
    Felizmente a Nação já foi vacinada e agora está imunizada
    Quanto às suas escaras sobre o “wokismo larvar”, o “folclore LGBTurbo” e a parafernália das causas: relaxe. A função de Belém não é deslindar o “recto pensar”, mas sim zelar pela Constituição. Que, convenhamos, é um documento chato. Por isso, encaixo que nem uma luva.
    De toda a maneira agradeço a sua honestidade brutal para chegar a uma conclusão (a minha candidatura) depois de ter passeado por todos os outros cantos da taberna.
    Já que sou eu o que menos estraga a loiça.
    Que tal relaxar enquanto assiste no sofá à minha tomada de posse?

    António Zé Seguro(O Chato, Agradecido)

  6. Muito bom, certeiro esmiuçar das caricaturas ambulantes que temos como candidatos. Todos.

    Vejo que ainda considera o Chega “a novidade”… o que será, formalmente falando. Mas a fartura de exposição, desmandos e quadros revisteiros avulsos, já lhe retiraram toda a frescura, é uma novidade padecente de progeria; ou de modismo, como as socas-plataforma e outras tendências de mau gosto.
    E não consigo ligar a figura de António Filipe à palavra “simpático”, nem ironicamente: há nele qualquer coisa de baixa mordacidade que mo impede.

    Resta-lhe então o Seguro. Enfim, como provavelmente restará a todos nós, pois que remédio.
    Mas nunca supus que fosse sequer uma opção para o José Meireles Graça, conseguiu surpreender-me. E não apenas por ele ser socialista, mas por ser tão pouco combativo, tão melindroso, tão… alforreca. Que serão talvez qualidades na contingência certa?

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