Presidenciais (21)


Pedro Correia,

 

 

Se há coisa que considero intolerável, numa campanha eleitoral, é ver um candidato conduzir uma brigada de jornalistas para o interior de creches, jardins de infância, centros de dia e lares de idosos. É indecorosa a exploração das imagens de meninos e velhos para efeitos eleitorais. Ontem lá tivemos a dose do costume deste jornalismo preguiçoso e reverente, que adora dar voz à ignorância dos cidadãos. “Sabe quem é aquele senhor?”, perguntava uma repórter a uma velhota, a poucos metros do candidato Fernando Nobre. “Não sei”, respondia a atrapalhada senhora, quase pedindo desculpa, como se receasse decepcionar a jornalista.

Que tem isto a ver com política? Nada. Que tem isto a ver com jornalismo? Coisa nenhuma.

Mas o pior aconteceu também ontem, quando Defensor Moura levou os jornalistas a um centro que acolhe jovens deficientes. Certamente nenhum vota a 23 de Janeiro, mas isso não inibiu alguns repórteres de lhes revelar os rostos e recolher declarações de vários deles. Nada que incomodasse o candidato que vive em Viana do Castelo. Depois disso – pasme-se – Moura “deu um passeio improvisado na rua onde mora”, registou a arguta reportagem televisiva. Facto extraordinário. Só faltou esclarecer se levava algum cãozinho pela trela.

18 comentários em “Presidenciais (21)”

  1. Caro Pedro,

    Dia 16 haverá mais, talvez da campanha que menos espera….

    “Dia 16 Janeiro:

    Visita à Casa São João Deus (Casa de Saúde)

    17h00
    Barcelos”

    In Agenda Campanha Cavaco Silva….

    Agenda Campanha Cavaco Silva

  2. Este aproveitamento nunca falta nas eleições, mas ontem a reportagem do Defensor de Moura bateu muito do que me lembro, sobretudo na parte do centro de jovens deficientes.
    Quanto ao passeio na própria rua, tenho de confessar que quando vi pensei em como seria se eu alguma vez quiesse ser candidato deste género, arranjasse as assinaturas (nem imagino como) e depois fosse dar um passeio aqui à volta de casa com os jornalistas atrás… Quem poderiam tentar entrevistar? As vacas? Algum boi? Meia dúzia de javalis? Todas as ginetas do montado? Os meus cães, se também eles fossem no passeio? Alguma águia que voasse mais baixo? O ouriço-cacheiro domesticado? Se fosse Inverno, talvez se desenrascassem com esta rela http://floresta-do-sul.blogspot.com/2008/12/por-momentos-pensei-que-era-o-marcelo.html

  3. Insisto, a candidatura de Defensor de Moura esconde algo: Não faz campanha e não quer votos. O que quis? O tempo de antena televisivo pré/campanha que lhe foi dado sem saber ler ou escrever (1%). Coisa que nunca aconteceu em Portugal pós/25/Abril.

    1. É um candidato que se limita a passear na rua onde vive e tem direito a notícia por isso. Um candidato que se limita a ir ao local de trabalho (neste caso o Parlamento) e consegue ser notícia também por isso. Um candidato que continua sem explicar por que motivo verdadeiramente se candidatou.

  4. Tudo isto é um bocado sinistro, mas estou com o 1º comentador e mais um bocadinho: jornalismo de licenciados, pagos à peça para fazerem o que lhes mandam os digníssimos editores. Já repararam que a maior parte das direcções editoriais têm assento nas respectivas administrações?
    Nada promíscuo, bem entendido.

    1. O problema é a falta de exigência em toda a escala hierárquica, António. Mas é em última análise ao repórter no terreno que compete dizer: «isto não mostro» ou «disto não falo». Falo por experiência própria: já fiz muitas campanhas eleitorais como jornalista.

      1. Também eu, Pedro, e, obviamente, tem toda a razão. Só que eu tinha mais de 30 anos e não estava num afã de segurar um lugar a qualquer custo. Hoje saem da faculdade com 23/24, mal preparados, e se não fizerem como se lhes pede acabam na frente-loja do super do bairro… E depois, quer queiramos quer não, as Tv’s «pedem» esse tipo de partes gagas. É o preço da imagem, que é perverso por natureza. Então a TVI (eu sei, é o pior exemplo) não vai «entrevistar» o Carlos Castro com uma suposta médium?…

        1. Essa não vi nem ouvi (nem quero). Já basta o que basta. O consumidor exigente pode e deve fazer as suas escolhas. Condicionando assim, tanto quanto pode, os critérios editoriais.

  5. Também vi essas imagens e acho lamentável. É como dizes, Pedro, chocante, o aproveitamento político feito no interior de instituições de solidariedade social (esta, em questão, altamente subsidiada pela Segurança Social) sem que os seus utentes tenham com isso qualquer vantagem, e muito menos lhes seja pedida autorização para serem figurantes de reportagens improváveis.

    1. Pois, Rui. No fundo, estamos aqui a falar de um direito constitucionalmente protegido, o direito à imagem, claramente violado à boleia de um candidato presidencial. É inaceitável. No mesmo dia, vi uma reportagem de outro candidato num jardim de infância. Aqui houve ao menos o cuidado de desfocar a imagem dos miúdos – e muito bem.

  6. Também vi esse vótimo televisivo.
    Sendo irmão de uma deficiente profunda, como se poderá calcular, a revolta foi ainda maior.
    Este senhor tem feito uma campanha indecorosa.
    À base de ataques pessoais, de episódios rídiculos, de aproveitamento despudorado dos minutos de fama que a campanha presidencial lhe permite conseguir.
    Ainda assim, e já não surpreendendo muito alguma baixeza, ontem excedeu-se.
    E, como bem se refere no post, aqueles senhores que trabalham em órgãos de informação (não são jornalistas, Pedro; trabalham em órgãos de informação, que é coisa bem diferente), foram atrás do senhor, de uma forma absolutamente servil e patética.
    Para preencher as tais estatísticas que permitem depois concluir que todos os candidatos tiveram o mesmo tratamento?
    Ou seja, que todos dispuseram do mesmo tempo de antena?
    Só pode ser essa a explicação.
    Porque o interesse jornalístico daquela visita é absolutamente nulo.
    Falou alto a emoção, Pedro.

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