Presidenciais (23)


Pedro Correia,

  

 

Lembro-me bem da emoção e do sentido de responsabilidade que senti ao votar pela primeira vez, aos 18 anos. O cuidado que tive ao analisar programas eleitorais e propostas dos candidatos – a “politizar-me”, como então se dizia. Lembro-me bem da sensação de que, do ponto de vista da participação cívica, acabara de transpor uma etapa fundamental, atingindo a idade adulta.

Falo hoje com jovens de 18 anos e não encontro nada disso. Não sabem nada de política, não querem saber, não tencionam votar nem conhecem nenhum amigo que pense fazê-lo. Chegámos a isto, em pouco mais de três décadas de regime democrático.

Gostava de ver debatido nesta campanha o tema – cada vez mais preocupante, cada vez mais urgente – do progressivo divórcio entre os jovens e a democracia participativa. Nenhuma instituição sobrevive sem rituais – e nenhum deles é tão relevante como o voto. Acontece que os jovens portugueses – à semelhança do que vem sucedendo na generalidade dos países europeus – não votam, em larga percentagem, sem que isso pareça causar a mínima preocupação aos candidatos nem aos comentadores enredados no politiquês dos serões televisivos. Os políticos falam para serem escutados pelos comentadores e estes falam para serem escutados pelos políticos, num circuito fechado que apenas contribui para pôr os eleitores ainda mais à distância.

Pressinto que estas serão umas presidenciais marcadas pela maior taxa de abstenção de sempre, com destaque para a abstenção dos eleitores com menos de 30 anos.

Há seis candidatos, com uma média de idades de 63,6 anos (o mais velho tem 74 anos, o mais novo tem 55). Até agora, não ouvi uma palavra de qualquer deles sobre a deserção dos jovens. Apesar de poucos temas terem a gravidade que este tem.

10 comentários em “Presidenciais (23)”

  1. A educação cívica e exercício da cidadania (conceito lato) na escola não entram. Disciplina de 1 hora por semana, e pôr o pessoal a votar ainda que por puro ensaio ou mesmo a valer para os mais crescidos. A juventude nem deserta, é mal armada.

    1. Mal armada, mal amada. Os políticos, com o seu discurso permanente dos ‘direitos adquiridos’, esquecem por sistema aqueles que à partida não têm direitos de espécie alguma, os mais jovens. Cada vez mais condenados pelas circunstâncias de novo à emigração, como acontecia na geração dos avós e bisavós.

  2. a juventude de hoje só pensa em droga,sexo,roubo,etc demau.esquecem-se dos interesses do país,em especial na construção do seu voto,é triste vermos a nossa juventude muito crua,cheia de ilusões maléficas

  3. Acredito que a taxa de abstenção seja recorde. Mas desta vez duvido que seja o descaso da juventude a agravar a abstenção: Votar em quem? Um comunista, um ex-comunista simpático e confuso, um santo homem cheio de boas intenções convencido que o País não é muito diferente de um campo de refugiados, um poeta revolucionário recesso crente que o País precisa de estrofes e proclamações, um guarda-livros calculista, estatista e limitado … Votar em quem? Nã, eu vou é curtir com a malta.

    1. Ainda bem que há mais quem pense como eu. Vejo os ‘comentadores’ tão descansados a este respeito que às vezes me questiono se só eu andarei preocupado com estas deserções em massa das urnas, que poderão desembocar bem sabemos onde.

      1. Também penso como tu, com uma única e pequena diferença – a abstenção, para mim, que tenho mais de 18 anos, é menos o resultado de uma desilusão do que uma forma de descumplicidade; não é elegante falar do fracasso de um regime económico e a seguir dar aval ao político que o aguenta

  4. Sim, eu também me pergunto porque é que os políticos europeus nada fazem para acabar com este “divórcio” entre os jovens e a política. Sei que é difícil incutir-lhes motivação (aos jovens), mas certamente não impossível!

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