Presidenciais (24)


Pedro Correia,

 

 

Há cinco anos, todos os cenários jornalísticos estavam montados para uma bipolarização nas eleições presidenciais. Para muitos comentadores e vários jornalistas que tomavam decisões editoriais, apenas dois candidatos contavam: Cavaco Silva e Mário Soares. Esta é a lógica do sistema: raciocinar em dicotomia simples. Ou simplista. Um cenário que envolva mais que duas opções faz confusão a muita gente. Porque, tal como nas brincadeiras de crianças, é sempre mais fácil catalogar os políticos em duas categorias: os bons e os maus. Índios e cobóis, polícias e ladrões. Os bons são os nossos, os maus são os deles.

Nem o melhor jornalismo escapa a esta lógica maniqueísta. Só isto explica que o Expresso tenha publicado uma edição de 40 páginas a uma semana das presidenciais sem mencionar numa só linha o candidato Fernando Nobre, subitamente riscado da corrida a Belém em nome de critérios “jornalísticos” semelhantes aos que levaram os apaniguados de Estaline a apagar as imagens de Trotsky das fotos da Revolução de Outubro. O mesmo maniqueísmo que levou um comentador como Daniel Oliveira (também com coluna no Expresso) a proferir quatro vezes seguidas, como se martelasse uma evidência, a frase “há dois candidatos” na última emissão do Eixo do Mal. À força de tantas vezes repetidas, certas inverdades perdem o prefixo.

Vários destes jornalistas e comentadores são os mesmos que em 2006 não conseguiram digerir o segundo lugar obtido nas urnas por Alegre, com um milhão e 125 mil votos, correspondentes a 20,7% dos sufrágios. Ainda hoje devem interrogar-se: como foi possível um candidato presidencial não apoiado por qualquer partido político ter chegado tão longe?

Não aprenderam nada em cinco anos.

 

ADENDA. Clara Ferreira Alves na mesmíssima edição do Expresso: “Nunca foi tão visível o empobrecimento intelectual do jornalismo e da política.” Pois.

13 comentários em “Presidenciais (24)”

  1. Pedro, concordo inteiramente consigo. Há uma construção dualizada que impõem aos outros. Maniqueísmo. Os bons e os maus. Etc. Etc., vamos sendo um país de uma grande franja de analistas…tolos. O mais interessante é que são reconhecidos. Quando uma gente desta não dá mais…

    1. Cuidado com quê? Cavaco é PR há cinco anos. Só se tivermos cuidado com um Presidente que promulga todos os diplomas do Governo. Se for isso, não posso estar mais de acordo.

  2. Pedro,
    A filha de Fernando Nobre, Isabel Nobre, em Macau há dois meses, concede hoje uma entrevista ao “Ponto Final”, à qual faço referência no meu blogue.
    Seria bom que os nossos comentadores políticos olhassem para Fernando Nobre.
    E lessem a entrevista de Isabel Nobre.
    Sobretudo na passagem em que alude ao facto de o pai ter sido incentivado para se candidatar.
    Por gente que depois lhe voltou as costas.
    A quem se estará a referir?

  3. Carissimo,

    Excelente POST.

    Tudo reflexo do muito pequenininho que somos. País, Povo, mentalidades, afins e derivados.

    E claro que o lamento dizer. Mas apenas constato. Ou antes re-constato…

    Forte abraço,

  4. O ‘Expresso’ está a ficar abaixo de cão-vadio. O que fizeram a Fernando Nobre foi vergonhoso por terem sido ordens, indicações, sugestões, cunhas, e outros sinónimos para riscar o candidato-surpresa.
    Acontece que Nobre tem vindo a aumentar a sua base de apoio dia após dia. Não me admirava que fosse ele a conseguir ser o segundo mais votado.
    O mesmo ‘Expresso’ também trouxe à estampa, na última edição, uma “caixa de embrulho” sensacional. Uma “não notícia” sobre o submarino avariado, sem ninguém saber naquele jornal que uma unidade naval sofisticadíssima como um submarino, em qualquer parte do mundo navega durante um ano em testes, a fim de detectar qualquer anomalia que é prontamente rectificada. Por isso, é que há garantias…

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