Qual TGV qual quê?!?


João Carvalho,

Sou dos que desaprovam os grandes empreendimentos não-produtivos e sem retorno, que requerem grande endividamento externo e importação de tudo o que precisam. Não raro, contrapõem-me que o TGV, pelo menos, se justifica plenamente, por sermos periféricos e nos aproximar da Europa. Pois o TGV, quanto a mim, é exactamente o exemplo do que me parece dispensável. Com crise ou sem crise. Até por sermos um país periférico, porque se estivéssemos numa situação central eu ainda entenderia a utilidade de ligar duas fronteiras opostas, para não interromper a corrente exterior de ambos os lados.

Nem sequer o Porto e Lisboa precisam do TGV para estar mais perto. Basta uma linha adequada ao actual Alfa Pendular (cuja velocidade cruzeiro de fábrica é de 220km/hora). O mesmo para ir até à fronteira Norte e ligar-nos à Galiza, ou para nos levar até ao Algarve. O próprio Jorge Coelho já um dia reconheceu publicamente que o elevado investimento na renovação da linha férrea Porto-Lisboa foi um autêntico desastre. Reconheceu, sim, mas a culpa voltou a morrer solteira.

Falta acentuar que Portugal não é apenas periférico, mas também um território estreito, na distância transversal entre o mar e Espanha. Ora, se o Alfa tivesse uma (ou mais) linha(s) adequada(s) a cruzar o País entre o litoral e a fronteira Leste, para ligação ao TGV espanhol e a Madrid, ninguém se queixaria da diferença entre o TGV vizinho e o nosso confortável Alfa, com uma distância tão curta para percorrer (à velocidade recomendada).

O problema é que Portugal não tem investido em caminhos-de-ferro coisa que se veja e, quando o fez (Porto-Lisboa), foi um fracasso ao preço do ouro. Sabem que mais? Deixem as autoestradas e apostem na linha férrea nacional — maior economia, menor poluição, menos acidentes e vantagens para as mercadorias — que devia ser um bem essencial e é uma vergonha.

Curiosamente, tenho reparado que, de um modo geral, muita gente concorda com os argumentos que descrevi. E concluem, teimosa e invariavelmente: mas o TGV faz falta! Não há pachorra! Prefiro os que discordam e me saibam explicar porquê.

Ainda por cima, o TGV não serve a indústria e o comércio, nem as exportações e as importações. É só para pessoas, para uma minoria que quer e pode viajar. Lazer, enfim. Parece-me pouco, muito pouco. Não podem gastar mais uns 15 ou 20 minutos entre Lisboa e a Galiza? Entre Faro e o Porto? Entre Lisboa e Madrid? Em suma: alguns não podem gastar mais uns minutinhos, mas todos podemos gastar mais uns milhões? Ah!!! Então desculpem lá. Julguei que estávamos a falar do desenvolvimento do País…

Categorias tgv

23 comentários em “Qual TGV qual quê?!?”

  1. Que o TGV será um elefante branco ninguém duvida. Pretende-se fazer passar a ideia de que os muitos milhões necessários ao entrar na economia terá um efeito de crescimento económico, mas isso só se aplica para os países fornecedores da tecnologia necessária nomeadamente do material rolante. Que cá fique ficam os ordenados dos senhores da raquetes que irão controlar o trânsito junto às obras.
    Teria muito muito mais impacto dezenas de projectos de média dimensão que um mega-projecto que já se sabe ser ruinoso. Falo por exemplo de mini-hídricas que contribuiriam para autosuficiencia energética e para as reservas de água. Seriam distribuídos por todo o território e incorporaria muitos mais recursos nacionais.

      1. Consta que existe a possibilidade do TGV português ser de cor amarela. Assim reduz-se a probabilidade de se tornar um elefante branco. Mas que será um elefante de cor clara, ninguém duvida!!

  2. Já conhece a minha posição ( egocêntrica) acerca do TGV, mas queria sublinhar que estou perfeitamente de acordo em relação à necessidade de investir mais em linha férrea do que em auto-estradas. É uma questão de bom senso e uma medida de protecção ambiental.
    Quanto ao facto de o TGV não servir a indústria e as exportações e importações é que não estou muito de acordo.
    O terminal de mercadorias vai ficar em Portugal, provavelmente com um ramal a Sines e poderá levar a que Portugal se transforme na porta de entrada da Europa para mercadorias vindas especialmente do outro lado do Atlântico, mas também de África, até porque portos como Roterdão estão a ficar saturados e sem capacidade de crescimento.

    1. Eu sei, Carlos. Dar um pulinho ao fim da tarde a Madrid para jantar e voltar na mesma noite deve ser engraçado. Mas não deixaria de o ser se a viagem de Lisboa à fronteira (e vice-versa) fosse num Alfa Pendular. Mais quê? Uma meia horita com todo o conforto?

      Quanto às mercadorias, esqueça: nunca o TGV foi um transporte misto. Nem poderia ser. De resto, já ouço falar da saturação de Roterdão há muitos anos. É como a saturação da Portela: cada vez há mais ‘slots’…

  3. Portugal corre o sério risco de não encontrar um número suficiente de investidores para absorver os títulos de dívida pública que terá de emitir este ano para financiar o pacote de medidas de combate à crise.

    (Daniel Gros em entrevista ao Jornal de Negócios).

  4. A economia não está para diversões
    como acontecia recentemente,
    os negócios de puras ilusões
    desmoronar-se-ão severamente!

    Com a dívida externa a aumentar,
    fruto de políticas erradas,
    não haverá dinheiro para financiar
    as obras faraónicas anunciadas.

      1. Quem não tem dinheiro,
        não tem vícios,
        no nosso mirrado mealheiro
        só encontramos resquícios!

        Em relação a obras faraónicas,
        que iluminados gostam de anunciar,
        deixo as seguintes palavras lacónicas:
        TGV nem pensar!

  5. Subscrevo. Mas já se percebu que a prioridade não será essa. Será novamente o asfalto: estradas e mais estradas e mais estradas. A norte por ser de norte, a sul do Tejo, no «deserto» de Mário Lino, para sacar votos, e não se ouve uma palavra sobre a modernização das linhas férreas que permitiria ao Alfa desenvolver a sua velocidade natural ou o desenvolvimento dos comboios de mercadorias. Porquê? Porque isso não dá votos. Só por isso.

  6. Totalmente Pró-Post!

    Adivinho que tudo ficará indiscutivelmente decidido, não vá o diabo tecê-las, uma meia dúzia de dias antes das próximas eleições…

  7. Há muito que digo o mesmo. Aliás, até tenho um modelo simples para uma rede ferroviária decente. Linha por Faro-Beja-Évora e depois a ir dar Alcochete (se lá vão colocar o aeroporto, é bom sítio para nó ferroviário, creio). Depois uma linha segue para Lisboa, outra para Santarém e outra para Portalegre. A partir daí seguem duas linhas em “escada”, com uma no litoral (Santarém-Leiria-Coimbra-Aveiro-Porto…) e outra pelo interior (Portalegre-Castelo Branco-Covilhã-Guarda-Bragança), com ligações litoral-interior (portalegre-Santarém, Leiria-Castelo Branco, Coimbra-Covilhã, Aveiro-Viseu-Guarda, Porto-Vila Real-Bragança).

    Seria oneroso? Claro, mas estou convencido que não muito mais que o TGV e daria muito mais retorno que essa alta velocidade (sou completamente a favor da velocidade alta, 200 a 250 km/h chegam bem).

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *