Cavaco Silva só terá percebido que o silêncio sobre o caso das escutas estava a beneficiar o PSD, quando MFL e Paulo Rangel tentaram aproveitar-se das suas declarações de sexta-feira para lançar ataques patéticos ao PS e a Sócrates. Com a lhaneza que lhe é habitual, MFL repisou a tecla da asfixia democrática. Como se estivesse a tomar chá num grupo de amigas, pegou no cardápio das difamações e desatou a lançar suspeitas. Não querendo ficar isolada, chamou Paulo Rangel e disse-lhe para comparar Sócrates a Chavez. Em MFL já nada me espanta…
Quanto a Cavaco, o seu silêncio é preocupante. Se um PR não consegue perceber o que todos os portugueses perceberam, o que poderemos esperar dele no futuro?
Não suspiro aliviado com a demissão de Fernando Lima, porque ela não encerra o caso. Como disse Paulo Portas, a demissão é clarificadora mas, em minha opinião, fica por esclarecer a responsabilidade do PR neste caso.
Os portugueses têm o direito de conhecer todos os contornos deste caso escabroso. Exibir em praça pública um culpado, entregando-o ao julgamento do povo, pode ser-lhe favorável neste momento mas, mais tarde ou mais cedo, não deixará de ser emulado. Cavaco resistirá, no máximo, até 2011, e ficará na História como o primeiro PR que não foi reeleito. Por muito que alguns dos seus admiradores se esforcem na tentativa de branquear a actuação de Cavaco, chamando à liça casos que não podem ser comparados, o futuro do actual PR está traçado.
Só Fernando Lima poderá salvar Cavaco. Assumindo que agiu por iniciativa própria e sem conhecimento do PR. Mas apenas lhe salvará a Honra, não o futuro político.

Caro Carlos, quando escreve “Cavaco resistirá, no máximo, até 2011, e ficará na História como o primeiro PR que não foi reeleito.” é um palpite ou um wishful thinking? E já agora, quando diz “no máximo” está a pensar em quê? Que Cavaco vai ser assassinado ou morrer no cargo? É que a Constituição não fala de demissão nem de “impeachments”, portanto não estou a ver muito bem como é que Cavaco deixará Belém antes de 2011 sem ser num caixão. Um abraço!
Artigo 131.º, n.º 1, da Constituição: o Presidente pode renunciar ao mandato em mensagem dirigida à Assembleia da República.
Artigo 130.º, nº 1: Por crimes praticados no exercício das suas funções, o Presidente responde perante o Supremo Tribunal de Justiça.
Renunciar ao mandato por causa disto? É uma piada? “crimes praticados”? Vamos ser sérios, por favor.
Não é piada nenhuma. O seu comentário referia que a Constituição não fala de demissão, nem de impeachment , o que não é correcto, como vê. Quanto à possibilidade de renunciar por causa disto, há ainda muita coisa para explicar. Desde Agosto que se espera que o Presidente esclareça o fundamento das suas suspeitas, porque o que veio até agora a público é ridículo (pessoas que se sentam em mesas que não são as suas). Não só esse esclarecimento não é prestado como é demitido o assessor presidencial para a comunicação social, o que parece significar que o Presidente considerou a sua actuação neste assunto como inaceitável. Passou mais de um mês desde a publicação das notícias até agora. Se não tinham qualquer fundamento, porque é que o Presidente não esclareceu isso de imediato e não demitiu logo o seu assessor? Será que não lê jornais? Como disse, continuo à espera de um esclarecimento da posição do Presidente, que tarda. Se se confirmar que o seu assessor para a comunicação social passou a um jornal notícias falsas para debilitar politicamente o Governo em período de campanha eleitoral, com a anuência ou com o conhecimento de Cavaco Silva, então parece-me que o Presidente deveria ponderar se tem condições para continuar a exercer o seu cargo, que implica a representação da República, ou seja de todos, e obriga à neutralidade perante as forças partidárias.
Falta de isenção não é crime em lado nenhum.
Pois não. Mas o que está em causa não é a responsabilidade criminal do Presidente, mas sim a sua responsabilidade política, que só pode ser efectivada com a demissão do próprio ou com a não reeleição. O que é mais perturbador nisto é a aparente infantilidade com que o assunto foi conduzido, com a Presidência a passar uma história sem pés nem cabeça e o Público a publicá-la sem ter conseguido confirmar nada. Custa a acreditar em tanta ingenuidade, ou, para os adeptos da teoria da conspiração, em tanta má-fé tão pouco inteligente. Por isso, toda a gente esperou que o Presidente (ou o Público) trouxesse a lume algo de verdadeiramente grave. Mas isso ainda não aconteceu. Poderia pensar-se que só vai tratar do assunto depois de 27 de Setembro, para não perturbar (mais) o acto eleitoral. Mas então como explicar a demissão, agora, de Fernando Lima? O problema (táctico, não moral) não é a falta de isenção, é tê-la deixado revelar desta forma tão transparente, se nada mais aparecer. Ninguém duvida da tremenda falta de isenção de Soares no seu 2.º mandato, mas ele nunca se colocou na posição fragilíssima de acusar o Governo de um crime gravíssimo sem a mínima prova. É por causa da matéria deste assunto que ele é muito mais sério que um desacordo político por muito grave que fosse entre o Presidente e o Governo. Repare-se que a ter qualquer fundamento a suspeita do Presidente, o Governo teria de ser demitido e iniciado o procedimento criminal contra os responsáveis pelas escutas. Se o Presidente teve ou tinha esta suspeita tinha de ter actuado para ver se ela se confirmava. Se não se confirmasse, o assunto morria aí, sem vir para os jornais; se se confirmasse, demitia o Governo. Ao não ter feito nada (que se saiba), o Presidente pôs risco a sus seriedade e a sua capacidade para assegurar o regular funcionamento das instituições.
O Chavez é um menino de côro, quando comparado com o do raciocínio lento.
Cavaco Silva tem mandato até 2011.
Acabei de ouvir o Miguel Vale de Almeida na RTP N a falar sobre este caso e o que ele disse é perfeitamente coincidente com a minha opinião sobre Cavaco e a maneira como ele gere, uns atrás dos outros, a sua infindável ‘agenda de silêncios’. Este PR tem a postura de um rei, de uma divindade, que ninguém pode perturbar e que nas poucas vezes em que fala, geralmente apenas balbucia ou, o que é pior, fá-lo através de frases enigmáticas. Só um caso o fez vibrar, verdadeiramente, e aí não foi parco a esgrimir os seus argumentos: foi o caso do estatuto dos Açores. Para além deste, mais nada de relevante. Continuo, assim, a opinar da mesma forma que o fiz no princípio deste ano, quando se iniciou este Ddo. Disse então que não compreendia bem qual o motivo da escolha de Cavaco para PR, um homem sem nenhum perfil para este cargo, quando havia candidatos incomparavelmente melhores. Enfim, por aqui se prova que o povo nem sempre tem razão…
Carlos
Claro que tens toda a razão, mas já a outra senhora dizia que somos um povo de brandos costumes. Tudo é possível num dia, e o seu contrário passa a ser a verdade a “que temos direito” no dia seguinte. A tese que o PSD defende é que todos os casos que estão a surgir só favorecem o PS. Só falta dizer que Fernando Lima, sim esse mesmo, não passa de um mal disfarçado aliado dos socialistas. Por isso me parece que vão ainda surgir uma série de nebulosas explicações, que deixarão no ar a verdadeira causa que move Belém nesta história. A decisão do PR é clarificadora para quem? O que será a questão da segurança para trazer depois das eleições? Como vai JMF defender-se no editorial de amanhã no Público?
Entretanto a campanha segue alegre, mas com a Europa, a Justiça e a política económica remetida para o back stage dos comícios.
Abraço
Rui D
Concordando com a mairia do que é dito por aqui…a minha conclusão é só uma.
Cavaco não tenciona re-candidatar-se.
Por isso vai passr sem o respectivo “castigo”.
miguel
Muito bem adjectivado: “caso escabroso“.
Mais ainda porque serviu de cenário a MFL e sua entourage para alavancar (detesto esta palavra) a sua tese de “asfixia”.
Verdadeiramente tenebroso, não só pelo que se vê como pelo que estará escondido nos bastidores.
Alavancar? Odeio essa palavra.
Também eu 🙂
Para mim é claro como água que Fernando Lima vai assumir que agiu por iniciativa própria. Só nos faltava uma história escabrosa, é esse o termo sim, para nos desmoralizar a todos ainda mais, é que não estou a ver como poderemos seguir em frente como se nada fosse com uma nódoa destas.
Pois é claro que vai. Se se negasse a faze-lo não tinha sido ‘despedido’, que ninguém quer um assessor na rua a saber tanta porcaria e de mal com o seu ex patrão…
Quem disse que foi despedido?
Mudou de funções!
E só!
Seria absolutamente invendível uma historieta de actuação à revelia do Sr. Presidente da República, sendo que, aliás, o mero papel de núncio de Fernando Lima foi já confirmada por JMF e, por omissão, por Luciano Alvarez e pelo Sr. Tolentino..
Se ainda assim sobrevier uma tal efabulação, aí sim estaremos pisando a infâmia da infâmia, tornando absolutamente irrespirável a vida democrática até ao próximo calendário eleitoral presidencial.
Já não me admiraria, porém, pois que o grau de descaramento da dupla Manuela Ferreira Leite/Cavaco Silva tornou já obsoleto o anterior conceito das palavras Mentira e Mistificação.
Parece já valer tudo e faltam ainda cinco dias..
É o melhor texto que li hoje sobre o assunto, mas também é verdade que os artigos de opinião dos jornais são feitos por pessoas ou que não sabem pensar ou que pensam demasiado nos seus interesses, não tendo consequentemente nada para dizer.
Só gente que não conhece de todo (ou conhece muito mal) o Fernando Lima é que pode escrever comentários como alguns que aqui se lêem.
FL é um homem sério, bom e leal, de uma cepa rara neste país de borra-botas.
É um homem do Faial, boa gente.