Quem se vê na TV (11)


João Carvalho,

Os updated da palavra

Os modelos mais recentes da expressão oral pertencem a este grupo. Os updated da palavra são os falantes da moda: pegam em todos os neologismos, mesmo (e sobretudo) se forem disparates, e adoptam a mais recente terminologia que lhes chega aos ouvidos, tão ávidos por renovar as palavras e substituir os termos como por mostrar na televisão a linguagem que usam.

Já viveram várias fases, desde o «pronto» a abrir uma frase até ao «é assim» a abrir outra, passando por «manter toda a serenidade e toda a tranquilidade», «percepcionar», «visualizar», «desadequar» e «intervencionar».

Os updated da palavra deixaram para a História — entre toneladas de exemplos — os acessos, a desculpa e os contratos, definitivamente substituídos pelas «acessibilidades», pela «desculpabilização» e pelas «contratualizações». Mas não renegam a História: estão sempre mortos por dar valor histórico àquilo que a História nunca registou. É o que acontece quando encontram um mínimo ou um máximo nunca antes visto e a que chamam logo «novo mínimo histórico» ou «novo máximo histórico».

Estão neste grupo os mais fluentes a falar ‘acordortografiquês’: treinam todos os dias «à séria» e estão sempre a «revisar» os conhecimentos. Também dominam bem o inglês: «Devemos realizar duas vezes antes de falar.»

Experimentem perguntar-lhes, por exemplo: «Por que é que vocês chamam ‘embaixadora’ à embaixatriz?» A resposta é imediata: «A diplomata é ‘embaixadora’; embaixatriz é a mulher do embaixador.» Como os updated da palavra são muito susceptíveis, não lhes perguntem depois por que razão a mulher do diplomata há-de ter um título, ou que título será devido ao marido da «embaixadora». Nem perguntem como deverá chamar-se o cônjuge de um diplomata se for um casal do mesmo sexo (deve ser ‘embaixadora‘ e embaixatriz, ou embaixador e ‘embaixatrás‘). Passem adiante sem os contrariar, porque é a actualidade deles que nos dá lições e não o contrário.

Para eles, um dos grandes temas da moda é a «terceira travessia do Tejo». Escutaram a expressão uma vez a alguém e actualizaram-se imediatamente, arrematando logo a frase para si. O Tejo ainda só tem duas travessias? Não terá já mais de três travessias mesmo antes de entrar em Portugal? Já se esqueceram dos anos de ouro da velha travessia de Vila Franca de Xira?

Esqueçam. Como ficou esclarecido atrás, nada de contrariá-los. Nem importa, porque as três travessias do Tejo, para os updated da palavra, mais não representam do que a sua visão de uma gasta teoria de outrora: "Portugal é Lisboa, o resto é paisagem." Ou era, visto que os updated da palavra têm uma forma recriada: Portugal é a Grande Lisboa e a «litoralidade», o resto é «interioridade»…

14 comentários em “Quem se vê na TV (11)”

  1. Cada vez melhor esta tua série, compadre. Este dos ‘updated’ ridiculariza alguma verborreia agora muito em voga que tenho anotado também, aqui e no Corta-Fitas (deixo aqui outra, em forma de ‘post’, já de seguida). Desde logo, as expressões do idioma ‘compliquês’ (português em formato complicado) que substituem os velhos acessos por ‘acessibilidades’ e disparates do género. E também a redução do país a Lisboa, patente no exemplo que citas. Aliás, bastaria ficarmos pelo boletim meteorológico e os seus conceitos de ‘bom tempo’ ou ‘mau tempo’ ou o seu ‘vá até à praia’, como se os telespectadores do interior não tivessem direito à existência, para percebermos bem como o centralismo leva mais tempo a sair de certas cabecinhas do que o racismo ou o sexismo.
    Fica a sugestão para um dos teus próximos textos.

    1. Boa sugestão, compadre. O ‘compliquês’ é tão perfeito quanto o ‘disparatês’.
      Quando ouvia rádio no carro pela manhã (ainda no continente), frequentemente escutava o locutor de continuidade em Lisboa dizer: «Não se esqueça de sair prevenido de casa, que a chuva veio para ficar.» Embora no ‘meu’ Porto estivese uma manhã “solarenga”!!!

  2. Não sei quem escreveu o post, mas tiro-lhe o chapéu. Para quem toda a vida tem lutado por falar uma língua na qual não nasceu, que tem o discurso pejado de coisas inventadas, que não pesca coloquialismos, que tem um Português um tanto ou quanto académico e arcaico e que todos, literalmente todos, os dias se arrepia com tanta calinada que houve dos falantes nativos, só posso agradecer a quem escreveu o que eu agora comento.
    Eu bem sabia que essa da “terceira travessia do Tejo” era uma idiotice!!!! Eu bem sabia!
    E, já agora, eu digo o infame “realizar” na acepção anglófona mas é só porque não sei que vocábulo português eu deveria usar: perceber?, dar-se conta?.

    1. Sabe quem escreveu este ‘post’? Pode deixar o chapéu em paz: fui eu!

      Obrigado pelas suas palavras. Pelos vistos, consegui ser útil a brincar; não a gozar, mas a glosar.

      ‘To realize’ pode ter traduções ligeiramente diversas (como as que refere: “perceber”, “dar conta de”), mas é muitas vezes “pensar” (não como ‘to think’, mas no sentido de “imaginar”).

  3. João, parabéns pelo excelente artigo.
    Fez-me bem a sua leitura; deu-me vontade de rir o que é uma excelente maneira de começar a semana!
    Adorei o ‘embaixatrás’!!!!

    1. Ainda bem, Virgínia. É bom saber que a ajudei a começar a semana. Só não sabia que a sua semana começava à terça-feira! Como é que este país há-de ir para a frente???
      O ‘embaixatrás’ foi uma invenção de última hora, já com o ‘post’ editado, que me obrigou a reescrever aquele parágrafo. Hehehe…

      1. Sabe, João, desde há sete anos o meu trabalho é contínuo… 24 horas por dia… sete dias por semana!
        Estou a cuidar dos meus pais.
        Por isso, para mim, qualquer dia é o primeiro dia da semana, nem que seja sexta-feira…

          1. Não lamente João, eu deixei o meu trabalho e abandonei a minha casa por livre vontade.
            E depois tenho o Delito de Opinião e o Cheiro a Pólvora para estar ligada ao mundo e dar colorido aos meus dias!
            Obrigado a todos por me deixarem ser vossa amiga!

            1. Lamento o que a fez tomar essa decisão, mas gostei de saber que foi a sua livre escolha.
              Obrigado pela amizade que lhe permitiu partilhar isso.

  4. Muito bem… Dos vários termos aqui “updatados” há um de que não gosto, adoro: visualizar. Outro que também me leva ao rubro é elencar! Um que me faz atingir o nirvana é “vertente”.
    Se ouço ou leio que “a questão em cima da mesa tem várias vertentes, que passarei a elencar para que possam visualizar a magnitude da problemática em apreço” tenho a semana ganha!

    E os que falam de aderência em vez de adesão?

    Cá fico à espera de mais capítulos!

    :)))))

    1. Vejo que a Maria do Sol poderia fazer parte d’«os ‘updated’ da palavra»: só alguém assim escreveria a excelente frase que escreveu! Por isso, vou pedir-lhes que aceitem a sua “aderência”!!!

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