Quem se vê na TV (12)


João Carvalho,
Os inconfidentes figurados

Constituem um grupo em crescimento imparável. Os inconfidentes figurados podem ser muito agradáveis a falar, mas têm um problema com as ideias: nunca querem dizer exactamente o que dizem, com receio de cometer inconfidências atrás de inconfidências.

O mais curioso é que são incapazes de escolher as palavras certas para exporem claramente o que lhes vai na mente. É escusado esperar isso dos inconfidentes figurados: a sua característica distintiva está no emprego permanente de palavras que eles não querem dizer, mas que dizem. Ou melhor: eles querem dizê-las, mas querem que se saiba que não as dizem para ser tomadas à letra; sugerem todas as inconfidências, mas não as cometem!

Tal como a própria designação do grupo indica, as conversas que mantêm são recheadas de termos usados em sentido figurado. Jamais se perceberá por que motivo eles não são directos, não dizem com as palavras certas o que querem realmente dizer. É que nunca vão direitos ao assunto com as palavras todas: «chamar os bois pelos nomes» é uma fórmula que os inconfidentes figurados desconhecem. Contudo, esforçam-se imenso para que a sugestão que deixam a pairar seja totalmente compreensível!

O aspecto mais complexo da sua conversa é ficar a nosso cargo a dedução do que eles querem dizer, quando dizem o que não querem dizer. Porque eles são incapazes de dizer o que não dizem e querem dizer, mas dizem facilmente o que não é bem o que dizem, sem ser bem o que querem que fique dito. Isto é: dizem mal o que querem bem entendido!

São fáceis de reconhecer. Quando estão a falar em televisão, não há que enganar: sempre que recorrem às palavras que não devem ser interpretadas por aquilo que elas são, os inconfidentes figurados põem as duas mãos no ar como se tivessem sentido uma arma apontada às costas, seguram em ambas os dedos anelares e mindinhos com os polegares, destacam os dedos indicadores e médios dos dois lados como se fossem dois Vês de Vitória, curvam-nos ligeiramente e fazem plic-plic com eles, ao mesmo tempo que dizem «entre aspas».

O gesto é apenas por nós não sabermos o que são aspas sem vermos um desenho. Já a frase «entre aspas» mais não é do que a legenda do desenho que fazem no ar. Só que a dúvida há-de ficar para sempre: será que eles queriam mesmo dizer «entre aspas», ou seria em sentido figurado para não cometerem a inconfidência de dizer "em itálico"?…

11 comentários em “Quem se vê na TV (12)”

  1. João, você é imparável!
    Estes seus “escritos” são o máximo!!!
    Mais uma boa maneira de começar a semana… mesmo que hoje seja quinta-feira!!!

  2. Aquele gesto de indicar as aspas com dois dedinhos de cada mão, realmente, já se tornou sumamente irritante…

  3. Nota prévia
    Vim espreitar a esta hora para ver se o post prometido tinha saído. E valeu bem a pena. Pode não acreditar mas já me tinha induzido a ver as aspas antes de descrever, tão habilmente o gesto, a postura e a figurinha que fazem os seus bem denominados inconfidentes figurados.

    Talvez tenha sido o texto desta série de que mais gostei! Mas levanta-me algumas questões que têm a ver, pelo menos e assim de repente, com dois tipos de coisas:
    . A polissemia que indiscutivelmente as palavras e as expressões têm. Ora, colocar entre aspas, pode ser uma chamada de atenção para que se tome bem em conta o contexto em que a expressão (ou a palavra) está a ser usada.
    . Não ter certezas absolutas. Não por falta de reflexão ou leviandade mas por se entender que a maior parte do conhecimento é precário. Não me refiro ao um tipo de relativismo agora muito em voga (nomeadamente o relativismo moral). Não é disso que falo. Refiro-me ao entendimento de que uma conclusão de hoje pode não valer amanhã bastando para isso que uma proposição de partida se altere.

    Não sei se fui clara. Escrevo de carreirinha (como o Zeca Diabo) …
    Parabéns pelo post que está MUITO BOM!
    Mais capítulos se reclamam!
    :)))

    Bom almoço

  4. João, esta colecção de cromos já é imperdível!
    Em boa verdade, estes “inconfidentes figurados” (os das irritantes aspas desenhadas no ar) deviam ser sempre entrevistados no canto inferior direito do écran, o local reservado à linguagem gestual. Assim nem precisavam de falar, e sempre nos poupavam às deduções…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *