Quem se vê na TV (4)


João Carvalho,

Os que falam em bold

Em regra, são políticos, mas podem ser profissionais de outros sectores. Os que falam em bold são quase sempre homens e são chamados com frequência a usar da palavra à frente de microfones, quer seja em contactos fortuitos, quer seja em debates, congressos e coisas desse género.

Para os que falam em bold, a construção das frases que debitam é normalmente fluente. A característica que os distingue dos oradores comuns é que cada oração de cada frase tem sempre uma palavra que se destaca das restantes pelo tom subtilmente elevado da voz, a marcar o discurso. Digamos que se trata de palavras que, vertidas a texto escrito em Microsoft Word, deveriam ser destacadas a ‘negrito’ ou bold.

Francisco Louçã e António Vitorino são bons exemplos deste grupo. Contudo, pertencem a dois subgrupos diferentes: os que falam em bold nas palavras-chave e os que falam em bold à toa, respectivamente.

Louçã utiliza a conhecida técnica discursiva da colocação de voz à pároco-a-fazer-um-sermão-num-funeral, em tom macio, aveludado, para não perturbar o sono dos justos. Recorre a um bold arredondado, a elevar-se-lhe da alma quase em surdina, muito típico dos que falam em bold, que é naquelas que considera as palavras-chave de cada frase.

Vitorino, por seu turno, limita-se a uma voz bem colocada, mas sem recurso a técnicas especiais. A única especialidade personalizada, mas atípica para a maioria dos que falam em bold, é a das palavras em bold serem escolhidas à toa, tipo não-te-atrevas-a-adormecer-quando-eu-estou-a-falar…

19 comentários em “Quem se vê na TV (4)”

  1. Em contrapartida, se me é permitido o delito de opinião, o linguajar de MFL oscila entre o tom de mulher traída pelo marido e o de protesto de quem foi apanhada a ralhar com o puto surpreendido a colher laranjas no seu quintal. Já PP usa, para manter o tom do artigo, um bold mais ao estilo germanófilo mas com uns laivos de sexo mal resolvido. Ao contrário do que é vox populi, no tom do Sr. Jerónimo reconheço mais traquejo monástico do que na locução de FL.
    Cá estou eu a perder-me nos figurões em vez de me focar no libreto, erro que em análise dá quase sempre lugar a diagnósticos míopes.
    Já sei, já sei, não entendi o espírito do artigo, perdoar-me-ão por certo, eu não sou muito dado ao espiritismo.

  2. Se me permite, uma das coisas que mais e solenemente me irrita na TV a que temos direito são as doses industriais que nos dão dos assuntos em voga.

    Um dos últimos exemplos foi o caso do penalti inexistente.

    E aqui há pouco tempo tivemos todos dias Freeport e mais Freeport durante horas a fio (a propósito, aquilo agora terá regressado ao sono em que esteve durante 4 anos?).

    Nessas alturas, parece que mais nada aconteceu, isto para não falar na irreprimível vontade de fazer zapping quando se depara com a enésima reportagem ou análise que enfadonhamente repete o que quem queria saber já ouviu e o que quem não queria saber mais uma vez se recusará a saber.

      1. Correcção: uma das coisas que … me irritam.

        Deve ser contágio provocado pelos apresentadores, quase sem excepção, que passam a vida a dizer «Ele é um dos que faz», «O nosso país é um dos que está», «Ela foi uma das que estreou», e assim por diante.

  3. Heheheehehehehe…
    “Francisco Louçã e António Vitorino são bons exemplos deste grupo. Contudo, pertencem a dois subgrupos diferentes: os que falam em bold nas palavras-chave e os que falam em bold à toa, respectivamente.”
    Genial, compadre.

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