Os perguntadores agendados

Andam sempre com uma agenda decorada na tola (que é como quem diz: "encornada"). Os perguntadores agendados são repórteres que, normalmente, fazem serviço exterior de cobertura às entradas e saídas de personalidades presentes em quaisquer acontecimentos previamente anunciados.
Para os perguntadores agendados, as respostas que obtêm dos entrevistados à queima-roupa são pouco ou nada importantes. Jamais ouvem as declarações que vão apanhando, por muito que elas suscitem outras perguntas certeiras, porque nunca se habituam a pensar por eles próprios: levam o encadeamento das perguntas que têm para fazer previamente agendado na mioleira. Vejamos um exemplo.
Na campanha para as eleições autárquicas de 2005, Manuel Maria Carrilho era o candidato do PS a presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Certa vez, Carrilho decidiu declarar que acabaria com o problema do trânsito na capital e disse que os bons exemplos têm de vir de cima, dos responsáveis políticos. O disparate é que garantiu aos repórteres que iria pôr o governo todo a andar nos transportes públicos.
Ora, a pergunta necessária seguinte era óbvia: saber se Manuel Maria Carrilho estava ou não a imaginar um ministro numa paragem de autocarro na cavaqueira com o seu segurança ou o primeiro-ministro a entrar numa composição do metropolitano com uma dúzia de guarda-costas atrás em fila.
Claro que essa pergunta mais do que evidente ficou por fazer. O candidato teve sorte na sua parvoíce, porque só havia os perguntadores agendados por perto e eles nem devem tê-lo ouvido falar. Já tinham a pergunta agendada seguinte a escorrer-lhes dos miolos para a ponta da língua. Era, quase de certeza, sobre algum tema palpitante do momento, como o clima ameno de Lisboa e os efeitos para o Mar da Palha do degelo no Ártico…

Hummm… acho que no caso em apreço os perguntadores eram só olhos para a D. Bárbara… o Carrilho podia dizer não importava o quê…
Tipo os perguntadores agendados olhudos?
Vá lá, sejamos justos: quem, na altura, prestava alguma atenção ao que Carrilho dizia?
Os perguntadores agendados não, de certeza.
Tal e qual, João. Excelente, esta tua série. Venham mais!
Bom dia, compadre. Já há mais na esteira. Só para depois. Adeus e até ao meu regresso.
Abraço.
Boas férias! 🙂
Depois .. quando acabar o que tem na esteira prometa que faz uma série das outras: a realçar o “ainda de bom” que o jornalismo tem .. pode ser ? 😉
Abraço
Férias? Antes fosse! É muito mais complicado.
O que o jornalismo tem de bom não precisa de ser realçado, porque é visível. Na minha modesta opinião, de resto, o jornalismo não é diferente da política e de qualquer outro desempenho: aquilo que tem de bom desempenho não é realmente bom desempenho, mas sim o desempenho que legitimamente se espera e que devia ser considerado normal.
O desempenho efectivamente bom, tal como o mau, é sempre minoritário. O bom é, portanto, o que ultrapassa excepcionalmente os padrões de normalidade. Esses, quando devidamente reconhecidos, são premiados.
Abraços.
Só para acrescentar que, se fizer o favor de dar atenção a esta série, ela não se centra em jornalistas, mas em figuras estereotipadas (caricaturadas, está bom de ver) que aparecem em televisão, sejam os de dentro, sejam os alheios à profissão.
nem pensei que se centrasse João .. se tenho interpretado bem o que escreve.
“O que o jornalismo tem de bom não precisa de ser realçado, porque é visível” .. discordo. 🙂
Se não são férias e é complicado então boa sorte.
Outro Abraço
Obrigado. Abraço.
As reportagens dos “perguntadores agendados” são atabalhoadas, ‘gagantes’ e, muitas vezes (ou quase sempre), desalinhadas com o seguimento dos assuntos.
Muitas vezes, e noto isso nas reportagens de acidentes (sejam de que natureza forem), certas perguntas são de uma crueldade atroz para com aqueles que estão a sofrer.
Outro grande erro é quando entrevistam pessoas séniores… aquele paternalismo (ou maternalismo)… aquele tom de voz… porque não falam como a pessoas iguais? Ter mais idade não é impedimento para haver uma conversa absolutamente normal!
Com os políticos, as perguntas são estudadas e nota-se um certo servilismo e deferência e, isso, faz perder toda e qualquer espontaneidade da entrevista.
Nem mais. Como disse no ‘post’, não estão habituados a pensar!
Gosto desta bela série de cromos, João. Venham mais.
E não demore muito, se não mando-lhe um perguntador agendado para saber o que anda a fazer… 🙂
Obrigado, Ana. O que ando a fazer já não me impede de vir aqui. Mas não vai ser fácil fazê-lo com frequência durante mais algum tempo.