Os que falam em privado

Este grupo é constituído exclusivamente por jornalistas televisivos. Os que falam em privado, ao contrário do que a denominação possa sugerir, não dão qualquer importância à sua privacidade: apenas cultivam as conversas a dois, sem qualquer incómodo por haver estranhos a ouvir.
Por norma, as conversas são em directo e passam-se entre um pivot no estúdio e um repórter no exterior ou um “enviado especial”, conforme se trate, respectivamente, do subgrupo dos que falam em privado de casos de proximidade ou do subgrupo dos que falam em privado de acontecimentos por long distance call.
Os diálogos desenrolam-se a partir do momento em que o pivot lança a notícia e anuncia que vai ligar ao exterior. Exemplifiquemos.
O jornalista-pivot José da Costa entra em contacto com a jornalista no exterior Manuela Sousa. A nós, ele diz que vai fazer a ligação «com a Manuela Sousa, que está em directo no local a acompanhar o caso». Ela aparece na imagem e ele começa:
— Boa noite, Manela. Tu, que tens estado a acompanhar o caso, podes descrever o ponto da situação neste momento?
É a vez dela:
— Boa noite, Zé. Posso descrever o ponto da situação neste momento blá-blá-blá-blá!
Está aberto o diálogo dos que falam em privado. É natural que o José da Costa, quando começou a falar com a Manuela Sousa, se tenha dirigido a ela tratando-a por Manela. Incompreensível foi o procedimento da Manuela Sousa, que era suposto dirigir-se a toda a audiência dizendo «boa noite, senhores telespectadores; boa noite, Zé»; ou apenas «boa noite» para a geral. Não disse, porque ela só fala com o Zé!
Por isso, a conversa a dois vai decorrendo:
— Olha, Manela, o que é que poderá acontecer nas próximas horas?
— Bom, Zé, o que poderá acontecer nas próximas horas blá-blá-blá-blá!
Claro que todos nós sentimos algum incómodo por estarmos a assistir a uma conversa privada que não nos diz respeito e pensamos: «Será melhor desligar a televisão?» Não é preciso, porque os que falam em privado não se importam de falar â nossa frente: já estão acostumados a ignorar a presença dos telespectadores. É a prática de quem faz sempre isso…

Bem observado. Também já tinha reparado nisso e o grave é que não se trata de principiantes que o fazem.
Já agora, entre os erros caricatos, o sr. Rodrigues dos Santos tem a mania de dizer que uma coisa não tem nada «a haver» com outra.
Tem toda a razão: pelo modo como José Rodrigues dos Santos pronuncia essa expressão, fica-se com essa ideia.
Grande e verdadeiro texto!
E quando o Zé diz:
“Todo este horror Manela aconteceu em Petedas, que nos podes dizer agora que estás no local?”
(O ‘Manela’ não está entre virgulas porque é dito mesmo assim, sem a entoação devida; além do ‘Manela’ ser dito entre o sujeito e o predicado!)
É a euforia da notícia!
Bem observado. Hehehe…
E há coisas verdadeiramente inacreditáveis: em notícia sobre SLN, na sexta-feira passada, a D. Moura Guedes referiu-se-lhe repetidamente como Cê Ele Ene.
É verdade! E sobre a sociedade portuguesa Charles & Pedro, chamou-lhe Charles ‘and’ Pedro.
E a piscadele de olho do senhor Rodrigues dos Santos a fechar o telejornal ?
Acho que é um curto-circuito: «Nós… pisc… voltaremos a ver-nos amanã!»
Cada vez melhor, esta série. E cada vez mais certeira.
Para os que tiverem a tua paciência, ainda há uma data de grupos a registar!