Os dramáticos-do-nada

Trata-se de um pequeno grupo constituído por jovens repórteres. Os dramáticos-do-nada são habitualmente enviados aos cenários em que se desenrolam casos correntes que os media acompanham.
Tais casos, umas vezes caem por falta de interesse, outras vezes dão notícias e o acompanhamento pode manter-se durante uns dias, até durante uma temporada. Porém, para os dramáticos-do-nada, todos os casos são de suma importância. Basta-lhes estar no local e logo passam a ter o maior relevo.
O aspecto mais positivo do seu trabalho é que nunca deixam mal os blocos noticiosos. Estão sempre prontos a entrar em directo e têm sempre o que dizer.
Em contrapartida, são os piores a improvisar, repetem-se à exaustão, gaguejam imenso, têm hesitações de meter dó, entrecortam o discurso com um amontoado de hãs, ignoram as regras gramaticais e são fracos a traduzir ideias em palavras.
Isso pouco interessa. Os dramáticos-do-nada são os melhores a fazer reportagens sobre coisa nenhuma. Dramatizam a situação com a voz meio-tom acima do normal e a respiração quase ofegante, para dizer nada de nada.
Se estiverem à frente de um tribunal para acompanhar um julgamento, por exemplo, é com essa voz e essa respiração que explicam que a porta do tribunal ainda não abriu, que ainda ninguém apareceu, que apenas saiu um carro da garagem do prédio em frente e que está tudo calmo nas redondezas. O facto é que, nessas ocasiões, a calmaria é realmente em redor, porque o repórter está tudo menos calmo e faz todos os possíveis por nos transmitir a sua excitação.
Se cair um prédio velho e abandonado que andava a ameaçar ruína, ninguém melhor que os dramáticos-do-nada para ir ao local dar conta do caso. Com inusitada ansiedade, não se limitam a dizer que o edifício ruiu na noite anterior, que não havia pessoas nem haveres lá dentro, que os prédios vizinhos não estão ameaçados e que a rua não ficou obstruída. Não basta. A reportagem completa inclui a informação de que ainda não se sabe o que as autoridades municipais tencionam fazer, que ainda não se conhece o paradeiro do proprietário do prédio, que ainda não há dados sobre o destino a dar ao terreno e que ainda não se confirma que os serviços de recolha de entulho tenham sido contactados.
Os dramáticos-do-nada podem ser mandados para cobrir um fogo e encontrar o rescaldo de um incêndio sem consequências, mas a sua dramatização deixará sempre no ar a ideia de que é Paris que volta a arder! O que os trai é o equipamento: têm frequentes problemas no seu auricular e não conseguem ouvir as perguntas do pivot que procura desesperadamente encontrar a notícia. Só ouvem o suficiente para informar que não estão a ouvir…

Nada pior que um ser traído pelo equipamento.
Aqui o sr. Carvalho nunca mais chega às repórteres e apresentadoras de decotes vertiginosos…
João, estes seus posts sobre a “televisão” estão mesmo bem apanhados! As classificações em que os arruma estão magníficas! Têm-me divertido imenso, essa é que é a verdade!
Ainda bem, Ana. É sempre bom saber isso.
São exactamente assim, João! Os dramáticos-do-nada põem toda a sua vida e carreira numa reportagem sobre uma fossa que transbordou e deu mau cheiro à rua, como se as nossas (vidas e carreiras) fossem depender disso. Compreendo-os, coitados: os dramáticos-do-nada nunca sabem se aquela será a sua última reportagem na tv, mesmo que estejam a trabalhar sem salário. A única esperança de visibilidade que lhes resta é transformar um engarrafamento de trânsito num novo terramoto de 1755.
É exactamente assim, Ana. São mandados para as feras, põem-nos a trabalhar sem rede e depois é vê-los a apostar uma vida nas primeiras reportagens que os mandam fazer.
Já era para lhe ter dito que esta sua série de posts é muito interessante, imaginativa e a revelar um fino sentido de … observação, humor e crítica!
Parabéns (por atacado!!!!)! [ Se quiser também pode ler atacado por parabéns!!]
:)))
Posso sugerir uma coisinha? É assunto que me leva a desligar a televisão, tal a irritação que me causa… (Já me tenho perguntado se só me acontecerá a mim!) O caso é este e acontece mais (ou eu dou mais conta) nos noticiários da manhã da SIC Notícias: uns jornalistas locutores que acrescentam sons às palavras, aumentando as frases de um modo irritante. “Aze imagensze aaa que nosze aaa chegam aaa doe lugareee doe aacidente… ” Ou coisa parecida…
:))))
Obrigado, Maria do Sol.
Sei perfeitamente do que fala e são realmente os das-7-às-9! Fique atenta, que esta série ainda está longe de fim. Para quem fizer o favor de ter paciência.
Aproveito ainda para lhe lembrar que há uns que também são da manhã (não só da SIC), embora não exclusivamente das manhãs (reaparecem ao fim da tarde), que já foram contemplados.
Refiro-me aos que dão conta do trânsito em Lisboa e no Porto e aos que informam sobre a Bolsa. Cumprimentam-se imenso, tratam-se todos pelo nome próprio e ignoram-nos completamente. São «os que falam em privado» (“Quem se vê na TV” n.º 6).
Sim sim. Eu li e identifiquei o tipo!
Mas os da manhã, balhamedeus ! Chegam a inventar palavras… Há duas “senhoras” que são o expoente máximo deste linguajar a que acrescentam, ainda, uma música peculiar porquanto acentuam a leitura das frases onde bem entendem e não de acordo com a pontuação… Como não me lembro do nome da senhora morena, também não digo o nome da senhora loira! rsrsrs E quem não nomeia, não ofende! Mas nota-se muito, não é preciso estar especialmente de atalaia.
Com tantos consultores de imagem para Fatiotas & Penteados, não haverá uma alminha que lhes diga que aquilo não é estilo, mas sim uma péssima interpretaão da “técnica” de falar pura e simplesmente?
Ah, já agora… boa continuação … rsrsr de posts, de posts!!
:)))
O pior é quando aparece o Emplastro e lhes manda com aquele bafo-de-onça por cima do cachaço. Lá vai o directo às urtigas.