Cada um alimenta os seus sonhos. O meu é ascender à cátedra de Tudologia, eminente ciência oculta cá da terra.
Quando eu for grande, quero ser tudólogo. Especializar-me em abrir a boca para dizer coisa nenhuma sobre os mais variados temas – da paz no mundo à indústria armamentista, passando pelas alterações climáticas, pela agricultura biológica, pelo encerramento das urgências hospitalares na Grande Lisboa, pelo combate aos incêndios florestais, pela dinâmica dos médios criativos do Benfica e pelo bem-estar animal.
Sendo tudólogo, cultivarei o achismo. Iniciando frases como «eu acho que», a mais usada em debates na pantalha. Tenho treinado bastante, bebendo inolvidáveis palavras de mestres em evidência nos serões da SIC Notícias.
Hei-de conseguir.

Deus é grande, e o Pedro vai conseguir de certeza, e ainda antes da sentença final do caso Marquês.
Bom fim de semana
Esforço-me por isso. Acho.
“Ah, claro. Segue o teu sonho, mestre em Tudologia! Disseminar o achismo com cátedra, isso sim é missão nobre – qualquer coisa entre o Cristiano Ronaldo da opinião e um consultor de tudo e nada, sempre pronto para brilhar num painel televisivo ou num grupo de WhatsApp da família. Continua a treinar esse talento raro: afinal, num país onde todos sabem tudo, alguém tem de liderar a ignorância com convicção. Força Pedro Correia e saudações leoninas.”
Diga lá que não se sente melhor depois deste incentivo? A minha IA é assim, coitadita, sempre pronta a ajudar os visionários incompreendidos.
Bem podia emprestar a sua IA ao Rui Borges. Acho que ele irá precisar dela.
A “tudologia”, de que o Pedro fala, talvez se possa traduzir pelo “enxame de especialistas”, que vai esvoaçando um pouco por todo o lado, a propósito de qualquer assunto.
Portugal será, muito provavelmente, o país do Mundo com a maior concentração de Especialistas “por metro quadrado”…
Nos últimos tempos, o número dos denominados Especialistas parece ter vindo a aumentar exponencialmente em todas as Áreas, chegando-se ao cúmulo ridículo de poderem existir mais Especialistas do que leigos, tal a banalização que se tem feito da atribuição de determinadas especialidades…
O primado dos Especialistas, aqueles que supostamente serão peritos em alguma matéria, detendo por isso um plausível conhecimento profundo acerca da mesma, está instalado e foi disseminado um pouco por todo o lado, acabando por se intuir a ideia de que quem não for Especialista em alguma coisa não passará de um “indigente”, de um pobre coitado…
Implicitamente também se tem difundido a ideia, falaciosa, de que possuir o título de Especialista é, por si só, uma garantia de competência que, logo à partida, conferirá ao seu detentor uma inquestionável capacidade de concretização e uma eficiência a toda a prova…
Ostentar o epíteto de Especialista parece ter-se tornado numa espécie de “título nobiliárquico”, um êxtase que parece seduzir muitas pessoas, plausivelmente imprescindível a todos os que pretendam perfilar em determinadas “Nobrezas Intelectuais”…
Em teoria parece saber-se tudo, mas os efeitos práticos que expectavelmente daí deveriam perpassar não são visíveis, na maior parte das vezes… O suposto conhecimento dos Especialistas não tem sido posto ao serviço da resolução dos muitos problemas concretos existentes no país…
Pior, do que o anterior, é o estatuto de Especialista e a sua pretensa credibilidade poderem ser usados para legitimar determinadas medidas governativas, desacertadas e alheadas da realidade…
Ou seja, parece haver uma certa “elite iluminada” de Especialistas, uma espécie de “leais conselheiros”, cuja principal função consistirá em apoiar e defender as decisões e as medidas definidas pela Tutela, abdicando de as contrariar…
Neste momento, parece que a verdadeira originalidade consiste em não ser Especialista em alguma coisa…
Não tenho a certeza de que a vaidade humana possa explicar integralmente a proliferação inusitada de tantos Especialistas, ou se se trata apenas de uma “moda efémera”, substituível por outra qualquer daqui a algum tempo, mas concordo com isto:
“O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em acção.” (Fernando Pessoa).
(Partes de um texto sobre “especialistas”, escrito por mim em 2022, sob pseudónimo).
Acho muito bem. Só espero que não tenha sido para o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
Aí, Pedro, parece que as “especialidades” eram outras…
Todos esses temas são passíveis de ser estudado pela tudologia do cotidiano ..estou mais descansada, pensei que se ia por a falar sobre teoremas matemáticos ou sobre a teoria das cordas ou , quem sabe?, sobre a Teoria de Tudo.
Acho que daqui a pouco tempo estarei apto a perorar sobre tudo. Física quântica, gnosiologia, táctica do losango invertido em futebol, influência dos raios gama no comportamento das margaridas, cópula tântrica, busca da exclusão epistémica na promoção da justiça cognitiva global segundo Boaventura Sousa Santos…
E mais um par de botas.
Um tudólogo nunca se dedica a uma só coisa. Se o fizesse, seria unólogo.
Para isso mais valeria ser enólogo.
Muito bom,como sempre. E hoje no final do jogo,onde vou ler o “Gostei/Não gostei”? Saudades e Saúde.
Obrigado. Não vai, não: é página virada. Catorze épocas depois.
Cansei-me desse passatempo, há que dar lugar a outros.
Então, Pedro, parece que vai começar hoje o nosso “purgatório”?

Bem sei que o Pedro é um “optimista militante”, mas confesso que o optimismo não reina por aqui… A ver vamos, “prognósticos só no fim”…
Sim, Paula, sou optimista militante. Acho eu.
(Mas até o meu optimismo tem alguns limites.)
Ganhámos!!! Ainda “paniquei” um bocadinho, mas já passou…
Domínio total, esmagador.
Único remate do Casa Pia, digno desse nome, ocorreu aos 90’+3.
Começar bem para terminar melhor.
Rui Borges cumpriu o vigésimo jogo do campeonato nacional pelo Sporting. Zero derrotas até agora.
Pois, também já me perguntei isso…
Acho que essa rubrica só passará no Canal Memória.
De facto nada melhor que de tudo perceber para de tudo opinar falando.
Só discordo num ponto, infelizmente a praga não se instalou só na SIC e está presente em todos os canais de informação que até sincronizam a publicidade, não vá alguém “cair” no logro ao lado.
Eu sei que não se instalou só lá.
Mencionei a SIC a título de exemplo. Talvez por ter o maior número de tudólogos – no sentido de falarem de tudo sem perceberem de nada.
Pois eu o que queria mesmo, mesmo, era voltar a ser pequena e a querer ser tudo quando fosse grande… Uma nadóloga cheia de sonhos.
Os nadólogos estão em vias de extinção. Destronados pela tudologia hoje dominante.
Há até os teólogos da tudologia, que oficiam nos canais de “notícias” onde pontificam. Dotados de putativa infalibilidade palermal.
Também acho.
Achamos em sintonia.