Racismo em Lisboa


jpt,

Calema é um duo musical – ouço-o agora, com algum fastio, pela primeira vez enquanto escrevo este postal – constituído por irmãos. A informação digital di-los santomenses e também com ascendência cabo-verdiana e portuguesa – aliás, esta última surge até um pouco implícita, pois um dos irmãos levou o nome de Fradique Mendes Ferreira…

Os Calema são cá imigrantes há cerca de duas décadas. Têm presença constante na televisão, e presumo que noutros órgãos de comunicação social. E vêm conseguindo um enorme sucesso popular – deles ouvi falar pela primeira vez quando no passado fizeram um espectáculo no Estádio da Luz com 55 mil espectadores.

É evidente que não irei aqui afiançar que os dois irmãos santomenses nunca terão sofrido, no nosso país, do desagrado alheio, oriundo de estuporados preconceitos raciais pois “que las hay las hay”… Mas aqui vivem há duas décadas, obtêm sucesso profissional e, espero, realização pessoal.

E também sei que há meios profissionais, em particular artísticos, onde essas cretinas barreiras raciais vão sendo menos presentes. O desporto é uma delas. A música é, desde há muito, uma outra. Há dias reli um delicioso livro Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal 1798-1802, no qual esse capelão da legação sueca deixa um belo retrato da época. Também ele homem do seu tempo, nada atreito aos negros [“ninguém é capaz de imaginar coisa mais horrenda que o contraste dos cabelos brancos sobre um rosto negro”], deixou algumas notas sobre os que ia encontrando, com algum desconforto, no nosso país.

Entre os quais… músicos: “à noite, depois do escuro, queimaram-se barricas de alcatrão, ao longo da praia de Setúbal, em honra de São Pedro, cuja solenidade se celebra no dia seguinte. Lançaram-se, também, foguetes e buscapés e nas varandas de muitas casas havia pequenos fogos de artifício. Os numerosos negros aqui residentes passam o dia em grupos diante das casas, dançando as suas danças características, que, sem serem bonitas, são, contudo, curiosas. Essas danças executam-se com o acompanhamento de uma música nacional muito feia. Com elas os negros realizam o duplo fim de mostrarem sua devoção e ganhar algum dinheiro.” (p. 59).

Talvez eu seja ingénuo, mas quero crer que os nossos valores predominantes não são já os do final de XVIII. E também presumo que aceitação dos negros na “Europa musical” se tenha sedimentado antes – e mais – do que noutras expressões profissionais devido à influência do jazz, como mostra o José Navarro de Andrade no seu belíssimo livro “Toque de Jazz”, que muito recomendo aos veraneantes… Ainda assim julgo que os “negros” – as pessoas insistem nesta categorização não só vetusta mas também radicalmente imbecil – não continuam por cá algemados à maldição de Cam.

O que implicará que, por implícitos obstáculos e explícitos malquereres que subsistam, haverá alguma abertura para a sua participação em actividades profissionais, e falo em particular das ligadas às expressões artísticas e intelectuais.

Há tempos passou-me pela frente uma edição da popular revista “Time Out”. Nela consta a divulgação laudatória de um editora exclusivamente dedicada aos negros, cuidadosamente ditos “pessoas negras” não fossem outros duvidar da “pessoalidade”.

Trata-se de uma empresa subordinada a uma ideologia exclusivista assente em critérios raciais – ainda que possam recorrer a serviços técnicos de “pessoas não negras” apenas publicam textos escritos e traduzidos por “pessoas negras”. E isto é aceite, divulgado e até louvado!

Entretanto, informa a empenhada responsável, anunciada como especialista em “leitura sensível” de português, ter produzido um “guia de estilo”, indexando os termos que a literatura (original ou traduzida) deve evitar. E através do qual também defende – publicamente – a racista regra da “one-drop”. Pois o tal “guia de estilo” “inclui termos a evitar, como a palavra “índio”, que deve ser substituída por “indígena”, “povos originários” ou “nativos”, ou “mulato”, “uma palavra extremamente ofensiva. Oferecemos como alternativa pessoa de ascendência mista, mestiça ou mesmo só pessoa negra” – ler bem este trecho, sff, que aqui está a maldita regra “one-drop” escarrapachada…

E tudo isto, ao que afiança, se deve a que Portugal “ainda tem muitas feridas abertas causadas pelo colonialismo e que, enquanto nação, nos recusamos a tratar e muitas vezes até a abordar”.

Ou seja, os Calema podem juntar-se à Catarina Furtado no horário nobre televisivo e encherem o estádio da Luz. Mas, pelos vistos, os escritores – ficcionistas, poetas, ensaístas – estão desconsiderados, tal e qual os acantonados e miseráveis negros músicos de Setúbal, tocando a sua “música nacional muito feia”. Em 1799.

E há gente que aplaude esta via, “intelectual” e “empresarial”. Que é puro racismo! É evidente que o apreço por esta miséria moral e intelectual é mero paternalismo. Essa doença senil do racismo.

(Este é uma parte da “gazeta” que deixo no meu “O Pimentel“, esta tendo levado o título “Um bimbo em Belém etc.”)

9 comentários em “Racismo em Lisboa”

  1. Digno de qualquer líder do regime do apartheid, criar algo para segregar os negros dos não negros.
    Esta maltinha que vive neste constante combate do “branco contra o negro”, do “hetero contra o homo”, do “homem contra a mulher”, etc, etc, nem percebe o ridículo de parte substancial do que diz e faz, tal não é a cegueira ideológica e/ou lavagem cerebral que levou. Esta gente ao invés de verdadeiramente ajudar a resolver os problemas, contribui diariamente para garantir que haverão sempre feridas bem abertas onde eles estarão bem na linha da frente prontos a atirar sal. Que gente complexada mesmo triste!

    1. A esquerda Marxista perde a razão de existir se “exploradores” e “explorados” desaparecerem, se as feridas fecharem.

      1. O Marx advogava a luta da classe operária. Esta tipificação étnica, de género ou sexualidade em detrimento da social é a antítese do que o barbudo defendia.

  2. Quando o ‘progressismo’ se tem por definido pelas questões identitárias, abre a todo o ignorante uma via rápida de se crer por progressista.
    A meia dúzia de dogmas a que associam cores, apõem o manto diáfano da igualdade, e logo se sentem dispensados do conhecimento do passado, de uma análise realista do presente e do esforço de daí derivar o conceberem um qualquer futuro viável.
    Uma verdadeira manifestação de espírito religioso.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *