Rostos do Sul (3)


Carlos Barbosa de Oliveira,

 

Sempre que vou a Buenos Aires não dispenso uma ida à Plaza de Mayo numa tarde de quinta-feira.

É ali, frente à Casa Rosada (sede do Governo), que todas as semanas se reúnem em vigília as mães e avós de Mayo. São mulheres que envergam xailes e empunham cartazes reclamando a devolução dos cadáveres dos seus filhos e netos assassinados durante a sangrenta ditadura argentina.

Já lá vão quase três décadas mas o ritual repete-se semanalmente, porque aquelas mulheres recusam-se a esquecer ou perdoar os facínoras que delapidaram centenas de vidas, deixando os opositores ao regime morrer nos cárceres ou lançando-os de helicópteros, ainda vivos, nas águas do Atlântico. Eram jovens que lutaram e morreram por uma causa.

Gosto de ir à  Plaza de Mayo  conversar com aquelas mulheres, porque elas acreditam que a sua persistência contribuirá para punir os culpados, impedindo que as atrocidades dos algozes da ditadura sejam esquecidas. Têm razão. A sua vigília semanal tem dado frutos. Vinte anos depois (2003), quando Gustavo Kirchner chegou ao poder, o Senado aprovou uma lei que revogou a amnistia concedida aos acusados de cometer crimes durante a ditadura. Foi também graças a elas que o Padre Christian Von Wernich foi condenado a prisão perpétua.

O antigo capelão da polícia de Buenos Aires foi o primeiro religioso a ser condenado “por crimes contra a humanidade” praticados durante a ditadura militar. Consta da acusação a prática de sete homicídios qualificados, 31 casos de tortura e 42 privações ilegais de liberdade. Nada mau para um "cordeiro de Deus"…

Não será o último verme de batina  a apodrecer nas celas das prisões argentinas. Durante o seu julgamento foi possível estabelecer uma série de relações da Igreja com a ditadura e descobrir vários membros do clero, colaboracionistas, envolvidos nas práticas de tortura e homicídio. Alguns já foram condenados e outros estão a ser julgados. Na principal cadeia da ditadura – a Escola Mecânica da Marinha – deverão ter sido torturados mais de 5 mil opositores ao regime. Só 250 sobreviveram.

Na última vez que lá estive conversei, mais uma vez, com a Patrícia, uma senhora de 83 anos que todas as quintas-feiras marca presença na vigília, na companhia da filha. Nunca esmoreceu. Põe-me sempre a par dos últimos desenvolvimentos. Em Abril, estava mais optimista do que nunca. Fora descoberto o responsável pelo desaparecimento do filho e do marido. No seu rosto havia uma expressão magoada, que escondia um sorriso de alívio. Finalmente ia conhecer um pouco da história que lhe tinham roubado, dos familiares desaparecidos.

Abençoado seja o país cujo povo não perde a memória. Por cá, Cavaco Silva atribuiu pensões a pides pelos serviços prestados ao país. Simultaneamente, recusava uma pensão à viúva de Salgueiro Maia. Cada povo  tem o presidente que merece.

18 comentários em “Rostos do Sul (3)”

  1. Carlos, estou sem palavras, obrigada.

    E se me permite deixo esta, também, “sentida” homenagem:

    U2 – Mothers of the Disappeared – Live Popmart Santiago 1998 – http :/ http://www.youtube.com /watch?v=KuFMoWV1cns

  2. “Simultaneamente, recusava uma pensão à viúva de Salgueiro Maia”

    Esquece duas coisas:

    O calvário que foi a carreira dele após 1976 apenas por ter mantido a espinha direita. Á esquerda e á Direita.

    Que este não é o único presidente com culpas nesse cartório.

  3. Concordo.
    Os povos definem-se também pelo que deixam que lhes façam e pela indiferença com que o fazem.

    Este movimento e a sua preserverança têm poucos pares no Mundo inteiro.

  4. Pois o regime argentino acabou por si próprio agora o cubano lá continua com o seu rol de misérias incluindo muitos mortos e desterrados.
    Este senhor só se preocupa com as mães dos terroristas argentinos que iam deixando aquele país no caos. E com as vitimas civis dos terroristas não se preocupa ?

    1. Você acabou de perder uma boa oportunidade de estar quieto, sabe?
      Assim, revelou a sua total ignorância e fez uma figura um bocado triste, para não usar outra palavra mais adequada, nem plagiar o título de um livro de Dostoievski.
      Se não sabe, eu digo-lhe uma coisa: O silêncio é de ouro. Devemos evitar pronunciar-nos sobre aquio que desconhecemos, para evitar figuras ridículas. Perceb que se refugie no anonimato. Os seus amigos não deviam gostar de saber que você é tão ignorante!

  5. Como não podia deixar de ser tinha que aparecer um “observador” misturando alhos com bugalhos…

    Adiante. Embora tarde, naquela parte do mundo estão a reescrever a sua história reencontrando-se com o passado. Mas atenção que velhos hábitos ainda se não perderam de todo, veja-se o que se passa nas Honduras.

    1. O Observador nem mistura alhos com bugalhos, Salvo…conseguiu escrever um chorrilho de disparates sem nexo.
      Ainda faltarão uns bons anos para as coisas mudarem na América Latina, meu caro. Não é só o exmplo das Honduras. Temos também a Colômbia onde, além de receber de braços abertos as bases americanas, Uribe prepara um referendo para se perpetuar no poder, enquanto persegue e manda matar vários sindicalistas ( como foi o caso esta semana…) A imprensa portuguesa, claro, não escreve uma linha sobre nada disto.

  6. Bravíssimo Carlos. Tinha cá uma secreta esperança que o post desta semana seria sobre as mães de Maio. Uma luta sem quartel. Sobre a vergonha da não atribuição da pensão a Salgueiro Maia por contraponto com o tratamento dado a pides por CS , prefiro nem me pronunciar…

  7. Tem razão, Carlos, um povo que se conforma, «encosta» e esquece – e o nosso, infelizmente, tem revelado essas três tendências – é um povo que se arrisca a perder tudo, desde logo a sua dignidade.

  8. Tal como a Maria referiu no primeiro comentário os U2 na digressão de 1997 (Popmart) acabavam os concertos sul americanos com a música Mothers of the Disappeard. Foi uma homenagem onde essas mães da Praça que o Carlos fala iam ao palco e diziam o nome do seu filho ou marido.
    Há bastantes vídeos no youtube, basta procurar U2 Chile Mothers ou U2 Argentina Mothers.
    Excelente post
    By the way, Buenos Aires é um dos meus maiores sonhos!

    1. Melhor ainda do que Buenos Aires é a Patagónia e a zona dos Andes. Paisagens de cortar a respiração e uma sensação indescritível de liberdade.
      O problema são os terroristas, mas como esses só existem na imaginação do Observador, não há problema.

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