
Sempre que vou a Buenos Aires não dispenso uma ida à Plaza de Mayo numa tarde de quinta-feira.
É ali, frente à Casa Rosada (sede do Governo), que todas as semanas se reúnem em vigília as mães e avós de Mayo. São mulheres que envergam xailes e empunham cartazes reclamando a devolução dos cadáveres dos seus filhos e netos assassinados durante a sangrenta ditadura argentina.
Já lá vão quase três décadas mas o ritual repete-se semanalmente, porque aquelas mulheres recusam-se a esquecer ou perdoar os facínoras que delapidaram centenas de vidas, deixando os opositores ao regime morrer nos cárceres ou lançando-os de helicópteros, ainda vivos, nas águas do Atlântico. Eram jovens que lutaram e morreram por uma causa.
Gosto de ir à Plaza de Mayo conversar com aquelas mulheres, porque elas acreditam que a sua persistência contribuirá para punir os culpados, impedindo que as atrocidades dos algozes da ditadura sejam esquecidas. Têm razão. A sua vigília semanal tem dado frutos. Vinte anos depois (2003), quando Gustavo Kirchner chegou ao poder, o Senado aprovou uma lei que revogou a amnistia concedida aos acusados de cometer crimes durante a ditadura. Foi também graças a elas que o Padre Christian Von Wernich foi condenado a prisão perpétua.
O antigo capelão da polícia de Buenos Aires foi o primeiro religioso a ser condenado “por crimes contra a humanidade” praticados durante a ditadura militar. Consta da acusação a prática de sete homicídios qualificados, 31 casos de tortura e 42 privações ilegais de liberdade. Nada mau para um "cordeiro de Deus"…
Não será o último verme de batina a apodrecer nas celas das prisões argentinas. Durante o seu julgamento foi possível estabelecer uma série de relações da Igreja com a ditadura e descobrir vários membros do clero, colaboracionistas, envolvidos nas práticas de tortura e homicídio. Alguns já foram condenados e outros estão a ser julgados. Na principal cadeia da ditadura – a Escola Mecânica da Marinha – deverão ter sido torturados mais de 5 mil opositores ao regime. Só 250 sobreviveram.
Na última vez que lá estive conversei, mais uma vez, com a Patrícia, uma senhora de 83 anos que todas as quintas-feiras marca presença na vigília, na companhia da filha. Nunca esmoreceu. Põe-me sempre a par dos últimos desenvolvimentos. Em Abril, estava mais optimista do que nunca. Fora descoberto o responsável pelo desaparecimento do filho e do marido. No seu rosto havia uma expressão magoada, que escondia um sorriso de alívio. Finalmente ia conhecer um pouco da história que lhe tinham roubado, dos familiares desaparecidos.
Abençoado seja o país cujo povo não perde a memória. Por cá, Cavaco Silva atribuiu pensões a pides pelos serviços prestados ao país. Simultaneamente, recusava uma pensão à viúva de Salgueiro Maia. Cada povo tem o presidente que merece.

Carlos, estou sem palavras, obrigada.
E se me permite deixo esta, também, “sentida” homenagem:
U2 – Mothers of the Disappeared – Live Popmart Santiago 1998 – http :/ http://www.youtube.com /watch?v=KuFMoWV1cns
Não consegui aceder ao link, Maria. Vou tentar utra vez mais tarde
“Simultaneamente, recusava uma pensão à viúva de Salgueiro Maia”
Esquece duas coisas:
O calvário que foi a carreira dele após 1976 apenas por ter mantido a espinha direita. Á esquerda e á Direita.
Que este não é o único presidente com culpas nesse cartório.
É verdade o que escreve em relação a Salgueiro Maia. Quantoa Cavaco, creio não estar enganado se disser que foi o único PR a atribuir pensões a PIDES!
Concordo.
Os povos definem-se também pelo que deixam que lhes façam e pela indiferença com que o fazem.
Este movimento e a sua preserverança têm poucos pares no Mundo inteiro.
Que eu saiba, não há masi nenhum. Melhor, no Chile existe uma ténue tentativa, mas os chilenos são muito parecidos connosco. Desmobilizam depressa e têm uma memória fracota.
Pois o regime argentino acabou por si próprio agora o cubano lá continua com o seu rol de misérias incluindo muitos mortos e desterrados.
Este senhor só se preocupa com as mães dos terroristas argentinos que iam deixando aquele país no caos. E com as vitimas civis dos terroristas não se preocupa ?
Você acabou de perder uma boa oportunidade de estar quieto, sabe?
Assim, revelou a sua total ignorância e fez uma figura um bocado triste, para não usar outra palavra mais adequada, nem plagiar o título de um livro de Dostoievski.
Se não sabe, eu digo-lhe uma coisa: O silêncio é de ouro. Devemos evitar pronunciar-nos sobre aquio que desconhecemos, para evitar figuras ridículas. Perceb que se refugie no anonimato. Os seus amigos não deviam gostar de saber que você é tão ignorante!
Como não podia deixar de ser tinha que aparecer um “observador” misturando alhos com bugalhos…
Adiante. Embora tarde, naquela parte do mundo estão a reescrever a sua história reencontrando-se com o passado. Mas atenção que velhos hábitos ainda se não perderam de todo, veja-se o que se passa nas Honduras.
O Observador nem mistura alhos com bugalhos, Salvo…conseguiu escrever um chorrilho de disparates sem nexo.
Ainda faltarão uns bons anos para as coisas mudarem na América Latina, meu caro. Não é só o exmplo das Honduras. Temos também a Colômbia onde, além de receber de braços abertos as bases americanas, Uribe prepara um referendo para se perpetuar no poder, enquanto persegue e manda matar vários sindicalistas ( como foi o caso esta semana…) A imprensa portuguesa, claro, não escreve uma linha sobre nada disto.
Bravíssimo Carlos. Tinha cá uma secreta esperança que o post desta semana seria sobre as mães de Maio. Uma luta sem quartel. Sobre a vergonha da não atribuição da pensão a Salgueiro Maia por contraponto com o tratamento dado a pides por CS , prefiro nem me pronunciar…
Acertou, Ariel. Não podia deixar de evocar aquela luta.
Quanto ao resto, realmente não há palavras, mas de vez em quando vale a pena recordar.
Tem razão, Carlos, um povo que se conforma, «encosta» e esquece – e o nosso, infelizmente, tem revelado essas três tendências – é um povo que se arrisca a perder tudo, desde logo a sua dignidade.
Como a Luísa muito bem lembrou hoje no seu blog!
http://www.youtube.com/watch?v=KuFMoWV1c nsU2 –
ou então directamente no you tube colocar o nome da canção abaixo. É um pouco longo, talvez, (sete minutos) mas muito belo e emocionante – Bono canta com as mães no palco, vale a pena.
Mothers of the Disappeared – Live Popmart Santiago 1998
Um abraço.
Obrigado por me ter lembrado isto. Foi uma tournée pela América Latina entusiasmante. Andava tudo louco. Estava em Buenos Aires quando eles actuaram lá e foi arrepiante!
Tal como a Maria referiu no primeiro comentário os U2 na digressão de 1997 (Popmart) acabavam os concertos sul americanos com a música Mothers of the Disappeard. Foi uma homenagem onde essas mães da Praça que o Carlos fala iam ao palco e diziam o nome do seu filho ou marido.
Há bastantes vídeos no youtube, basta procurar U2 Chile Mothers ou U2 Argentina Mothers.
Excelente post
By the way, Buenos Aires é um dos meus maiores sonhos!
Melhor ainda do que Buenos Aires é a Patagónia e a zona dos Andes. Paisagens de cortar a respiração e uma sensação indescritível de liberdade.
O problema são os terroristas, mas como esses só existem na imaginação do Observador, não há problema.