Quando passo pela rua dos meus pais, onde vivi mais de vinte anos, não a vejo. É normal. Os olhos, à falta de distracção, seguem apoiando-se vagamente em esquinas e beirais, os mesmos de sempre, com uma indiferença cega.
Através dos anos a rua, situada num bairro de Lisboa, mudou muito. De agitada e feliz, com o mercado a bombear donas de casa acima e abaixo carregadas de couves e fruta, passou a albergue de viúvas. O mercado fechou há mais de dez anos e atrás dele desapareceram uma a uma a tabacaria, a pastelaria, a loja de animais, o ourives e até a farmácia. Com nome de general a rua não tem parado de baixar de patente. Dir-se-ia que obedece a uma ética que a obriga, estranhamente, a acompanhar a degenerescência artrítica dos seus habitantes mais antigos.
Na última vez que lá passei, vai para uma semana, uma pequena desordem no cenário habitual obrigou-me a focar os olhos a contragosto. E confirmei. A loja da dona Mariazinha, uma das mais antigas, claudicou. Com traça dos anos 60, aquela montra, que já foi orgulhosa, há muito que se enganava a si própria com tailleurs de malha e botinhas de bebé que ninguém comprava. A empregada era a mesma que me olhava com altivez em miúda. Aguentou-se até à idade da reforma com a mesma arrogância, cabelo pintado de preto asa de corvo e sapatinhos ortopédicos com sola de ceilão. Gostava daquele estoicismo dela, que me ajudava também a mim a iludir a passagem do tempo. Agora a montra ri-se, desdentada, do meu espanto. Partiram-lhe o vidro e já está coberta de pó. Até me habituar já sei que vou vê-la sempre que lá passar, o que altera a rotina defensiva que para mim própria criei. Que chatice!

Nestas coisas, já percebi que posso habituar-me a ter saudades. O mais difícil é habituar-me a perceber que são saudades da idade. Daí que nada possa voltar a ser como era.
Certo, João. Mas quando vemos locais onde fomos felizes a degradar-se – muito – com o tempo é triste.
Muito triste, Teresa. Uma coisa é a saudade (que é mais nostalgia do que tristeza), outra bem diferente é a degradação. Esta é mesmo triste, triste.
Belo texto. Belo o tempo que corre em todas as direcções.
«Belo o tempo que corre em todas as direcções.»
Gostei.
Obrigada, Valupi.
É muito triste, sim, Teresa. Não pelo saudosismo de querermos que nada mude nos cenários onde fomos felizes, mas pela constatação de que quase sempre muda para pior, ou que apenas se degrada sem qualquer renovação. Esta é uma bela ideia para uma série colectiva: o antes e depois das ruas da(s) nossa(s) cidade(s). Que tal?
Bora lá, Ana 🙂
A solução é descobrir novos lugares onde se possa ser feliz. Eles existem. E estão à nossa espera.
Tens razão, claro. Mas… que não seja uma fuga, mas uma opção.
Bem-vindo de novo às lides, Pedro. Tens feito falta por cá.
A solução, Pedro é não deixar morrer alguns bairros da cidade. Era aqui que eu queria chegar com este post em dia de eleições autárquicas. Quanto ao resto tens razão 🙂
Em trabalho e em turismo, percorro o país de norte a sul com bastante frequência. Tenho assistido a essa degradação em quase todas as cidades, incluindo o meu Porto .
Mas no que concerne a capitais de distrito, vale a pena referir uma cidade que tem sido criteriosamente recuperada: Castelo Branco.
Os albicastrenses reconheceram-no dando a Joaquim Morão uma vitória esmagadora!