Uma semana volvida sobre as eleições europeias, dissecados os resultados até à exaustão, feitas as análises e projecções para eleições futuras, creio ter chegado o momento de pensar o futuro desta nova Europa onde a direita proclama vitória, sem aparentemente ter percebido que apenas terá direito a recolher os despojos de um sonho que começou nas palavras de Vítor Hugo, se concretizou com Schumann e entrou em estertor quando, galvanizada pela queda do muro de Berlim, decidiu que as suas fronteiras não poderiam ter limites.
Vislumbro, ao longe, os contornos da nova Europa. Xenófoba, envelhecida, utilizando como bengala slogans caducos que exacerbam as virtudes do individualismo, o triunfo do Eu sobre a força do colectivo.
Retirada a maioria dos direitos sociais aos trabalhadores, engordadas as contas bancárias do capital à custa de horários de trabalho de 65 horas semanais, alcançada a autonomia de alguns territórios como o Kosovo (outros se seguirão a curto prazo), aos governantes europeus que emergiram da geração de 60, resta-lhes aguardar que se cumpra o seu último desígnio: uma democracia com novo rosto. O modelo inspira-se em Mugabe. Depois de convocar novas eleições, recusando assumir a derrota, teve esta frase lapidar: só comigo morto é que a oposição governará.
Traduzida para a nomenclatura moderna destes governantes sem passado e sem futuro, democracia significa: hás-de votar como eu quero, nem que tenhamos de fazer eleições e referendos as vezes que for preciso. Foi assim com o Tratado de Lisboa, será assim noutros momentos em que a Europa se veja na contingência de ter de aprovar medidas que a mantenham ligada à máquina que lhe permita viver uma vida artificial
Estaremos preparados para a "grande chacina" dos actuais líderes europeus? Não me parece…
Ninguém estará disposto a dar-lhes a extrema-unção, nem a conferir-lhes o direito a uma morte digna, concedendo-lhes o direito à eutanásia.
A Europa morrerá de morte natural no dia em que alguém desligar a máquina. Mas a Europa dos valores, defendida pelos que ajudaram à sua construção, já morreu há muito. Os resultados das eleições de domingo foram apenas a certidão de óbito.

Inteiramente de acordo Carlos. Sem valores a Europa não existe e, esses, estão hipotecados a causas que não são europeias. A Europa envelhece mal, alienada das suas responsabilidades, também não se conta das mazelas que a consomem. Será enterrada, não duvido, pelas mesmas mãos que a exploram até ao último fôlego.
Olha olha, a cristal. Bem, o DO está a ficar cá um ponto de encontro… Quando começarem a servir café vai ser um deus nos acuda ainda mais cosmopolita. Yessssssss
: ))
[Isto sem querer desviar do assunto do post e do comentário, balhamedeus]
Pois é, Maria do Sol, o Delito, como sabe, é um lugar muito bem frequentado… mas, já agora, gostava de saber a sua opinião sobre a Europa.
Bons olhos a leiam por aqui, Cristal! É um prazer receber no Delito mais uma assídua visitante do Rochedo.
Excelente post . Não sei se de facto a Europa terá capacidade de regeneração, quero ter esperança que sim.
Eu também gostava de acreditar, mas parece-me que isso não é possível enquanto não aparecer uma meia dúzia de lideres europeus com qualidade, que possam inflectir o rumo da Europa
Carlos: sou muito crítico das instituições europeias, como sabes, mas não partilho do teu pessimismo. A Europa, como realidade política, é extremamente jovem – só há 30 anos, ainda em formato reduzido, se realizaram as primeiras eleições para o Parlamento Europeu. Há ainda muito caminho para trilhar. E se olharmos pelo mundo devemos congratular-nos pelo facto de vivermos no ‘oásis’ europeu. Não é fácil encontrarmos outro local do planeta onde apeteça tanto viver como aqui. Onde será possível viver melhor?
A Europa é jovem, Pedro, mas já tem os vícios e os tiques dos velhos.
Claro que se compararmos com o resto do mndo, não teremos muitas razões de queixa mas, apesar de tudo, prefiro o oásis sul-americano. Quando se libertar de algumas excrescências, será um lugar ainda mais aprazível. Por lá pensa-se no futuro com uma visão mais moderna, onde o ser humano vale mais do que meia dúzia de palavras escritas em forma de lei para fingir que se defendem os interesses dos cidadãos.