Pelo vistos ao arrepio do país pensante, adorei a série sobre a vida secreta de Salazar. Achei muito bem filmada, os actores excelentes, os diálogos bons. Achei que Diogo Morgado fez um Salazar difícil e convincente, Soraia Chaves esteve esmagadora – como sempre -, a economia dos episódios foi perfeita, a base histórica satisfatória. À excepção da trapalhona questão banheira versus cadeira, a polémica que se seguiu deixou-me espantada. Recuso-me a pensar que a massa crítica nacional preferia um Salazar assexuado, para o bem e para o mal, porque o sexo torna-nos humanos e o ser de Santa Comba perturba menos se for uma pagela a preto e branco.
Sal e azar
Cristina Ferreira de Almeida,

Muito bem Cristina. Opinião de alguém desprovida de preconceitos. Totalmente dacordo , embora não tenha dado conta da indignação nacional que por aí anda. Hão-de preferir o indulgente “Equador”, e aparentados, porque em nada se afastam da auto-indulgência audiovisual.
Fazer um filme televisivo sobre ‘aquela’ vida dita privada de Salazar é tão palpitante como produzir uma longa-metragem sobre os horários dos combóios na Itália de Mussolini…
Preferiam-no assexuado? Não cheguei a ouvir coisa tão abstrôncia. Eu, por exemplo, limitei-me a opinar que, «quando não há nada para contar, não se conta». É o que mantenho.
E eu que não vi a série…
(Fico curioso para saber se o Pedro Correia gosta da palavra abstrôncia)
Acho que o Pedro gosta. É assim como que a modos uma palavra com força verbal, com a ilustração oral da coisa…
Estou a tentar imaginar o esforço facial para a dizer 🙂
Abstrôncia?!! Odeio essa palavra.
Não acredito. Hehehe…
oh cristina, mas não se trata de preferir ou de deixar de preferir. eu, por exemplo, achei que quando o sujeito da ASAE foi apanhado a fumar um charuto no casino isso o tornava mais humano… (como escreveu o Hanif Kureishi já não sei em que romance, “antes estúpido que fascista”…); o problema é que isso nunca aconteceria com salazar. não vale a pena, por isso, tentar confundi-lo com o General Alcazar do tintin
Huuummmmmmmm, não sei, acho que muito do mal-estar que esta – excelente – série causou parece causado por uma sensação de sacrilégio.
Olá, Cristina,
vi quase na íntegra a série, e se há coisa que não se apresenta de todo satisfatória é a base histórica, sobretudo na abordagem às mentalidades, mas também noutros pormenores, com consequências risíveis na construção das cenas e dos diálogos. Os figurinos e a qualidade de parte do elenco não chegam para suprir problemas graves. Como não saber, por exemplo, que era impensável uma rapariga solteira em 1905 visitar um seminarista no pátio do próprio seminário a meio da tarde porque se havia lembrado de “passar por lá”, mesmo que fosse da família; que um rapaz (para mais seminarista) e uma rapariga não estariam sujeitos ao controlo social e andariam de braço dado pela rua de uma aldeia do norte do país; que um beijo há setenta anos era tão banal que os adolescentes (categoria que nem era vista como tal) o tomavam por “brincadeira”, como argumentavam as persongens entre si; que alguém em 1950 atendia o telefone a dizer ” ’tou? “, coisas assim. Enfim. Que Oliveira Salazar terá tido vida privada é evidente, com maior margem de manobra e controlo da sua própria imagem a partir da década de 1940. Agora nos termos em que foi apresentada, tipo “Morangos com Salazar”, não me parece.
bom fim de semana