
Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe.
Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria porventura a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera largos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.
Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho.
Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica – reflectida também numa ligeira gaguez – com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. «Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano», disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.
Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d’ O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 – textos que o perseguiram durante o resto da vida.
Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao “capitalismo”). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.
Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.
Texto reeditado, no dia do centenário do nascimento de José Saramago

com vista aos ‘saneamentos’ tinha no DN um denunciante conhecido por ‘mané borrêra’
A sua história sobre o Saramago, faz-me lembrar a de um outro ex. jornalista Alberto Serra, que sempre que falava do Saramago dizia mal dele por ser ” estalinista “. Após a sua morte lá aparecia ao lado do Zeferino (seu editor), declarando ter sido seu confidente e amigo e que adorava o homem e a sua obra. Toda a gente a pôr-se em bicos de pé pelo Saramago. Ninguém pode dissociar a militância política de Saramago da sua obra literária, isto é, foi um GRANDE LUTADOR ANTIFASCISTA E ANTICAPITALISTA, cuja literatura por si produzida é bastante eloquente e não só os Cadernos de Lanzarote. Ou será que, par si, ” O
Ano da Morte de Ricardo Reis”, é uma apologia ao fascismo?
A sua pergunta final não faz qualquer sentido, bem como parte dos considerandos. Talvez por incompreensão da minha parte, admito.
Ainda que sejam os melhores em qualquer área profissional, tenho um sentimento critico muito negativo a quem é comunista. Ainda por cima para com pessoas com um suposto nivel intelectual acima da média. Pois foram pessoas como o José Saramago com crónicas panfletárias na comunicação social, que ajudaram a instigar pessoas a praticarem autênticos crimes. Muitas delas nem sabiam o que estavam a fazer, mas incentivadas por capangas do PCP, o único partido organizado quando do 25A, indo na onda da “morte ao fascismo e ao capitalismo”, roubaram parte da riqueza nacional. A História os julgará. O único comunista bom foi Jesus Cristo.
Separar o artista e escritor das opiniões políticas é fundamental.
Picasso desenhou um célebre retrato de Estaline, Neruda escreveu uma célebre ode a Estaline que fez muitos comunistas “chorar de emoção”. Pound redigiu panegíricos a Mussolini. Céline legou-nos miseráveis panfletos anti-semitas. Heidegger esteve inscrito no Partido Nazi.
É Isso. Eu não aprecio a pessoa, mas aprecio (muitíssimo) a obra. Era de facto um escritor genial.
Isso. É fundamental separarmos a pessoa do artista ou do escritor.
Li práticamente toda a obra de José Saramago e confesso que salvo uma ou outra excepção não gostei. Melhor dizendo, não gosto do escritor nem do homem. Ele também não gostava do seu país.Preferia a Russia Soviética. Se fosse vivo era mais um putinista. E mais, não era boa pessoa. Nem me quero lembrar dos títulos do Diário de Notícias, quando foi seu director a seguir ao 25 de Abril. Paz à sua alma.
Eu sou testemunha presencial – e o meu texto dá nota disso – de que, ao contrário do que você alega, Saramago gostava mesmo “do seu país”. Que é o nosso.
Claro que preferia a Russia soviética, por isso abandonou Portugal para ir viver para Lazarotovsky…
Há quem prefira viver toda a vida refugiado em Anonimotsky. Deve ser triste.
Deixe-se disso, que os comentários dos anónimos também contam para a estatística…Ou então seja coerente e não os publique.
Os anónimos não são todos iguais. Há os bons e os maus, como em tudo. E há também os péssimos.
Tal e qual como os blogers
“Blogers”? Isso é o quê?
Pois. Mas em nome do “único comunista “que existiu ( Jesus Cristo ) cometeram-se, também, os maiores crimes contra a humanidade durante 2.000 anos. Quer contar as guerras, massacres de inocentes, por aqueles que se diziam seguidores de Cristo? Nunca ouviu falar na Inquisição? Quanto aos pós 25 de Abril o que diz, sabe muito bem, as coisas não se passaram assim. Os roubos e crimes foram cometidos pelo regime anterior ao 25 de Abril, de 48 anos e, ao que parece, eram muito cristãos e tinham o apoio da Igreja, não é verdade?
O que você escreve não tem nada – rigorosamente nada – a ver com aquilo que eu trago aqui neste dia do centenário de Saramago.
Às vezes ainda me espanto com a incapacidade de certos leitores de lerem o que aqui é escrito. Como se escrevesse num idioma diferente, estranho, estrangeiro.
Como eu o entendo!!! Também já assobiei para o lado tantas vezes…..
Deve ter assobiado mais que o comboio, que apitou três vezes.
Como já é comum querem que vejamos o que serve para “adormecer”.
Li três vezes esta frase-comentário. Sempre sem entender.
Caro Pedro, nunca é demais exaltar a memória de quem nos deixou tal legado.
Também eu não partilho da visão tantas vezes radical que ele tinha da política, que presumo ter temporariamente travado a sua aceitação e ofuscado o brilho dos seus escritos.
“Memorial do Convento”, obra prima que já li duas vezes, onde o amor é descrito de uma maneira sublime, e “Levantados do Chão” transporta-nos ao Alentejo dos explorados, sem pieguices, retrato de uma época de triste memória em que a alma de um povo é dissecada de modo soberbo. Obrigado Pedro pelo seu post.
Eu é que lhe agradeço.
Saramago era um sociopata, como a maioria dos comunistas. Não lhe deram a oportunidade, ou teria seguido a máxima de Lenine para chegar à humanidade depurada: “melhor poucos mas melhores”. Teve a sorte num viver num país com, até ver, grande capacidade de perdoar e/ou não querer saber.
Saramago era um grande escritor.
Teve uma vida longa, tempo mais que suficiente para o insultarem de todas as formas. Fazerem-no agora é algo tão fácil quanto inaceitável. O mesmo para outros que já cá não estão.
Vários escritores padeceram de “sociopatia” – não num estrito sentido clínico, mas pelo menos num sentido metafórico. Pessoa e Kafka, por exemplo. E tantos outros.
Não me parece, de todo, ter sido o caso de Saramago. E eu conheci-o pessoalmente, não “ouvi dizer”.
Não o insultei. Descrevi-o. Se a descrição que dele faço é para si um insulto, desculpe o incomodo, mas não a retiro e fá-la-ia com ele vivo ou morto. Não percebeu a sociopatia que descrevo. Desculparia a Saramago alguma misantropia, misoginia ou outro desprezo ou preconceito metafóricos, mas a sociopatia dele foi sempre politica/social/religiosa, daquela dos sociopatas maiores, soviéticos. Não deu por isso no seu trato pessoal com ele?
Não dei por isso, reafirmo. Mas se a sua opinião é essa, não tentarei contrariá-lo.
Reitero, entretanto, que esse termo pode ser utilizado para caracterizar muitos escritores, de diversas épocas, portugueses e estrangeiros. Alguns cortaram quase todos os laços sociais e refugiaram-se em exclusivo no mundo da escrita. Há casos célebres: Kafka, Pessoa, Céline, Salinger, Onetti.
Saramago nunca foi desses.
Tenho incomparavelmente mais admiração e consideração por esses que pela, a partir de certo momento, pop star Saramago.
Dou de barato e assumo que talvez a minha antipatia politica com Saramago ainda não me tenha deixado ver a sua escrita como genial. Talvez fique a perder.
Um dia, quando sentir esmorecer essa antipatia política, experimente ler esta “Viagem a Portugal”.
Curioso! Li tanto de Saramago e não me lembro de ver nas livrarias esse livro ” Viagem a Portugal”
De resto tinha ideias curtas que não se encaixavam no pensamento normal.
Quanto a escritor, criativo, admirável!
Há uma reedição recente. Merece leitura atenta. Recomendo.
Marcelo Rebelo de Sousa homenageou Saramago numa escola de Mafra, até aqui tudo bem…Mas sinceramente, incentivar os jovens a cantar; “parabéns a você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida”, é simplesmente anedótico…Parece-me que o Presidente anda a abusar do Fortimel.
Não vi nem me interessa isso, sinceramente. Hoje só me interessa lembrar Saramago neste centenário do seu nascimento.