Se é dos nossos, tudo bem!


José Gomes André,

Cada vez mais me parece haver uma futebolização da análise política em Portugal. Sabem aquelas discussões sobre quem é a melhor equipa ou o melhor jogador – com os adeptos invariavelmente a defenderem o seu clube, mesmo que sem razão aparente? Em relação à política não é muito diferente: em primeiro lugar, avalia-se de que lado se está e só depois se procuram argumentos para defender o preconceito.

Vejam-se dois óptimos exemplos recentes desta inversão racional. Ciganos em contentores apartados das restantes turmas? Eis um maná para a indignação da Esquerda e motivo de indiferença à Direita. Porém, como o responsável pela situação é um governo socialista eis que a Direita irrompe num coro de protesto (tantas lágrimas de crocodilo, meu Deus!) e a Esquerda aplaude a citação (quanta hipocrisia…).

Mas há mais. Pensemos na hipótese de existirem pressões políticas sobre um caso envolvendo um primeiro-ministro, conhecido pela sua arrogância, que promete represálias se as decisões judiciais não o favorecerem e processa jornalistas que o criticam. O que se diria à Esquerda se este político fosse do PSD ou do CDS? "Acudam, que a Pátria está em perigo!", "ai que se mata a liberdade de expressão", "fascistas!". Todavia, como o PM é o socialista Sócrates, as reacções oscilam entre o mais profundo silêncio e lembretes ridículos como este cantando hossanas à "integridade moral das pessoas" e ao "direito ao bom nome e reputação". Isto já não são bem análises políticas. São cânticos de claques.

11 comentários em “Se é dos nossos, tudo bem!”

  1. Perfeito, José Gomes André! Leio o seu post depois de ter escrito o meu. Para lhe diser o quê? O que escrevo não tem a ver com esquerda e direita. Se o “ofendido” fosse do outro lado, teria escrito exactamente o mesmo.

    1. Mas claro que sim, caro Joaquim! Não duvido disso…

      Todos nós encaramos o mundo de acordo com os nossos valores e princípios (ideológicos, filosóficos, etc.) e por isso é natural que tenhamos um certo posicionamento “de partida”. Mas isso não devia nunca ser absolutamente taxativo e impedir uma leitura razoavelmente isenta e em função do objecto em discussão. Há óptimos motivos para criticar Sócrates e outros para o defender. Eu gostava é que as pessoas fizessem isso por causa de uma análise que os levou a tirar certa conclusão, e não porque o seu “clube” foi atacado… Acho que o seu texto se insere (e bem) nessa tendência correcta. Mas não se pode dizer o mesmo de muitas coisas que se têm lido por estes dias…

      Um abraço!

  2. O teu reparo é tão óbvio que chega a parecer extraordinário, José. A clarividência linear tem andado tão ausente que até assusta. Gosto de vê-la reposta assim. Gosto mesmo.

    1. Obrigado pela referência, Carlos, embora deva esclarecer que a conclusão do meu texto vai em sentido diferente do teu: parece-me que tem havido um claro preconceito da análise à Esquerda (e não tanto da Direita) sobre todo este nebuloso processo. Se estas confusões ocorressem com um PM do PSD já havia manifestações na rua apregoando o fim do mundo. Sócrates não tem de provar a sua inocência? Talvez. Eu penso que o Nuno, como muitas outras pessoas, não está a falar directamente da questão propriamente “judicial”, mas da leitura política a retirar deste caso. E essa, convenhamos, tem de ser necessariamente crítica face ao comportamento de Sócrates e do Governo. Um abraço!

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