Seis meses depois


Pedro Correia,

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Mariúpol, Abril de 2022

 

Faz hoje seis meses. Largas dezenas de milhares de soldados russos, apoiados na força aérea e divisões blindadas, invadiram território da Ucrânia – Estado independente e soberano, assim reconhecido pela comunidade internacional.

A mando de um tirano que decidiu trazer para o século XXI a política de canhoneira do século XIX, restaurando a lei do mais forte – a do que saca mais rápido do coldre, à traição, como fez com a Ucrânia nesta invasão não provocada, consumada no escuro de uma madrugada gélida. Sem pré-aviso, sem declaração de guerra.

Seguindo um guião inspirado no de Hitler na sua concepção de “espaço vital”. Não a pretexto de reunir os povos germanófonos, mas russófonos. Não já de uma raça suprema, mas de um povo iluminado pela luz divina. Daí a Constituição em vigor na Rússia entoar hossanas à pátria «unida por uma história de mil anos, preservando a memória dos antepassados que [lhes] transmitiram os ideais e a fé em Deus». Hiper-nacionalismo de cariz imperial.

Dizia essa besta traiçoeira, escassos dias antes, que a tropa de Moscovo se limitava a «fazer exercícios militares puramente defensivos» no seu lado da fronteira.

 

Balanço destes seis meses trágicos que levaram a guerra ao coração da Europa?

Dezenas de milhares de mortos – não apenas ucranianos, mas também soldados invasores, quase todos oriundos das regiões mais remotas e pobres da Federação Russa. Mal organizados, mal equipados, mal alimentados. Comportando-se como abutres em rapina na terra conquistada – pilhando e violando tudo quanto viam pela frente, fazendo tábua rasa das convenções de Genebra e das próprias leis da guerra. Visando inúmeros alvos civis. Escolas, infantários, creches, hospitais, enfermarias, maternidades, igrejas, conventos, teatros, museus, salas de concerto, oficinas, lojas, habitações – tudo lhes serviu de pasto para as bombas homicidas. 

Pelo menos dez milhões de desalojados.

Muitos no próprio território ucraniano, fugindo das ogivas criminosas, abençoadas pelo patriarca russo, um canalha de barbas brancas chamado Cirilo, perante quem o déspota do Kremlin ajoelha em devoção beata. «Matarás», incentiva esse clérigo, em inversão total do Sexto Mandamento.

Muitos mais no estrangeiro, onde têm conseguido refúgio nas nações vizinhas. Enquanto tantos outros, sobretudo no Donbass, são deportados à força pelos esbirros de Moscovo, que os conduzem aos confins da Sibéria, recriando os anos de chumbo do czarismo e do estalinismo. 

Neste quadro, o tirano não hesita em colocar todo o continente à beira dum desastre nuclear, utilizando a central de Zaporíjia, em território ucraniano, como palco de guerra.

 

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Putin abençoado pela hierarquia ortodoxa: aliança entre o estado e a igreja

 

Seis meses depois, a Ucrânia resiste.

No meio das atrocidades, continua de ânimo inquebrantável. Entre ruínas provocadas pela maior potência atómica do planeta, faz frente ao inimigo. Confirmando uma das mais poderosas leis da História: só é derrotado quem desiste de lutar.

E eles não desistem. Por eles e por nós.

Sabendo que mais vale morrer de pé do que viver de joelhos. 

Putin não passará. Hoje isto é ainda mais certo do que em 24 de Fevereiro de 2022, esse dia da infâmia que manchará para sempre o povo russo. Como aconteceu a 23 de Agosto de 1939, data em que Estaline e Hitler selaram o pacto que apunhalou a Polónia, a Finlândia e os Estados bálticos – acto de vergonhosa traição que jamais se apagará.

 

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Estaline com Ribbentrop, o chefe da diplomacia nazi (23 de Agosto de 1939)

34 comentários em “Seis meses depois”

  1. Por nós!!!??? Por mim não é de certeza!!! Eu quero é que a Alemanha receba energia imediatamente pelo North stream II, e se deixe de tretas, há que salvar a economia alemã para se evitar uma tragédia económica na Europa… Os fanáticos apoiantes do louco de Kiev não se importam de levar o povo português para a fome, tudo em nome de ideologias da treta… Mas aonde é que os loucos de Kiev lutam pela liberdade!!?? Aquilo é uma luta religiosa entre os ortodoxos em que ambos reclamam o poder vital sobre Kiev!! North Stream II já!!!

    1. Mas aonde é que

      aonde vais, caralho? — uma direcção, ir algures
      onde está aquele cabrão de merda? — um local, um sítio preciso

      percebes a diferença, fónix?

      Já agora: não tenhas medo da miséria. O grande chefe tribal Costa está vigilante e vai providenciar sopinha para todos. Morte a Putin, morte aos comunas. Guerra total, já.

      1. Morte aos comunas!!!??? Com a tragédia económica que se avizinha até o iniciativa liberal vai propor a nacionalização de algumas empresas e defender a economia planificada!! Você vive no mundo da fantasia ideológica!! North Stream II, já!!!

      2. Morte ao Putin! Já estás à rasca por apoiares aquela ‘que se lixe, a Ucrânia quer escolher o seu caminho’. Agora estamos a ver o que está a acontecer a nível europeu com a aventura ucraniana. Não tinham que ser subservientes a Putin e aos russos, mas também não podiam ser declaradamente contra aderindo à NATO, já que a questão da UE ainda vamos ver o que vai dar.

      3. 100% de acordo com “morte a Putin”. O mundo só teria a ganhar com a morte de Putin. No entanto, apelar à morte de pessoas simplesmente por não estarem a par da realidade é ridículo e até mesmo criminoso. E nada indica que o outro comentador seja comunista. Os defensores de Putin não se resumem aos comunistas, havendo muitos na extrema-direita como é o caso de Le Pen ou Salvini.

        1. Tchiii, era só uma liberdade poética. Levam tudo muito a sério, vocêzes.

          Claro que o outro comentador é comunista. Só eles dizem aquelas barbaridades.

          1. Infelizmente não são só os comunas. Anda por aí muito boa gente que diz isso e muito mais só de pensar que não vai ter dinheiro para passar férias nas caraíbas

    2. O Pétain também pensava o mesmo…na ll guerra era não chatear os nazis para irem vivendo a vidinha. Deve estar muito preocupado com a fome dos portugueses, deve. Será mais com o seu ramo de actividade , que não tendo o resultado esperado, lá vai ter de fazer algum sacrifício. Bandalho

  2. E os russos, com todo aquele ‘a maior potência atómica do planta’ nem atam nem desatam, para quem vinha por aí abaixo até ao Cabo da Roca. Uff, estamos mais descansados.
    Continua a guerra e a mesma imagem belicista de Ribbentrop/Estaline, Pedro Correia não gosta de paz e tem medo da imagem da Conferência de Yalta.
    (vamos ver se argumentos apresentados sobre a crise energética, alimentar e económica serviram devido à guerra ou conforme der mais jeito ‘estamos assim por causa dos russos’, estamos assim por causa da nato’, ‘estamos assim por causa do governo que não se precaveu’, ‘estamos assim por apoiarmos a guerra’)
    “Sabendo que mais vale morrer de pé do que viver de joelhos.” isto é muito perigoso e serve para mais uma de populismo salazarento. Gostava de o ver ser mobilizado para fazer parte da legião verde às riscas para ir combater contra os russos putinistas.
    E os lampiões que cobardemente eliminaram os ucranianos no futebol, a começar pelas camisolas vesse logo que são putinistas.

    1. Viver de joelhos em adoração ao Putin é a atitude dos sabujos. Como este anónimo que aqui veio alçar a pata, venerando o agressor e sem uma palavra de compaixão para os agredidos.
      O “patriarca” de Moscovo a quem o ditador russo beija o anel deve abençoar estes sabujos também.

    2. “E os lampiões que cobardemente eliminaram os ucranianos no futebol, a começar pelas camisolas vesse logo que são putinistas.”
      Se não fosses estupido e grunho, o que gostavas de ser?
      O melhor é cortares os pulsos para esvaires a cor putinista que há em ti.

      1. Então ‘tudo pela Ucrânia nada contra a Ucrânia’ até no futebol.
        E o sangue tem todo a mesma cor, até de parvos em ironias.

    3. A imagem da conferência de Yalta só teve lá os Sovietes porque o Hitler não respeitou o pacto. Assim não fosse, e os nazis e stalinistas teriam repartido a Europa

    4. Conferência de Yalta

      Que entregou a Polónia, Roménia, Bulgária, metade da Alemanha, Hungria ao Totalitarismo Comunista?

      ..mais a Operação Keehaul…

      1. Que grandes malandros Churchill, Roosevelt e Estaline juntos na Conferências de Paz de Yalta.
        Pois, o Churchill, quase que queria lá saber que morressem mais uns milhões de russos, mas o Roosevelt precisava da ajuda do exército vermelho para derrotar os nazis.

  3. Melhor dito, é impossível, Pedro.
    Directo ao coração, à alma e às entranhas de quem, no meio de tanta loucura, preserva, ainda, sinais vitais de discernimento, de revolta e de compaixão.

    1. Solidariedade total com o martirizado povo ucraniano, Fátima. Sem “mas”, sem “entretantos”, sem vacilações.
      Muito menos sem equiparar os agressores aos agredidos, como se estivessem no mesmo plano.
      E sem a menor contemporização para o genocida de Moscovo, que quer riscar a Ucrânia do mapa, não hesitando em condenar à pobreza, ao ostracismo e até à morte muitos dos próprios russos.

      1. “…que quer riscar a Ucrânia do mapa,…” continua a treta popularucha.
        Os russos estão à rasca para manter as posições no Donbass quanto mais riscar aquele enorme país que é a Ucrânia.

    1. Forte abraço, Sérgio. E coragem para enfrentar aí esse rolo compressor, cada vez implacável.
      Com a complacência e até o incentivo de alguns colaboracionistas – os mesmos de sempre.

      1. “…enfrentar aí esse rolo compressor…”
        Os russos estão a levar porrada e só estão a utilizar uns soldados das zonas mais pobres, agora apenas querem manter as posições que afinal era o que pretendiam.
        E ficará mais ou menos assim, durante alguns anos.

        1. Os russos andam a levar porrada do próprio ditador, há quase um quarto de século.
          Alguns não levam só porrada.
          Levam tiros, como a Anna Politkovskaya e o Boris Nemtsov.
          Ou veneno putinesco, como o Aleksandr Litvinenko e o Alexei Navalny.

  4. Parabéns pela sua resenha.
    Comprei para o meu pior vício (leitura) 3 obras: O Processo de Kafka, O Diário de Anne Frank e Eichmann em Jerusalem – Hannah Arendt, para tentar encontrar explicação para o acto estúpido cometido por aquele que se julga Czar e que infelizmente tem alguns apoiantes por este mundo fora.
    Na minha pesquisa, nada encontrei que explicasse de forma directa, a estupidez humana por si mesma ou do acto em si; mas a Ucrânia merece a sua independência e a liberdade.
    O povo russo não merce nem o ditador nem a igreja corrupta que tem e mostra que não há religião no mundo que se aproveite, sobretudo quando se mistura com política

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