Sete de uma vez!


Maria Dulce Fernandes,

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A noite exalava calor, maresia e compostura orgânica, dos gatos que a Madame Louca rebentava contra a parede da quinta, mal farejava uma nova ninhada, indiferente a insultos e ameças de quem a achava uma pessoa odiosa e desumana. 

Meio vestida, meio despida, vagueava eu pela casa quente sozinha, indolente e entediada. Até os livros emanavam um calor salobro e enjoativo. 

Os meus pais tinham ido ver uma revista ao Maria Vitória. Os rapazes tinham saído, um com os amigos, o outro para jogar à bola na rua com a miudagem do costume. Ouviam-se da varanda “Chuta! Passa! Coxo! Mãos de Manteiga! Corre! Golo!”

Recostei-me no abrasador sofá de pele e deixei-me levar pela lassidão que o tédio arrasta. Dormitava.

Acordei com o grito rouco da campainha da porta. Corri ao intercomunicador e uma voz infantil e assustada gritava: “Vem rápido que o filho da Jorgete vai matar o teu irmão.” O quê? Vem ajudá-lo depressa, que ele está escondido debaixo da furgoneta do pitrolino.”

Enfiei um vestido ou um casaco e uns chinelos, desço a escada a correr e saio do prédio como se estivesse com a vida em  atraso.  

A rua estava inteirinha à janela. À volta da furgoneta do pitrolino estavam duas ou três velhotas e o Carlos Calmeirão com uma marreta numa das manápulas e uma bola debaixo do braço. “Malandro, partiste-me duas pernadas ao limoeiro! Levas uma sova. Não passa de hoje!”

“Deixa os miúdos, Carlos, tem juízo, são crianças!”, gritavam as vizinhas. “Esta já não a vêem mais”, dizia o  homenzarrão ufano, mostrando a bola nova que o miúdo ganhara de presente de Natal. “Sai daí, malandro! Vais apanhar nem que eu fique aqui  a noite toda.”

Tremiam-me as pernas como se a temperatura, por magia, se tivesse tornado glacial. Respirei fundo. Ouvi algo estranho, um som abafado meio gutural, como se saído das entranhas da terra. “Posso saber o que se passa aqui?” Falei, acho que fui eu quem falou aquilo, porque o Carlos Calmeirão olhou para mim irritado e disse: “Este patife hoje vai apanhar. Vá para casa, isto não é coisa para as mulheres se meterem.”

Não sei bem o que me deu. Ainda hoje estou para saber como consegui empurrar o Calmeirão e dizer ao meu irmão para sair debaixo da furgoneta. “Ele bate-me, mana!” “Não bate, que eu não deixo.” “Ai não? Vamos lá ver se não lhe bato.” “Então toque-lhe só que eu quero ver. Vá, toque-lhe lá, que vai ver o que lhe acontece.”

O miúdo saiu do esconderijo a tremer e ficou atrás de mim. “Dê-me a bola se faz favor. Não é sua!”

Já com a bola na mão agarrei o meu irmão por um braço e levei-o para casa. Tremia tanto, mas tanto que nem sei como subi as escadas sem me ir abaixo das pernas, mas creio, ou tenho mesmo a certeza, que fiz o último patamar a gatinhar. Se o Carlos Calmeirão lhe batesse eu fazia o quê? Nada! O que podia eu contra um tipo que fazia dois de mim? Não sei como, nunca saberei, mas funcionou!

A verdade é que durante todo o tempo que morei com os meus pais até casar, o Carlos Calmeirão baixava os olhos sempre que passava por mim.

Lembrei-me deste episódio das minhas recordações mais delirantes quando lia à minha neta a história do Alfaiate Valente: “Matei sete duma vez!” Senti-me Indómita, indomável, inevitável… mesmo que se tivesse tratado apenas de moscas como as que me zurziam na garganta, me derretiam as pernas e me empurravam na direcção daquele adamastor.

14 comentários em “Sete de uma vez!”

      1. A excelente fotografia tem o seu quê de interessante
        Parece ser tirada em Itália (calor e matrícula do carro) com os miúdos a jogar uns com e outros sem camisola para não haver confusão de equipamento.
        (O que nunca poderá acontecer numa praia de nudismo)
        Essa dos matulões também pode acontecer com matulonas.
        As irmãs gêmeas do manolo com 15 anos mediam mais de 1,70 m, e o manolo da nossa idade 10 anos armava-se em valentão por causa das irmãs. Uma vez numa brincadeira, num jardim conhecido de Lisboa, o manolo levou uma tareia por insultos à minha mãe do molicas.
        Coitado do molicas teve de andar fugido a tarde toda com medo das gêmeas à espera dele à porta de sua casa.

        1. A fotografia muito provavelmente é o que parece, mas ilustra perfeitamente a simplicidade das brincadeiras de rua de há 40 e tal anos, sem medos, sem confusões, quase sem carros, sem camisas por ficarem encharcadas e ondulavam nos gradeamentos dos quintais… Outros tempos em que era tudo simples e despreocupado, excepto quando os calmeirões faziam destas.
          O Manolo deve ter ido várias vezes ao psicólogo, não? Nos tempos do Clube do Bolinha ter supermanas deve ter sido pesado.

  1. Uma bela estória que começa embebida num erotismo elegante que dá corpo a coragem de uma miúda que salva o irmão das mãos de um Carlos Calmeirão.
    Fez me lembrar um Carlos Calmeirão do meu tempo que com 11 anos pesava 100 kilos e com 15 anos tinha barba cerrada e 1metro 86( num torneio de basquetebol de juniores as equipas adversárias olhavam para ele com se fosse uma aberração do entroncamento), um verdadeiro bárbaro, alcunhado de pinhas. infelizmente não posso contar as inúmeras estórias das aventuras do pinhas que hoje a Maria Dulce me fez recordar com saudade. Cada um que dê azo á sua imaginação.

    1. Claro que saía , Carlos! Pois se fui eu quem o autorizou a ir para a futebolada! Para além de os meus pais me darem uma descompostura se o piqueno aparecesse amachucado, trata-se do Meu Menino! Fui a primeira pessoa que lhe pegou ao colo quando nasceu, depois da Parteira o vestiu. Estas situações criam laços de paixão inquebráveis. As minhas filhas muitas vezes manifestaram um ciumezinho da atenção mal repartida, como elas costumavam dizer

          1. Excelentes recordações, Dulce
            O campo da Salesiasy está, novamente, a funcionar e recomenda-se.
            Há pouco tempo vi lá jogarem os miúdos do Belenenses com os miúdos do Fontaínhas (Cascais).

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