
Este Verão, foi o Verão do nosso descontentamento. Difícil, dorido, aflitivo, mas energizado na medida do possível, tentando que a diversidade escondesse a adversidade, porque cair ou deixar cair nunca foi opção.
A partir do final de Julho, a rotina criada em Maio teve de ser repensada e recriada para suprir a falta das actividades das escolas e centros de ATL.
As crianças estavam de férias!
Com tanto o que fazer, foi imperativo fazer tempo para eles.
Pedir o passe da Carris Metropolitana para os miúdos foi uma ideia de truz. Os meus netos, à semelhança de milhares de outras crianças, nunca tinham viajado nos transportes públicos! Coordenando horários com os dias programados no calendário dos pais, começámos por andar de autocarro, seguiu-se o metropolitano, o eléctrico, o comboio e o barco. E repetimos linhas diferentes em dias diferentes. Caminhámos por grande parte de Lisboa. Visitámos o Quake, a exposição de Lego na Cordoaria Nacional, a exposição 3D, o Planetário, o Museu de Marinha, o Pavilhão do Conhecimento onde a exposição da Pixar sobre técnicas de animação fez as delícias da minha neta, fomos a Algés ao Aquário Vasco da Gama e, entre outras passeatas, descemos o Parque Eduardo VII até ao Marquês de Pombal, o que deixou o meu neto Superleão tão feliz, que nem tenho palavras; veio aquele petiz de seis anos, durante todo o caminho de regresso, a cantar que o seu amor é verde e branco…
Como estou um tanto dada a títulos, pensei muitas vezes que seria fabuloso adormecer, e acordar quando Setembro chegasse ao fim. Setembro foi também complicado, sem dias nem horas certas e também sem quaisquer certezas.
Finalmente entrou Outubro e trouxe consigo alguma normalidade. As escolas estavam a funcionar com professores e também greves à vista, a actividade hídrica sénior recomeçou a operar nas piscinas do costume e as respostas vieram finalmente, e eram boas as respostas. Eram muito boas. Podíamos todos finalmente respirar fundo. Podíamos encetar com confiança a nova normalidade que, sendo diferente, trataríamos de a tornar mas o mais igual possível.
Aprendi muito, nestes sete meses. Fiz muita pesquisa, muitos cozinhados com produtos essenciais à imunologia, usei tudo o que tinha vitaminas, proteínas e calorias qb, deixei de lado o açúcar branco refinado, usei e abusei das especiarias que reforçam o sistema imunitário…
Iscas à portuguesa às quintas-feiras… nem me incomodou se não gostavam, passaram a gostar…
O meu marido e eu fomos avós, pais, enfermeiros, cozinheiros, cuidadores, pau para toda a obra… pela parte que me toca, fui principalmente palhaço, agarrando com unhas e dentes essa arte tão nobre que faz arrancar risos e sorrisos quando por dentro a tristeza ameaça inundar os olhos a qualquer momento.
Sinto-me bastante gasta mas muito grata, e ainda há muita estrada para andar. Como tal, já fizemos alguns planos para um divertido jantar de Halloween e uns outros para muitas mais viagens em transportes públicos nas férias do Natal, que estão quase aí à porta, neste ano da nossa Fórmula1, em que era prioridade atravessar a meta com boa classificação e manter sempre a pole position.
Ver a saúde de regresso e a trazer com ela cor e força e contemplar as crianças felizes e interessadas é seguramente a minha poção mágica.
Assim possa ser.

Muitos parabéns pela iniciativa. Acredito que os seus netos não a vão esquecer.
Escreveu “Sinto-me bastante gasta, muito grata”; mas não será que queria escrever “Sinto-me bastante grata, muito grata”?
Falta ali um “e”…
Mas é gasta não é gralha, é realidade.
Nas entrelinhas disse-nos que com tudo isso construiu coisas maravilhosas, que foram as memórias da infância dos seus netos, onde a Dulce terá um lugar de destaque. Não é coisas pouca.
Obrigada, Paulo. Pode ser que se não fosse o problema da mãe , eu nem tivesse essa lembrança. Preferia mil vezes não ter sido necessário improvisar, mas acredito que eles não se vão esquecer das passeatas e de outras coisas que foram ocorrendo conforme a necessidade, como ter coleguinhas a dormir cá em casa…
Não tinha entendido que tinha sido essa a motivação. Espero que tudo corra pelo melhor, Dulce.
Numa primeira fase, não poderia ter corrido melhor, Paulo. Obrigada¡
Os seus netos nunca tinham andado de transportes públicos???!!!
Os meus filhos andam neles desde pequenos…
Espantoso, não é verdade?! Veja lá… que horror!
Não saem aos pais ou aos avós. Garantidamente.
infelizmente pouca gente conhece Lisboa.
fez-me lembrar este escrito:
Sexta-feira, 26 de Novembro de 2004
Ó patego, olha o balão!
Esta era uma frase que se ouvia aí há uns quarenta anos, quando eu era uma jovenzinha de dez. Foi do que me lembrei hoje, quando vi aqueles mirones todos à porta do Tribunal logo de manhã.
Aquela frase, que acho que já ninguém usa hoje, queria dizer mais ou menos que alguém estava especado e feito parvo para qualquer coisa que não tinha nada de especial para ver.»
À porta do tribunal, não é assim tão estranho encontrar caras conhecidas que deixem o olhar especado. Não fora a data do escrito que transcreveu, assim de repente vêm-me à ideia meia dúzia de ideias para o “Ó patego, olha o balão”!
Cara Dulce, não sou avó (um dia, muito gostaria de ser), mas sou mãe.
Não sei se percebi bem, mas inferi pelas suas palavras que algo de preocupante em termos de saúde se passou com a mãe dos seus netos, presumo que sua filha.
Os corações de mãe sofrem sempre muito, pelos mais variados motivos. Imagino que os corações de mãe que também são avós ainda sofram mais.
Como mãe, endereço-lhe toda a minha solidariedade, desejando que essa nuvem cinzenta rapidamente se dissipe . Não nos conhecemos, mas, acredite, estou consigo…
Muito obrigada, Paula. Cremos que o pior já passou, mas também não sabemos, como aliás ninguém sabe, se é definitivo. É difícil para quem sofre no corpo e para quem sofre na impotência de não poder ajudar mais.
Desejo de todo o coração que tudo se componha no capítulo Saúde ( se bem percebi as “entrelinhas”…).
E permita-me um “apunte” : que felicidade os seus netos terem-na como Avó…
JSP
Se eles me recordarem metade de como eu recordo a minha avó, a felicidade é minha, JSP. Obrigada.
contemplar as crianças felizes e interessadas é seguramente a minha poção mágica
Quem escreve isto é exatamente a mesma pessoa que há cinco anos ajuizava como perfeitamente razoável aprisionar essas mesmas crianças em casa para que elas não pudessem contribuir para contaminar os avós, nomeadamente a própria Dulce.
O Balio nunca muda. Nunca. Continua aquela pessoa sensível de sempre, que tira tudo do contexto só para não estar calado. O que no seu caso seria mesmo uma virtude.
Ainda bem que estiveram dias bonitos e amenos para a ajudar nessas passeatas e actividades para iludir a lentidão do tempo e a ansiedade…
Com uma pessoa tão leal e dedicada como a prezada Maria Dulce ao lado a partilhar o peso dos momentos maus, fica o pior do caminho muito suavizado. Há ocasiões na vida em que um acto útil vale mais do que mil palavras simpáticas, por sinceras que sejam; e os percalços graves de saúde são sem dúvida dessas ocasiões.
E deve gastar muito, sim, acredito. Mas quando um destes dias olhar para trás vai decerto sentir uma pontinha de merecido orgulho, daquele que só se sente quando damos sem reservas o melhor de nós. Portanto, allez!, e que tudo corra muito, muito bem!
Paz. Queria sentir paz. Daquela paz que se encontra na profundidade de um respirar. Daquela paz que aura onde quer que o olhar repouse e me dê vontade de rir, chorar e agradecer. Pode ser que, com o tempo a consiga alcançar. Obrigada Zebra.
Fico muito contente com as boas notícias que aqui nos traz, Dulce. Estou consigo, continuarei a estar. E cumprimento-a por esta tocante crónica familiar: tenho a certeza de que os seus netos, no futuro, gostarão muito de lembrar estas carinhosas palavras da Avó.
Obrigada Pedro. Estamos muito contentes por esta vitória. Foi muito renhida e muito merecida. As crianças entendem que existe alguma gravidade nas palavras, nas acções, nas ausências. Distraí-los sem os excluir foi fundamental para todos. Claro que houve momentos maus, mas deu-se sempre a “volta ao texto”. E como é para continuar, o caminho é em frente. Obrigada pelo apoio. Bem haja.
Fico feliz por saber que as coisas estão a melhorar, Maria Dulce. Não há nada mais assustador para mim, enquanto mãe, do que algum mal sobrevenha aos meus filhos. Magnífica crónica, feita de amor e resiliência. Um beijinho e desejos de boas melhoras para a sua filha. 💗
Tenho muita fé de que vai correr tudo bem. Assustador, muito. Muito mesmo. Obrigada Susana.
Tinha uma forte sensação que algo
de grave lhe estava a acontecer, MDF.
Feliz por saber que tudo está alinhado no
bom sentido. 🌻💐
Obrigada Kika. Já tinha saudades suas.
Tenho fé que vai correr tudo bem.
Não me faça chorar, MDF
Nada disso. Beijinhos
Ben l’Oncle Soul and Gregory Porter – Grandma’s Hands
😍😍😍😍😍
Se isto não é ser uma avó coragem, não sei o que seja!
Que esse combustível nunca falte.
Coragem, não sei. Força de vontade sempre tive muita, Teresa. É preciso? Faz-se… dê lá por onde der. O meu receio é mesmo o combustível, mas por enquanto vai dando. Beijinho e bem haja.😘😘😘😘😘😘
Encanta-me essa habilidade que a Dulce e o seu marido possuem para lidar com crianças, sem consumismos, nem luxos. Andar de transportes públicos, percorrer a cidade, visitar locais que valem relamente a pena… Não podia ser melhor.
Tudo a correr igualmente pelo melhor, Dulce
Se Deus quiser, o furacão vai passar… já perdeu a força, até. Depois é voltar a construir com a vontade de fazer um futuro melhor.
Obrigada Cristina. Bem haja.
Uma mulher extraordinária.
Saúde.
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
O valor da saúde anda em queda livre. Deus ajude quem a perde… Obrigada!